terça-feira, 24 de dezembro de 2013

FELIZ NATAL.





Com toda esta euforia desmedida por compras, atropelos e consumo desenfreado, salpicar de afagos cínicos, mesas recheadas de contratos burocráticos e firulas amareladas, poderíamos ao menos refletir que o espírito que simboliza o período é aquele orquestrado por um movimento de fraternidade e solidariedade.

O valor da presente data cristã deveria, ao menos, representar, um momento de possibilidade de pensar um outro mundo, com menos padrões de desigualdade e maior divisão da riqueza, com os frutos serem melhores distribuídos e que paramos com esta neurótica e fratricida "mania" de destruirmos uns aos outros. Aos não-cristãos e aos "religiosos" ateus, as premissas servem perfeitamente para todos.

Que possamos pensar na Paz como uma possibilidade real, para ser operacionalizado no cotidiano e não apenas representar uma vaga metáfora no porta-retrato do calendário do ano anterior. A Paz como uma construção de não-agressão e de solidariedade perante o outro e como valor fundante de uma sociedade realmente fraternal. Isto não é utopia se pensarmos o quanto somos desprezíveis do ponto de vista atomístico diante da escala do nosso vasto universo. Somos nada perante o Cosmo e podemos ser tudo perante um outro ser vivo habitando este planeta.

Ah sim, não há problema com os presentes em si mesmos. A questão é que quando há uma possibilidade de confraternização, quando tudo se reduz somente em esvaziados "presentes". Logo, o que sobra de tanta "presenteio" é o velho embrulho amassado e atirado ao lixo para virar, no máximo, candidato à matéria inorgânica. Uma oportunidade como o Natal, deve (e carece) pedir muito mais...

Enfim, um bom Natal a todos!  

quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

Judicialização e o mundo feudal acadêmico.






O Brasil é um país que realmente que ser levado a sério? Tal como o escandaloso tapetão do futebol nacional proporcionado pelo Superior Tribunal de Justiça Desportiva (STJD) que livrou o Fluminense do rebaixamento em campo e, usando um artificialismo jurídico, colocou a Portuguesa em seu lugar, agora a conservadora Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais (ANPOCS) vem querer colocar panos quentes em algumas reclamações dos processos seletivos para a Pós-Graduação nas universidades públicas se dizendo contra a "judicialização" dos candidatos que buscam seus direitos por se sentirem prejudicados pelos feudos locais.

Justas ou injustas as reclamações, a falta de transparência nestes processos seletivos reina e deixa os todos eventuais prejudicados e descartados com um sabor de indignação nos lábios. Particularmente sou contra o excessivo judicialização da sociedade por considera-la um mecanismo truculento nas relações sociais. Todavia, quem já passou por tais processos seletivos e ficou com “cara de otário” perante eles, é difícil não fica indignado.

A academia parece não querer rimar com transparência e prima pelo conservadorismo feudal entre seus pares e entre seus subordinados acadêmicos. O que torna ainda mais risível que alguns alunos de algumas universidades acharem que basta invadir reitorias para pleitear eleições diretas para reitor com demagogos candidatos-marionetes que resolveria instantaneamente todos os problemas de uma universidade. Haja ingenuidade juvenil! O problema não é meramente um ilusório mecanismo eleitoral e pseudo-democrático, mas sintomaticamente estrutural. É praticamente inacreditável que processos seletivos são realizados de forma tão amadores, cheio de erros grotescos, editais cheio de incoerências e que prima pela completa subjetividade que beira à escancarada indecência. Nem Mandrake conseguiria fazer melhor! Desta forma restam as suscetíveis as suspeitas que se trata de um excesso de amadorismo ou, simplesmente, má-fé diante de tais nebulosos processos. Diante do imbróglio, quem reclama e pede transparência, sai com a pecha de "chororô de derrotado". Será mesmo? Se os processo seletivos dentro da Pós-graduação é feito por parâmetros próprios, dentro uma suposta "lógica interna", a transparência deveria ser um componente primordial de suas regras. Fato que não é nada trivial!

Imagine você viajar um bom número de horas para fazer uma suposta prova de processo seletivo para o doutorado numa dada universidade (melhor nem citar o nome do feudo em questão, uma vez que a pequenez revanchista do mundo acadêmico poderá ser similar a cadeia onde reina o terror do crime organizado). Logo, caro leitor, você faz uma prova com vários candidatos em uma sala que é um cubículo, um coladinho no outro como num "baile funk", folhas de prova sem nomes ou qualquer tipo de referência, sem exigências de documentação do candidato na hora da prova e, posteriormente, mal o eventual candidato chega a sua residência, ao final do dia, já tem os nomes dos "selecionados" previamente postados na internet. Provas e resultados divulgados, tudo isto em menos de oito horas corridas. Mágica ou eficiência acadêmica? Claro que nada impede que todos os professores do departamento de Letras sejam incumbidos de corrigirem as provas dissertativas de língua estrangeira (na lógica feudo-produtivista, basta enrolar a língua para balbuciar "hot dog" e ler em "engreis" e já se transforma num exímio pesquisador com tipologia de vitamina do CNPQ!), mas esta hipótese é tão improvável quanto à entrega nos prazos estabelecidos pela FIFA dos estádios brasileiros para a Copa do Mundo a ser realizada nos próximos meses. Os absurdos não param por aqui e segue muitos outros que levariam muitas páginas para descrevê-los. Depois, percebem-se quais são excelentíssimos, subjetivíssimos, questionáveis e, algumas vezes, risíveis projetos aprovados! De fato, lamentavelmente, não há candidato que resista tamanho teatro circense e os que ainda têm alguma dignidade vão fazer outra coisa na vida, longe destes centros feudais, obscuros e corporativos (lembrando que independente da ideologia adotada, do mais esquerdóide ao mais fascista, o indivíduo, sintomaticamente, em sua essência mínima, projetam sentimentos similares em seu estado mais primitivo).

Diante de um mar de incoerências e falta de transparência, o charme da academia se desfaz no ar. A sensação natural é que pesquisa no Brasil em particular, no campo das Humanidades, é como uma seita secreta para os iniciados e suas intermináveis brigas de departamento, seja por verbas, seja por espaço físico (uma salinha poderá ser o ótimo motivo para descarregar muito ódio interno em retaliação a um dado oponente dentro da lógica tribal dentro do feudo). Acrescenta-se ainda, psicanaliticamente refletindo, a vaidade narcísea, é um forte tempero envenenado que atinge tais recintos de forma a inviabilizar muitos projetos e até mesmo toda a estrutura de um dado departamento. Logo, predomina a política do “meu quinhão primeiro” que geralmente se perfila com voz ativa nos interstícios dos departamentos acadêmicos, muitas vezes prejudicando os bons professores-pesquisadores e dando benevolências aos politiqueiros de plantão. Diante do quadro, qualquer semelhança com a realidade fora dos muros acadêmicos, não será mera coincidência.

Ademais, pergunta-se se a ANPOCS está preocupada com este processo de feudalização acadêmico? Claro que não, seu negócio e fazer suntuosos e caríssimos "encontros nacionais" para ter uma fotografia no porta-retrato. Ponto final! Logo, é perfeitamente compreensível o apelo comodista que tal entidade faz contra a tal "judicialização" dos processos seletivos, agora, com apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), cuja sua burocracia e porta de forma igualmente comodista e embriagada pela lógica feudo-neoliberal.

Luz para o final do túnel?  Improvável, uma vez que se imaginarmos um Sistema Judicial no Brasil sendo um dos recintos mais conservadores deste país, o mundo acadêmico, paradoxalmente, é um nicho tão conservador e, pior ainda, retrógrado, aonde vem reproduzindo sua maquinaria engessada e feudal, ano após ano. Temos que avançar (e muito!) para que as universidades públicas não sejam uma mera fábrica de expedição de diplomas dentro de um universo de faz-de-conta, tal como ocorre no setor privado. Sim, as universidades públicas devem buscar bons níveis de excelência e compromisso com elos entre o conhecimento e a sociedade que a irriga com dinheiro público, todavia a ética, o respeito e a transparência não devem ser quesitos para serem jogados debaixo do tapetão.  

Sem ficar mimetizando ilusórios modelitos importados, é fundamental que cada nação em desenvolvimento construa seus próprios projetos científicos e sociais e, no caso do sistema universitário brasileiro, tal premissa não poderia ser diferente. Entretanto, no microcosmo acadêmico, um feudo, aparentemente, somente seria benéfico para quem está assentado com seus suseranos e vassalos, mas é nefasto para o desenvolvimento de pesquisa e conhecimento e, pior ainda, para a sociedade.

quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

Feminismo pós-moderno (ou o que restou do feminismo) no divã.




Suspeito que os “novos tempos” do feminismo estejam na antessala da neurose: ora pende histericamente para o lesbo-feminismo onde todo homem é machista, feio, mau e estuprador (não, necessariamente, nesta ordem), ora pende para a livre liberdade de prostituição, "a arte de fazer amor como um bom negócio, inclusive, social" (claro, agora se tornou uma "honra e digno" ser prostituta em tempos neoliberais com selo do Ministério da Saúde!). Eis a confusão entre sexualidade feminina, exploração de seres humanos e altos lucros com a genitália em tempos de identidades descartáveis.

Nesta miscelânea que a Pós-modernidade oferta, no grande liquidificador de alhos com bugalhos e sobra pedestal para tão poucos santos. Quando interessa o discurso do "homem mau", logo, todos são machistas e estupradores. Quando é sobre "liberdade sexual", o mesmo homem mau e estuprador é bem-vindo para pagar seus vinte minutos de esporro com as dignas e honradas putas comercializáveis ("as atrizes do amor").

Descartando a "sociologia da vitimização" que não leva a lugar algum, exceto o exagero no paternalismo maniqueísta, é difícil levar a sério esta nova "leva" de supostas feministas, que mais parecem carecem de um lugar no divã ou de uma melhor sensibilidade do que realmente é a realidade (e para além dela).

Enfim, que Simone Beauvoir esteja descansando em paz!

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

A questão da cannabis: Aqui não é o Uruguai, nem lá é o Brasil





Vem se criando toda uma prosopopéia, sem eira nem beira, por parte de alguns grupos pró-liberação da maconha que, agora, buscam justificar sua demanda com algo que sequer foi regulamentando no Uruguai. Lá, o governo do humanitário presidente José Mujica tenta na base de lei governamental liberar o uso da maconha com controle estatal (todavia, ainda sequer foi definido com será tal procedimento e se terá êxito esse processo). 

Por que o Uruguai não é o Brasil? Simples: a nação do bom e sincero presidente José Mujica tem uma extensão territorial menor que o Estado do Paraná e um terço da população que tem neste mesmo Estado. As questões problemáticas já começam por aí. Ademais, nenhum país, nem mesmo a tão liberal Holanda teve efeitos duradouros com a liberação massiva de drogas (com idas e vindas em seus estatutos), considerando que lá também é uma espécie de Uruguai européia em dimensão e população. Portanto, o nível de complexidade da relação Brasil com o Uruguai é drasticamente maior e com maiores impactos sociais. Isto não é apenas retóricas numéricas, há ainda questões voltadas para o conservadorismo de parte significativa da sociedade que é intrínseco a qualquer sociedade (o que pode variar é a intensidade em cada meio social).

Curiosamente, de tantos problemas substanciais brasileiros, um dos mais irrelevantes (levando em consideração que não são elementos prioritariamente estruturantes, mas que tem seu potencial de sublimação) e que conduz mais níveis de violência se concentra nos vícios privados, enfatizando o desejo pela droga (ou seja, onde há a Lei, funda-se o desejo; na ausência da Lei, há o desapego). Todavia, do ponto de vista de políticas públicas, nem sempre as coisas são tão triviais quanto possam parecer, principalmente, em países com profundos problemas estruturais como é o caso brasileiro.

Sintomaticamente, ainda sobreos problemas latentes na sociedade brasileira, há aqueles que procuram se organizar em grupos para pedir liberação de um bem basicamente supérfluo (o prazer da sublimação), o que caracteriza de imediato a pouca importância pelas demandas urgentes de boa parte dos brasileiros em situações precárias e, seguindo esta linha, de uma profunda natureza narcísica de auto-interesse imediatista (fenômenos escancarados na Pós-modernidade). Questões que também deveriam ser refletidas por tais grupos pró-drogas nesta ficcional Suécia Morena imaginada por eles e onde quase tudo já foi consertado em nosso Éden tropical. Oxalá se fosse tão real assim!

Mesmo que liberado a comercialização da cannabis, não deixará de ter o seu "mercado negro" com suas máfias características buscando menores preços que os supostamente praticados pelo controle estatal permitindo e de maior potencial alucinógeno (não vamos esquecer que estamos mergulhados até o pescoço com as leis do mercado e, um bom exemplo de oferta diversificada são os derivados de mudas de maconha transgênica, potencialmente mais forte e viciante). 

Salienta-se que se a experiência uruguaia der bons resultados em seu território, isto requer tempo e, provavelmente, é um mérito que deverá ser entendida como apenas um sinal que em comunidades pequenas, a liberação controlada de maconha poderá ter alguns avanços significativos do ponto de vista social. Toda liberação de drogas deveria ao menos ter um olhar prioritariamente de saúde social, é neste campo tão fundamental que raramente é debatido, apenas voltado pelas necessidades consumistas imediatas. Ademais, poderá ter outras possibilidades de estudar uma abertura para fins supostamente medicamentosos, mas que teria uma forte regularização estatal.

Para a classe média branca, bem nutrida e com grana para bancar, sustentar e patrocinar a violência social que tanto ela reclama, parece tudo muito simples. Trocando em miúdos, são os elementos desta mesma classe média que busca puxar um fumo sem os constrangimentos legais de ter um policial querendo "cortar o barato". Para tal grupo que raramente faz questão de olhar para o próprio umbigo (típico das classes pequeno-burguesas), parece simples liberar numa única canetada uma lei qualquer de alforria para drogas e todo o paraíso alucinógeno adjacente como se não tivesse nenhum efeito colateral e fortes impactos sociais de curto à longo prazos. Não é um debate tão simplista e genérico como tenta demonstrar de forma falaciosa a maioria dos que propõem a fazê-lo (naturalmente com interesses de consumir a bendita erva!).

Ademais, já temos um sortilégio de drogas nefastas que são legalizadas causando anualmente um incalculável prejuízo para o Brasil em ordem financeira, material, prisional, médico-psico-hospitalar e, lamentavelmente, em trágicas e inúteis mortes (de forma direta ou indireta por razões ligadas ao consumo de drogas). Mais drogas a disposição legal na sociedade seria apenas ampliar as velhas e trágicas estatísticas e apenas permite a grande ilusão de criar paraísos artificiais via os fáceis mecanismos alucinógenos. Liberar mais drogas na sociedade seria apenas criar mais fugas alucinadas para ocupar um espaço em sociedades tão intrinsecamente esvaziadas.
Pergunta-se até  quando a sociedade quer se ocultar diante desse tipo de debate imediatista, frágil, ralo e insípido de suas querelas existenciais?





sexta-feira, 29 de novembro de 2013

O autoritarismo eletrônico e as efêmeras relações objetais






A Pós-Modernidade vem sendo um palco onde tudo parece ser o que não é; e onde o que é, não quer ser. Nesta premissa, muitas mulheres parecem conseguir o patamar de muitos outros homens: a equidade na estupidez. Para quem tem dúvidas que toda aparecia moderna é muito mais pretensiosa do que sua essência, tudo indica, tal equilíbrio entre gêneros vem se aproximando com relativo sucesso.

A impunidade é um convite para a ação irrefreável, ou seja, é o lugar onde a castração não foi fundada. Logo, diante da sobra do anonimato, se permite fazer tudo na era da tecnologia ao alcance da ponta dos dedos, inclusive as mulheres cultivarem posturas autoritárias e ofensivas e, curiosamente, podem também fazer o mesmo que alguns homens fazem contra muitas mulheres: o sintomático abuso. Um novo aplicativo para celular foi inventando tendo a brilhante idéia de dar notas aos homens as quais as mulheres "trepam" (ou fingem fazer tal exercício físico) em baladas, ficadas e afins. Tudo muito inovador e moderno, tanto quanto, moderno era o fogão a lenha.

Depois, para delírio histérico do lesbo-feminismos, muitas destas mesmas mulheres, que compartilham com este universo de hostilidades grotescas, futilidades voláteis e relacionamentos patológicos, se posam de sacras vitimas indefesas de homens cafajestes ou com sérios problemas de transtorno de personalidade. Logo, quem seria o culpado disto tudo? Lá vem a "Sociologia da Vitimização" tecendo seu cabedal de pérolas politicamente correta, mas que não leva a lugar algum, exceto a incidência do gozo no papel de "vítima". Como sempre o Outro é o culpado e nunca a condição do "Eu" se torna protagonista, ou seja, a eterna voz passiva do velho discurso da vitimização por osmose.

Na onda do autoritarismo eletrônico, o Facebook, por exemplo, vem se tornando cada vez mais um espaço de manifestação de calúnias, injúrias e intolerâncias de toda a natureza, praticando tanto por homens quanto por mulheres (inclusive adolescentes). A agressividade transpõe o cotidiano palpável e inunda o info-mar das redes sociais. Logo, sem castração, as redes sociais se tornam o um espaço sedutor para o despojamento do ego sem sofrer tanto a influência "paternal" do superego.

Com a falsa impressão que as pessoas estão mais próximas via meio eletrônico, mas mantendo-se afastados da realidade física (ou seja, a interação da não-relação), estamos evoluindo para uma predominância de relações fluídas e descartáveis, cada vez mais covardes nas posturas perante o Outro, a falência do respeito e a canalhice generalizada nas relações sexo-objetais. Por outro lado, a superação deste caminho seria um retorno à tentativa de aproximação da realidade, do elemento concreto, de se posicionar perante o olhar e a dor do Outro. Certamente, é uma via nada trivial.

Safatle: A face da pseudo-esquerda ilustrada acadêmica

Em artigo nesta sexta-feira , o professor Vladimir Safatle, ligado ao PSOL, mostrou, mais uma vez, todo o mau-caratismo que lhe é muito...