terça-feira, 19 de abril de 2011

Um Senador Desabilitado na Política sem Freio




No último domingo, 17 de abril, o ex-governador das Minas Gerais, atual senador e futuro postulante ao Planalto, o tucano Aécio Neves no alto de sua soberba de político “democrático” foi flagrado numa situação patética no Rio de Janeiro. Parado numa blitz na Avenida Bartolomeu Miltre, no Leblon, o tucano ávido herdeiro da moral e dos bons costumes se recusou a fazer o teste do bafômetro. Para completar o inusitado quadro, sua habilitação estava vencida. No computo da situação da digníssima eminência parda do bom mocismo da política nacional, Aécio levou para casa (sem dirigir, é claro) a "polpuda" multa de R$ 957,69. Diga-se de passagem que foi louvável a atitude dos policiais que realizaram a abordagem do veículo sem se submeteram a popular "carteirada" do ilustre desabilitado que é tão comum da genealogia cultural do "jeitinho brasileiro".


Dias atrás, o mesmo senador tucano inflava seus pulmões nas tribunas do Senado um discurso inflamado e se autoproclamando o guardião da “oposição responsável” no país contra o governo neopetista de Dilma. Seria cômico se não fosse tragicômico que no Brasil ser “oposição” é tão somente reverberar laudatórias demagogias e pleitear mais cargos para os “aliados” em gordas boquinhas no vespeiro infeccioso da administração publica de alto escalão.


A lógica da política brasileira de dignidade chinfrim é tão profunda quanto um pires. As elites econômicas talham a política conforme seus interesses privados e os “eleitos” apenas administram a “ordem pública” de acordo com a farra bisonha das contribuições pré-eleitorais. “Fatos pontuais” como desvios de conduta, corrupção endêmica e crimes eleitorais ou não, tudo é envolto num grande tear putrefato da política nacional que é tão moderna quanto os primeiros australopitecos que perambulavam no continente africano há quatro milhões de anos.


O curioso no caso do episódio envolvendo o senador tucano foi a postura de alcova da imprensa. A "Big Media" fez vista grossa ao principal nome da “oposição” da política brasileira. Tratou delicadamente o caso com um “desvio normal" que “qualquer ser humano poderia fazer". Claro, dirigir com habilitação vencida e se esquivando do bafômetro como o Diabo da cruz é algo realmente muito “normal” de qualquer “cidadão”! Não custa lembrar que o nobre senador é atualmente o nome mais forte para subir a rampa do Planalto. Caso vença a disputa interna do seu partido (particularmente na briga com o clã paulista representado pela dupla fratricida José Serra e Geraldo Alckmin), Aécio será o nome da tal “oposição” ao neopetismo em 2014 e se entronará como representante do setor mais neoliberal da sociedade brasileira. Naturalmente, a ocultação pela Big Mídia do deslize do senador tem como o óbvio e escancarado objetivo de colocar em formol o suposto ilibado caráter de “homem público honrado”.


A política é a arte da lobotomia casual. Em defesa do pobre tucano de bico sem bafômetro, vale ressaltar o episódio curioso ensaiado pela atitude do ex-cara pintada e neopetista de retórica atucanada, Lindberg Faria, o senador pelo Rio de Janeiro. Amigo no Senado, Lindberg do PT, com mesma rapidez que se nega o teste do bafômetro, de prontidão virou um inusitado guarda-costa do ilustre democrático e pudico tucano ao defender a “figura pública” do senador mineiro no Twitter. O cinismo na política somente não é mais bizarro porque é um elemento constituinte da genética da política brasileira e suas parasitárias práticas da leviandade corporativista. Em tese para "boi dormir", o PT do senador fluminense e o PSDB do colega mineiro são “partidos distintos”. Episódio como este, entre o senador desabilitado e seu colega bajulador fazem coro na farra da irresponsabilidade política dos tais “homens públicos” e que reduzem o debate político em meras retóricas estéreis entre o “vermelho” e o “azul”, o "bom" e o "mal" ou o que “rouba mais” e o que “rouba menos”.


Coroando a lambança do senador tucano, em vídeo gravado em julho de 2009 e disponível no YOUTUBE, mostra o então sorridente governador Aécio Neves anunciando a criação do batalhão de Trânsito em Minas Gerais. Mais irônico ainda é o depoimento colhido pela Agência Minas onde o desabilitado tucano falava vigoroso aos microfones sobre a “Lei Seca” e a tal responsabilidade do publicitário “Se beber, não dirija”. Eis o Brasil do cinismo cartorial: fazer milionárias campanhas publicitárias de manipulação popular voltadas principalmente aos mais jovens consumirem sedutoramente bebidas alcoólicas e tabaco pode... Beber não pode! Retóricas, retóricas e mais retóricas...


Aécio desabilitado é apenas mais um da via fácil da política que esquarteja a retórica bufona do discurso inflado da vida prática real. Neste lodaçal interminável de hipocrisia, segue a vida real numa sociedade com seus milhares de mortos anuais estirados no leito do asfalto devido aos acidentes de automotores movido pelo irresponsável consumo de bebidas alcoólicas aliada a inabilidade ao volante. Na estrada da via política do retrovisor quebrado, prossegue sem parada a trágica amálgama entre discurso e prática contaminada numa surreal democracia polvinhada de figuras públicas ridículas, irresponsáveis, sem freio e sem nenhum compromisso com a população.




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