sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Da farsa à falta de idéias: o poder da mídia e cenas da desertificação política brasileira


1. A propaganda midiática como arma

Nenhuma guerra é travada apenas com ideologia, ódio, liturgias, destreza e chumbo. As guerras evoluem de acordo com o materialismo e as crenças vigentes nas sociedades de cada época. A partir do século XX, foi necessário algo que pudesse permear o inconsciente social dos indivíduos e fazer que haja uma adesão popular arrebatadora para a guerra ser travada com maior possibilidade adesão popular e êxito: a propaganda midiática.

A Alemanha pré-nazista era um Estado economicamente moribundo após as sanções sofridas decorrentes de sua derrota na Primeira Guerra Mundial, politicamente vivia um clima de uma agitada e frágil democracia e a resignada desesperança reinava por todo o solo alemão. Na guerra entre comunistas e radicais de direita, um partido se destacou no cenário da democracia alemã na República de Weimar: o Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães (da sigla em alemão, NSDAP), conhecido simplesmente como Nazi (abreviatura do nome em alemão “Nationalsozialistische”) e dirigido por Adolf Hitler. O futuro “Führer” sabia que poderia usar todo este quadro desesperador como trunfo para seus interesses políticos e contou com a colaboração irrestrita de Joseph Goebbels um dos seus mais fiéis parceiros para a articulação e construção do ideário nacional-socialista. Desde a ascensão do partido nazista ao Reichstag em 1930 até a invasão soviética à cidade de Berlim em 1945, Goebbels foi um dos maiores expoentes do núcleo dirigente do fascismo alemão e trabalhou enfaticamente com a utilização massiva com todos os elementos da propaganda midiática de sua época para a construção de mitos e fortalecimento da ideologia nazista. Goebbels tinha uma clara noção de como os meios de comunicação, em particular o cinema e o poder da oratória, poderia permear o tecido social e adentrar o espírito desgastado e ao mesmo tempo aguerrido do povo alemão. O “novo homem” sonhado por Hitler e mitificado por Goebbels passaria necessariamente por um “esclarecimento” das massas arianas contra a “infâmia” do complô judaico-bolchevique. Filmes como “The Jew Süss” (1940), “Uncle Krüger” (1941) e “Kolberg” (1945) são exemplos de clássicos cinematográficos de propaganda nazista e suas produções foram supervisionadas de perto por Goebbels (este por sinal era um aficcionado por cinema e queria transformar as produções alemãs na vanguarda estética de uma “nova era” representada pelo ideal nacional-socialista).

Em terras brasileiras, é difícil imaginar hoje uma residência, por mais precária que seja sem uma televisão. Se procurarmos ao acaso, em algum barraco de qualquer periferia brasileira poderá se encontrado uma geladeira vazia, algumas barrigas roncando e uma televisão ligada com alguns pares de olhos esbugalhados à sua frente. Assim como o rádio que constitui no maior fenômeno de comunicação da primeira metade do século XX, a televisão tomou proporções inacreditáveis em até o inicio do século XXI. Todas as novas mídias contemporâneas são apenas suportes para o olhar na tela. A explosão da internet, em especial com o site YouTube, é o exemplo que a imagem é a lente narcísica do homem contemporâneo.

Antes chamada pejorativamente de “quarto poder”, a Big Media gradativamente galgou espaços significativos e vem se postulando como o segundo poder, apenas perdendo para o Poder Executivo. Por mais relutante que seja esta afirmação para alguns olhares mais sensíveis: não há duvidas que o Poder Legislativo somente vem servido no Brasil para a manutenção da fachada de uma semidemocracia e o Poder Judiciário, de tão moroso e controverso em suas decisões, vem se tornando no máximo um mero apêndice do Poder Executivo.

Para o grande capital, pouco importa se uma nação é democrática ou não. O que de fato tem significado para os empresários e investidores são os elementos norteadores que o governo local imputará à economia e salvaguardas que favoreçam os investimentos privados. Os grandes grupos econômicos não têm o menor constrangimento em apoiar regimes politicamente fechados ou despóticos quando seus interesses econômicos são seguramente protegidos. Quem hoje ousaria a não fazer comércio com a “despótica” China? Na era do cínico “politicamente correto”, a propalada “responsabilidade social das empresas” é uma retumbante afronta ao bom senso e a inteligência quando na verdade a única visão que capitalista se preocupa é com sua própria escala de lucros.

O elemento “mídia” envolve um conjunto de significados e simbologias. Os meios de comunicação se articulam com seu poder de participação e influencia dentro da sociedade brasileira. Num país de extensão continental como é o Brasil, o monopólio da comunicação ficou reduzido a um pequeno grupo de famílias que controlam estas mídias e de acordo com seus interesses. Não é estranho que praticamente toda a programação televisiva aberta é tão parecida em formato, conteúdo e bobagem. Até mesmo a programação das partidas de futebol da primeira divisão, principal esporte nacional, é submetida ao crivo e a veleidade da grade televisiva de uma única emissora, a Rede Globo!



2. A Política como farsa

Em épocas eleitorais o cenário é a devastação do bom senso. Uma enxurrada de promessas cínicas e risíveis é ofertada aos olhares resignados dos consumidores e quando estão com o título eleitoral nas mãos, são chamados de “eleitores brasileiros”. Não causa mais espanto a eleição de tipos políticos esdrúxulos com estrondoso número de votos. Os partidos políticos, ou seja, estas agremiações que trabalham como entrepostos mercantis de um balcão de negócios políticos espúrios, arregimentam figuras bem conhecidas da mídia para “puxar” votos para sua legenda (uma estratégia permitida pelas lacunas da lei eleitoral). A figura da vez é o palhaço Tiririca com mais de 1,3 milhão de votos foi eleito pelo maior colégio eleitoral do país para ser o mais novo figurante da Câmara dos Deputados. Sim, Tiririca é o nome principal da “locomotiva” parlamentar paulista que carrega com sua prepotência fascistóide os demais carros vazios no Brasil. Muitos colunistas e jornalistas da grande mídia afirmaram que o voto em Tiririca seria o chamado “voto de protesto”. Seria até curioso alguém protestar votando num “palhaço” que poderá simbolicamente “piorar o que já está”! O que parece é muito mais uma resignação e alienação da própria estrutura da vida social. Trocando em miúdos do extremo narcisismo: “vou cuidar da minha vida e f... o resto!”. Aqui estamos assistindo a adesão massiva de 1,3 milhão de pessoas! Não é difícil de imaginar este tipo de reação quando toda a publicidade canaliza o espírito da agressividade narcísica do seu alvo: o consumidor.

Ainda falando de São Paulo e sua maneira conservadora de pensar a política. O mesmo estado paulista que doou mais quatro anos de mandado para a dinastia governada pelos tucanos ao eleger novamente a figura insípida de Geraldo Alckmin, um represente da Opus Dei para o Palácio dos Bandeirantes. A arrogância conservadora paulista, que tem o maior orçamento entre os estados brasileiros e um dos piores índices de Educação Pública do país. Parece inconcebível que uma sociedade que se diz democrática trate seus filhos de maneira tão grotesca e irresponsável como é a educação publica paulista. Anualmente, saem dos Auschwitz-mirins, a atuais escolas públicas estaduais, milhares de alunos semi-alfabetizados com o “diploma” na mão e vivendo de alguma esperança para o futuro. Jogado à sua própria sorte, o “novo cidadão” parido nestes campos de desertificação educacional poderá ser adotado pelo narcotráfico de sua localidade ou algum emprego que ofereçam generosamente um salário mínimo em troca de sua jornada exaustiva.

O típico paulistano pequeno-burguês reclama esbaforido do programa estatal de transferência de renda, o conhecido “Bolsa Família”, porque produz “vagabundos”, porém nada faz para remunerar com alguma dignidade seu escravo-trabalhador. A eleição da manutenção da dinastia que vai para o imaginável vinte anos de poder do PSDB representa no estado de São Paulo a certeza que os ranços escravocratas estão longe de serem banidos da alma da burguesia local e do espírito de “vira-lata” das classes trabalhadoras. Logo, a democracia em São Paulo para o trabalhador paulista é calar a boca e abaixar a cabeça, labutar por um salário insuficiente, viver suplicando empréstimos em alguma casa de agiotagem oficial, quando possível “limpar” o nome do SERASA-SPC e ainda ter que agüentar todos os domingos o programa do Faustão e Gugu Liberto! Ah, claro... E além de democraticamente escolher seus “representantes” do tear encantado do sistema eleitoral brasileiro.

A democracia à brasileira se faz também com sangue. Mas não com o sangue derramado de supostos “revolucionários”, mas do pobre e marginalizado. Sem pudores, o Rio de Janeiro já sabe como conciliar desenvolvimento com miséria: a solução é o extermínio dos pobres em seus lugares de origem, ou seja, no alto das favelas e sem respingar no asfalto: “É a guerra, cumpadi!” Mais de quinhentos anos após a descoberta de Álvares de Cabral, um novo Cabral fluminense redescobre o Brasil. Não há dúvidas que o “Método Sérgio Cabral” de fazer políticas públicas deve se estender por todo o país até o cartão-postal da “Copa do Mundo” (2014) e dos “Jogos Olímpicos” (2016). No final do dia 03 de outubro do presente ano, Cabral disse entusiasmado aos microfones da mídia logo após a confirmação de sua reeleição no primeiro turno para o governo fluminense: “a mãe de todas as políticas públicas é a política de segurança”. Palavras do “estadista” fluminense que mais parecia um político estadunidense buscando convencer a opinião pública sobre a necessidade da nefasta e perdulária manutenção da tal “guerra contra o terror”. Possivelmente como se internalizou a barbárie à brasileira na guerra civil fluminense, a respeito desta declaração cabralina a Big Media silenciou. E nestas horas vale o dito popular: “quem cala...”.



3. O teatro cafajeste da política nacional: “censura”, aborto, religião e mixórdia.

Tornou-se quase um lugar-comum na Big Media brasileira que estaria falida a designação “esquerda” e “direita”. Além disto, todos os grandes temas nevrálgicos das disputas partidárias estariam “superados”. Logo, uma “nova ordem” estaria estabelecida sob a tutela da democracia neoliberal e suas leis incorruptíveis do livre mercado. Neste sentido, fazendo um excelente trabalho de publicidade, a ideologia neoliberal é avassaladora, tal como Goebbels insistia na veemência sistemática da propaganda (por mais mentirosa que ela seja), até conseguir seus objetivos. Neste contexto de desertificação política, todos os políticos seriam iguais e nada se poderia esperar de forma tão “revolucionária” da política além da mera expectativa do transcorrer do tempo. Jogando a questão visceral dos problemas inerentes da diferenciação das classes sociais para debaixo do tapete, esta natureza asséptica da política neoliberal pulverizaria toda expectativa de mudança social.

Atualmente o brasileiro se vê obrigado a escolher, entre dois nomes, um que irá ser o chefe-maior do seu país. A petista Dilma Rousseff e o tucano José Serra seriam diferentes entre si? Ou seria tão radicalmente diferente como a Big Media faz questão de publicar em seus jornalões diário e suas revistas semanais? Se pautarmos pelas revistas semanais como a “Veja” do grupo Abril, é possível pensarmos que estamos vivendo na Idade Média com a demonização da candidata Dilma contra a sacrossanta presença do candidato tucano. A tal “verdade” rotulada pelos veículos da Big Media é tão robusta como gelatina. O que ainda espanta é o caráter “vitimalógico” que alguns setores da imprensa, em tons eleitoreiros pró-candidato tucano, querendo imputar a idéia que haveria uma “censura” no Brasil. Justamente as grandes detentoras de lucros com a publicidade e sempre partidárias do modelo neoliberal se postularam como “reféns” de um suposto ataque à imprensa por parte do governo Lula. Para deixar um cenário mais turvo, alguns intelectuais estranhamente entraram neste barco histérico do “retorno” à censura justamente (e estranhamente) neste período eleitoral para atingir a candidata petista. Eis o nível do “debate” autista que a Big Media propõe ao país: a dispersão de mexericos, intrigas e mentiras em nome da “política nacional”.

O candidato José Serra é uma daquelas figuras que não hesita pisar no pescoço da própria mãe a fim que possa ganhar alguma vantagem. Foi assim que conseguiu se livrar do cotado presidenciável colega de partido, o rival mineiro Aécio Neves e ocupar espaço dentro do PSDB para impor novamente sua candidatura ao Planalto. Na guerra das bobagens políticas que se transformou o as eleições para eleger o sucessor de Lula, entre o besteirol a respeito do aborto e apelações religiosas esdrúxulas, Serra utiliza-se o marketing e da mentira sem piedade na tentativa de ser um bom discípulo de Goebbels. O mote tucano é simples: o Serra é o “Bem” numa campanha que ele é o agente azul da bondade contra o vermelho maléfico da petista Dilma. É uma velha estratégia que ainda pode colher frutos numa sociedade politicamente aculturada, apática e conservadora, principalmente nas capitais de grande concentração de votos como São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte.

No vale-tudo (e vale mesmo!), vale até mesmo encenações teatrais patéticas, como ocorrida ontem, 21 de outubro, no Rio de Janeiro. Serra numa caminhada pelo bairro de Campo Grande é atingido por uma bolinha de papel na cabeça e segue normalmente o percurso. Depois recebe uma ligação de celular e coloca a mão sobre a cabeça sem nenhum ferimento aparente. A encenação que seria reprovada por Veit Harlen, grande cineasta de Goebbels, provavelmente foi motivado por algum arauto de sua estratégica de marketing. Em seguida, em meio ao tumulto entre partidários tucanos e petistas, a “vitima” tucana é levada a um hospital para fazer exames. Toda a cena foi filmada pela câmera do jornalismo do SBT. A farsa somente se completaria no dia seguinte, com declarações do presidenciável tucano responsabilizando o presidente Lula pelo “clima de guerra” na campanha. É inadmissível qualquer ato que atinja fisicamente qualquer pessoa, seja ela candidata a algum cargo público ou não. Todavia é mais reprovável ainda que um candidato ao posto político mais importante de um país utilizar-se de métodos patéticos e simplistas para criar falsos fatos políticos.

A desertificação política prossegue em largos passos. Na mais bisonha e preocupante falta de idéias de programas políticos para o Brasil, os dois candidatos ao Planalto demonstram a clareza da falência de reais projetos políticos. Se de um lado, Dilma se tornou uma espécie de vitrine do governo Lula para conservar a continuidade dos oito anos da gestão que teve sua participação direta; por outro lado, Serra vem querendo fazer o mesmo que Dilma (mudar para deixar exatamente tudo como está), com apelações políticas ainda mais reacionárias e conservadoras ao estilo da histriônica ex-vice-candidata republicana ao lado do ex-presidenciável John McCain à Casa Branca em 2008, a fascistóide Sarah Palin, ex-governadora do “estado-potência” do Alasca. A exemplo de Palin, no desespero de campanha, Serra prega um retorno ao um moralismo conservador o qual ele se postula como um arauto dos bons modos e costumes na terra sagrada de Macunaíma. Dias atrás, no calor da campanha em Goiás, a cena de Serra beijando um crucifixo para o público seria hilário se não fosse preocupante o fato de um candidato ao posto mais importante do país se sujeitasse ao apego à uma falsa cristandade. Dilma não ficou atrás e se tornou visível sua preocupação em se aproximar das pregações evangélicas reacionárias temendo perder votos para este público com ideais de progresso medieval.

Nesta disputa de quem diz mais mentiras e bobagens na política brasileira, duas figuras do mantra evangélico entraram em debate, o empresário Edir Macedo, vulgo “bispo” da bilionária Igreja Universal do Reino de Deus e o pastor Silas Malafaia da corrente de uma das “Assembléias de Deus”. Macedo que em 1989 apoiou Collor de Melo para presidente e comparou o então candidato Lula ao diabo. Hoje, com seu peculiar cinismo, Macedo diz apoiar Dilma, a candidata de Lula à presidência. Malafaia, por sua vez, afirma apoiar Serra. O debate entre as duas figuras do mercado evangélico se pontua no explicito preconceito jurássico: a questão do aborto e do casamento de pessoas de mesmo sexo. Discutem com se o aborto fosse um tema meramente dos homens e como se as mulheres fossem débeis demais para julgarem o desenvolvimento de biológico, psicológico e de saúde de seus próprios ventres.

Ademais, como se de fato algum destes dois empresários evangélicos ou algum grupo de políticos oportunista estivessem preocupados de fato com a vida alheia ou com o desespero atávico de alguma mulher grávida pauperizada, depressiva, solitária e sem esperança. Para estes chefes de organizações empresariais do Evangelho, o importante mesmo é explorar a desesperança alheia em busca do lucro fácil que suas corporações dão as suas diversas contas correntes. A miséria humana é explorada ao extremo por pessoas sem o menor escrúpulo. Vale afirmar que é absurdo o forte poder midiático nas mãos destes empresários da fé que exploram impunemente programas televisivos e de rádio e, por sua vez, conquistam cada vez mais espaço na cena política brasileira.



4. O que esperar no Saara brasileiro?

Entre o ventriloquismo petista de Dilma e o neoliberalismo privatista de Serra, na esteira da falta de norte para o país, no primeiro turno, apareceu como modismo a “terceira opção” na candidata “verde”, Marina Silva, pregando a farsa do “desenvolvimento sustentável” do ecobusiness misturado num reacionário conservadorismo evangélico. Mais de 20% dos eleitores brasileiros caíram nesta conversa fiada e oportunista de Marina, e em geral, movidos pela falta de opções políticas minimamente mais consistentes para o país.

A opção pelo “voto nulo” é uma possibilidade dentro do quadro eleitoral, mas pouco contribui para construir algo com mais solidez e também quem quer se esquivar da real política. A tal “neutralidade política” é para não se comprometer com absolutamente nada e ainda andar com o nariz empinando dizendo alto em bom som: “eu não tenho nada a ver com isto!”. Tal como a candidata Marina Silva, após anos na fileira do Partido dos Trabalhadores e quase seis anos à frente do Ministério do Meio Ambiente do Governo Lula, salta de supetão há cerca de um ano das eleições para os quadros do Partido Verde para se candidatar ao Planalto, pregar a nulidade ou a neutralidade no processo do segundo turno é a mais oportunista e rasteira covardia política. Obviamente, a ex-candidata quer aproveitar os louros momentâneos de sua meteórica aparição no cenário político nacional para posteriormente colher algum “verde” para o futuro de sua vida política. Mais uma vez, são os interesses pessoais que ditam as normas da conduta política pessoal acima dos interesses de qualquer projeto de nação. E o “marketing verde” dizia que Marina era o “novo”... Somente o eleitor muito “verde” para acreditar em ecopublicidade!

Os factóides farsescos e o apelo à uma liturgia conservadora são características de um tempo onde a política foi substituída pelo marketing e os projetos de interesse do país foram pulverizados em promessas e declarações charlatãs e demagógicas. Dizer que Dilma e Serra são iguais é uma inverdade. Porém ambos os candidatos não representam nada adicional para o debate a respeito dos caminhos que resultariam na transformação de um país semidemocrático para um Estado de bem-estar social satisfatório. Todavia, a simples candidatura de um político como José Serra que utiliza até as mais bizarras encenações públicas para angariar votos é preocupante. As gestões do neoliberal tucano à frente ao Planalto no período de Fernando Henrique Cardoso (1995-2002) e a dinastia no governo paulista da tríade Covas-Alckmin-Serra são exemplos de administração pública que resultariam num retrocesso ainda mais significativo para o Brasil.

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Um Retrato do Fim do Walfare State Europeu


(Fonte: Folha.com / Foto: David Vicent/AP)

18.outubro.2010 - Um sintomático retrato do fim do Walfare State europeu estilhaçada pela avalanche conservadora neoliberal.

Universitários votam em assembleia estudantil em Rennes pela continuidade da greve.

Protestos contra reforma da Previdência já prejudicam abastecimento de combustível na França, mas governo neolibera de Sarkozy diz que não recuará.

A greve continua e deverá conseguir angariar mais trabalhadores nos próximos dias.

Sintomas da Crise no Império




Da Folha.com: A falta de moradia alcançou níveis sem precedentes em Nova York. Apesar das promessas das autoridades para solucionar o problema, 120 mil pessoas passaram pelo menos uma noite em um refúgio da cidade durante o ano 2009.

sábado, 18 de setembro de 2010

A estrela (de)cadente: do afã socialista ao neopetismo midiático neoliberal



Em outubro próximo, ocorrerá o primeiro turno das eleições presidenciais. Os brasileiros escolherão pelo voto um novo chefe da nação entre os candidatos disponíveis no mercado eleitoral. O embate maior se encontra entre o nome escolhido pelo atual presidente da nação, Luís Inácio Lula da Silva, a sua ministra de gabinete, Dilma Rousseff, do Partido dos Trabalhadores (PT) e o ex-governador de São Paulo, José Serra do Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB). Contudo, na prática há um debate insípido e mimético de propostas pífias de continuísmo neoliberal. Ambos os candidatos não apresentam nada de diferencial, mesmo que em tese são considerados correntes opostas no ideário político. Do ponto de vista do campo ideológico da esquerda, para o atual momento, uma pergunta se faz presente: o que é o Partido dos Trabalhadores hoje?



1. Um luzir estelar de curta duração.

Com a subida do partido com a estrela de Lula sentada na cadeira principal do Palácio do Planalto em janeiro de 2003, o PT vem se consolidando na opção da doutrina pelo poder eleitoreiro sem um consistente projeto político. Logo após a vitória histórica do partido, apareceram os efeitos colaterais e, para variar, proveniente dos velhos odores da política palaciana e seus nefastos conchavos em Brasília. Após o deslumbre do poder, o resultado é um partido descaracterizado cujas principais lideranças foram solapadas na esteira da corrupção. Dentro do ufanismo pré-eleitoral, adiciona-se ainda ao enfraquecimento político da mobilização das agremiações de esquerdas brasileiras. Qual é a ideologia reinante nas atuais práticas do petismo: socialista ou neoliberal? Qualquer que seja a resposta, o quadro é alarmante e digno um Frankenstein político.

As denúncias de benesses políticas para parlamentares em troca de apoio para o governo teve seu auge na crise abominável do “mensalão” que surgiu no primeiro governo de Lula. Tais práticas nunca foram novidade dentro do cenário político nacional. Todavia o PT deu continuidade a este relacionamento promiscuo dentro das esferas de poder e inexplicavelmente ninguém foi punido dentro do partido ou pelo governo. Lamentavelmente, o PT mimetizou Pilatos à brasileira: lavou as mãos encharcadas de dólares (até em cuecas!) e fechou os olhos para membros acusados de práticas nefastas. Historicamente, o combate à corrupção representou na origem do PT um dos pilares centrais do partido com a proposta de fazer política com “ética e transparência”. O discurso virou pó, ou melhor dizendo, poder e dólares! Um dos arautos da guinada “à direita” do PT, José Dirceu, ex-presidente do partido e considerado um dos articuladores do mensalão, além de não ter sido punido e, até hoje, sua sombra perambula com seus tentáculos dentro das esferas de decisão do partido.

Seguiu-se então um oceano de “vistas grossas” dentro do PT: uma figura emblemática dentro do escândalo, Delúbio Soares, homem das finanças do partido, não foi realmente punido; nenhum integrante do que ficou conhecido como o “valerioduto” foi punido com veemência dentro do seio partidário. Exceto por alguns integrantes que mais tarde deixaram as fileiras do partido, nenhuma postura crítica das políticas neoliberais praticados pelo governo federal foi questionada. A crítica se cala perante os conchavos que o PT vem tecendo com “seu novo” discurso e desenvolvendo práticas de ruptura com a sua história.

O silêncio dos sindicatos é sintomático. Adiciona-se ainda a abjeta briga visceral por cargos públicos na caravana da alegria sindical: basta estar encostado em alguma sigla sindical da aba petista para sugar avidamente o leite tenro do erário. Acabrunhado, o partido míngua sua credibilidade e assiste sua história se misturar com o cheiro do ralo. Que tipo de metástase está consumindo o PT e que monstro está sendo parido para o futuro tendo em vista suas atuais práticas políticas?



2. O eclipse estelar: neopetismo e mimetismo neoliberal.

Uma das questões abominável no atual modelo do PT (e que teoricamente - ainda - é o "núcleo duro" do governo federal) é a falta de visão estratégica para o país que possa fugir do modelo neoliberal (ou da adesão de uma espécie de “neokeynesianismo liberal” após a crise mundial de 2008). Para quem acompanha a política partidária, os principais quadros do partido estão muito mais preocupados com a visão imediatista à aderência ao “lulismo” e seus assentos em cargos vistosos do funcionalismo público e empresas estatais. Aqui, será designado o termo “neopetismo” para este novo momento em que o partido se lançou dentro da esfera de poder, ou seja, um momento de ruptura entre os as ilusões da proposta socialista e a “realpolitik” neoliberal.

Em termos práticos, a administração petista se baseou em alguns pilares de moldes estritamente neoliberais com um algum apelo popular do verniz “social” para gerenciar o país, sintetizadas em duas gestões de governo Lula (2003-2010). Destacam-se alguns pontos sintomáticos:

a.) continuidade “ascética” da política econômica neoliberal de proteção ao capital especulativo nacional e estrangeiro;
b.) manutenção de escalas de juros estratosféricas que protegem e remuneram com enorme desenvoltura o capital especulativo de curto prazo e amplia a rentabilidade de bancos e agências financeiras;
c.) apesar da fome e a subnutrição que parcela significativa da população sobrevive no país, a política nacional deu ênfase à agroindústria latifundiária exportadora, o ostentado “agrobusiness” (tendendo a médio e longo prazo a monocultura de produtos voltados exclusivamente para o mercado externo, ou seja, a celebração do idiossincrático rótulo “Brasil, celeiro do mundo”);
d.) massificação do microcrédito como complemento da baixíssima renda dos trabalhadores para direcioná-los na escala alienante de consumo em massa;
e.) desenvolvimento de um programa escancaradamente midiático de infra-estrutura para o país e destinação de grandes aportes financeiro às principais empreiteiras, sob a sigla de “Programa de Aceleração do Crescimento”, o chamado “PAC”;
f.) concessão de bolsas de subsídios para complemento de renda e estudos como o “Bolsa Família” e o “Prouni” cujos efeitos a médio e longo prazo são altamente questionáveis;
g.) na ação política, amplo arco de alianças de uma miríade de siglas partidárias sem compromisso nenhum com os ideários e projetos para o país, na infeliz base do “toma-lá-dá-cá”.

A administração neopetista também foi marcada por alguns projetos polêmicos de eficácia duvidosa para o país, como a alardeada descoberta da promessa mirabolante de petróleo em áreas oceânicas profundas (em região geológica denominada de “pré-sal”), projeto de transposição do rio São Francisco, uso de recursos do BNDES para financiamento de empresas multinacionais e em áreas consideradas não-estratégicas para o país. É pertinente salientar que os anos 2000 foram de grande internacionalização de uma parte da indústria nacional com aportes massivos de recursos do BNDES, que por sinal, é eminentemente dinheiro público que foi destinado à iniciativa privada. Todavia, com a mesma velocidade não aconteceram às esperadas mudanças que os brasileiros tanto careciam serem sanadas nas urgentes questões sociais, seguindo então velha novela dramática e secular da moradia, alimentação, educação, reforma agrária, segurança pública, transporte e saúde.

É notória a capacidade carismática de Lula e seu apelo junto às “massas”. É possível entender que seja “natural” que para a população, o governo Lula se confunde com a personificação do seu presidente. Com a pulverização do microcrédito, o simples fato de pessoas de baixa renda estar consumindo um pouco mais do que estavam acostumadas (isto não significa necessariamente o deleite de alguma considerável “qualidade de vida”) cria subliminarmente condições psicológicas para uma sensação de “desenvolvimento”. Segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (Pnad) de 2009 divulgado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE), mostrou números que avançaram no item de bens materiais básicos da população brasileira. Para exemplificar com alguns números: a presença de televisores nas residências brasileiras foi de 90,3% em 2004 para 95,7% em 2009. Para o mesmo período a presença de geladeiras passou de 87,3% para 93,4% e máquina de lavar roupa passou de 34,3% para 44,3% nos lares do país. O uso de computador em domicílios saltou de 16,3% para 34,7% entre 2004 a 2009 e o acesso a internet de passou de 20,9% para 41,7% dos computadores em domicílio em 2009. Dados interessantes foram para o recuo da telefonia fixa de 48,7% em 2004 para 43,1% em 2009 em contraste com a explosão do uso do aparelho celular que no mesmo período analisado saltou de 47,7% para 78,5%. Reforçando a construção em curso de objetos fetichizados dentro da estrutura capitalista tal como o aparelho celular que representou nos anos 2000 um modelo do consumo e um símbolo de status social e progresso material na sociedade.

Ao contrário da mídia da propaganda do consumo, na prática a renda do brasileiro médio mudou muito pouco. A sensação aparente de consumo não necessariamente se traduz em consumo real. O rendimento médio na região Sudeste do Brasil cresceu apenas 17%, passou de R$ 1072 em 2005 para R$ 1255 em 2009, e no mesmo período o registro em carteira do trabalho assalariado passou de 54,9 para 59,6. A dispersão do crédito numa série de pressupostos e assédio da “renda à crédito” (muitas vezes descontado rigidamente na folha de pagamento do assalariado) deu ao trabalhador a possibilidade de se transformar num “consumidor padrão” mesmo com uma renda escassa ou incipiente e assim possibilitar dar condições sustentação a um ciclo de consumo de bens materiais. Neste ínterim, o mundo material se confunde com o mundo das necessidades básicas e logo se cria um grande apelo popular à política com grande flerte de um populismo de Estado praticada pelo governo.

Os números da simpatia popular perante o apoio à figura de Lula são significativos. Uma nova classe de “emergentes” consumidores foi criada pelos técnicos e estatísticos do IPEA e do IBGE para projetar a imagem de um “novo” Brasil. Questões midiáticas de forte impacto no imaginário popular como sediar a Copa do Mundo em 2014 e os Jogos Olímpicos em 2016 dão um estofamento confortável dentro do imaginário de nova nação dos trópicos. Com a superação razoável da crise de 2008 e a manutenção das taxas de desemprego em patamares considerados “calmos” pelos economistas neoliberais, o Brasil segue sem maiores solavancos na política praticada há pelo menos uma década após a sustentabilidade do Plano Real.

É pertinente que durante o período da administração Lula, foi marcada por uma construção de um discurso que não se preocupou como o fortalecimento de uma idéia de Estado de bem-estar social, mas sim uma forte construção midiática através da criação de mecanismos de políticas sociais que desembocou numa cultura estigmatizada da caridade. A dispersão dos agregados da “Bolsa Família” marcou um vinculo de dependência socioafetiva e simbólica entre os indivíduos de extrema pobreza e a benevolência da ação governamental. Desta maneira, ao contrário da propaganda oficial leva a crer, temos a caridade do Estado como forma de criar um mecanismo de perpetuação da pobreza endêmica regional. Logo, se tornou muito difícil o beneficiado dos programas sociais do Estado se desvincular da conta-gotas de sobrevida representado por um cartão de benefícios do Programa “Bolsa Família” (levando em consideração aos fossos abissais que norteiam as gritantes diferenças sociais presentes nas regiões economicamente ativas no Brasil).

No campo do declínio das matrizes de oposição à política reinante, é perceptível uma forte adesão populista no projeto neopetista de poder (assim com vem sendo explorada da imagem da candidata Dilma Rousseff como sendo uma espécie de extensão do “pai”, ou seja, a vindoura “mãe dos pobres” – e “tranqüilizadora” dos ricos!). Sendo assim, as práticas adotadas pela administração Lula no campo social foi uma reinvenção mais modernizante de uma forma de populismo “brando” (principalmente nas áreas mais carentes do país, em especial o eixo centro-norte, destacadamente o nordeste brasileiro).

Significativo também foi o advento uma nova geração de gerenciadores do poder político no Brasil, com a participação de sindicalistas e antigos “socialistas” compondo uma base de decisões do governo e sem maiores constrangimentos com a adesão entusiasta do modelo neoliberal (o caso da adesão praticamente irrestrita ao lulismo por parte das centrais sindicais, como o caso da Central Única dos Trabalhadores, a poderosa CUT, é sintomático).

Ademais, com emprego da grande mídia (a chamada “Big Mídia”) massificando opiniões e modelos a serem seguidos, registra-se que os ideais neoliberais adentraram atavicamente nas escalas subjetivas de valores e virtudes quase todos os ramos da vida pública do brasileiro, da fragmentação da família em modelos mercantis de “franquias familiares” à lógica subserviente da produção acadêmica das universidades. A crítica hoje é se o governo é mais ou menos “liberal”, como se não houvesse mais alternativa para uma sociedade além da servidão voluntária ao modelo do capital. Enfim, nas águas calmas do neoliberalismo à brasileira, não causa estranheza que até no programa político do PSDB, use a imagem de Lula graciosamente ao lado do tucano José Serra, o principal adversário da candidata petista ao Planalto!



3. A estrela partida: existirá vida após o lulismo?

Seguramente a trajetória de Lula se confunde com a própria história do PT. Porém, cabe ao partido saber o que realmente pretende fazer como alternativa política para o país após o governo Lula. Dentro do cenário do velho partido, na colcha de retalhos ideológicos dentro do PT, a “esquerda” do partido está tão diluída com suas querelas intestinais que não oferece nenhum perigo a ala direitista e conservadora. Portanto, o diálogo construtivo e voltado para as questões fundamentais do país é interditado. Não é possível pensar em políticas partidárias se não levar a exaustão o debate mais profundo e que margeia todas as matrizes do desenvolvimento: a crise do Estado brasileiro e suas repercussões sociais. Em suma, fica a pergunta que teima em sair da alcova: a esquerda brasileira está realmente preocupada com a visceral questão da crise do Estado?

A estrela desce ao abismo com o neopetismo de ares lulistas. Tarso Genro que presidiu interinamente o partido durante o auge da “crise mensalônica” chegou a falar de "refundação" do PT. O debate foi abortado drasticamente graças a uma intervenção soturna de José Dirceu e seus "companheiros" de alguma maneira interligados com os escândalos do período. Mais uma vez, o partido perdeu o bonde da história e deixou de purgar dentro dos seus quadros a podridão da corrupção e falta de visão política. Não pairam dúvidas sobre os rumos do partido no atual momento político e para colocar em prática sua sobrevivência e fazer jus sua história é preciso ter a coragem e a capacidade para se reconhecer e transformar. Muitos quadros leais aos ideais originários do partido saíram do PT para fundar outras siglas ou se readequarem de forma constrangida em algumas outras já existentes.

Diante do quadro de fragilidade partidária, o PT tem dois caminhos antagônicos: fazer sua refundação e reorientação política ou se transformar mais uma mera sigla eleitoreira no teatro partidário da idílica democracia à brasileira.

A crise dos partidos de esquerdas não se deve tão somente à crise do socialismo ocidental simbolizada na queda do Muro de Berlim. As esquerdas padecem de uma visão de futuro contra as mazelas aplicadas pelos programas dos partidos neoliberais e serviçais dos interesses do grande capital. O capitalismo se metamorfoseia e procura adaptar-se às praticas de atuação conforme suas necessidades pelas vias da antropofagia cultural e da usurpação da mais-valia.

A alternativa socialista não poderá ser um monólito pálido carente de visão de futuro. Para um novo PT, não há outro caminho senão a sua refundação. “Reinventar” a esquerda é um projeto alternativo de estrutura de poder. Reinventar o futuro não é apenas uma tarefa de burocratizar o aparelho partidário e fazer belas cartilhas programáticas que na prática nunca sairão nenhuma proposta factível do papel. Cabe ao PT reinventar a si mesmo, sair da letargia e do marasmo vampiresco por cargos e comissões, desalojar a corrupção crescente dentro dos seus quadros, e reconstruir seu papel social e sua ideologia, transformar a política e o próprios ideais da esquerda e se afirmar como uma opção socialista para a sociedade brasileira. O PT precisa retornar às suas origens e observar que são os trabalhadores a sua base primária de sustentação e luta contra a opressão do capital que resulta em perversas desigualdades.

O século XXI não é apenas um paradigma a ser desembrulhado da caixa de Pandora, porém o desafio maior é acreditar na possibilidade de transformar injustiças e mazelas socioeconômicas em uma nova dinâmica onde a sociedade diminua sensivelmente suas disparidades tão grotescas. Ao contrário do que muitos acreditam, não será maquilando números de índices sociais e econômicos que chegaremos a um patamar civilizatório. A experiência petista no governo federal mostrou o quão difícil são as construções idearias do seio partidário para as práticas da “realpolitik” cotidiana. A mudança de marcha forçada para do afã de socialismo de suas origens para uma guinada à direita com um conservadorismo neoliberal com pitadas de uma política social com afeições populistas mostraram um transformação radical do partido.

A personificação da figura do presidente Lula foi tão forte na cultura política brasileira recente (e enfaticamente dentro do PT) que coube a ele unilateralmente indicar sua candidata a sucessão do seu governo na sucessão presidencial, sem criar condições dentro do próprio partido de seu nome fosse discutido com e votado em eleições internas. Por sua vez, até mesmo o lado opositor, o partido do PSDB não conseguiu um nome consensual para enfrentar o nome da candidata de Lula. Notadamente, este misto de governo, que tranqüiliza o grande capital e afaga com benevolência o pequeno trabalhador dão condições de permanência de assegurar um adágio popular onde “tudo será mudado para permanecer exatamente como está”.

O boom do aparelhamento do consumo pelas classes populares e a resignação do imaginário popular a respeito das transformações da política ainda dão condições permanência um modelo conservador e neoliberal com benesses sociais. Neste aspecto, os partidos viram tão apenas siglas que praticamente não aparecem nas campanhas publicitárias dos candidatos. Até mesmo a histórica estrela do PT é pouco visto ao lado dos nomes de candidatos ao executivo e ao legislativo, seja federal ou estadual. Como se na realidade, o candidato a algum cargo a ser disputado nas urnas estivesse “escondendo” seu partido e desejando apenas vender sua imagem límpida para o eleitor. Não é a toa que nas campanhas eleitorais nos estados, é visível a disputa pela presença de Lula nos palanques de candidatos de partidos, em tese, opostos. Com raras exceções, a teia partidária vem se consolidando no Brasil num emaranhado de siglas sem significados ou compromissos ideológicos, e neste contexto, as costuras partidárias do PT nas últimas eleições realizados pelo país foram uma colcha de retalhos que envolvia os supostos extremos: da direita e a esquerda, com algum flerte com até mesmo seu adversário direto, o PSDB, em alguns estados da federação.

O PT se transformou e metamorfoseou-se na figura de Lula como elemento central de sua construção política. Fato esse que até mesmo o próprio nome de uma figura apática do cenário político nacional, Dilma Rousseff, para suceder seu governo foi uma obra narcísea de Lula, o que deixou claro as condições que o PT encarnou o lulismo. Cabe ao partido ter condições de buscar se refundar e se reconhecer dentro de um processo histórico como tal para ter identidade e credibilidade com possibilidades de uma nova construção política. Caso contrário, ficará refém de imagem de Lula e, para acentuar a dependência, muitos petistas não descartam o retorno do nome do seu líder principal na próxima sucessão presidencial, em 2014. Certamente este possível cenário sebastianista seria o pior de todos, mostrando-se o esgotamento e falência do projeto político petista por completo e assimilando seu cenário de uma mera sigla política agregada de interesses pessoais de algumas de suas lideranças.



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Versão do meu artigo a ser apresentado no "X Forum de Análise de Conjuntura", na UNESP - campus de Marília/SP, entre 20 a 22 de setembro de 2010.

terça-feira, 7 de setembro de 2010

Cenas da Tecnobarbárie



Foto do estudante Harish, 11, usando um laptop que ganhou com o projeto "um laptop por criança", de uma ONG na localidade de Khairat, em Mumbai (Índia) na Folha.com de 07.09.2010.

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A ciência não é uma ilusão, mas seria uma ilusão acreditar

que poderemos encontrar noutro lugar o que ela não nos pode dar.

(Sigmund Freud)

*

O mito que se espalhou sobre diferentes sociedades a respeito da "revolução humana" através do uso desenfreado da tecnologia vem produzindo efeitos paradoxais cada vez mais perversos. Por detrás do "boom" frenético de quinquilharias tecnológicas de duvidosa eficácia apoiadas por massivas e milionárias campanhas de marketing selvagem das gigantes e bilionárias empresas do ramo, o indivíduo vem sendo cada vez mais refém de espaços tecnológicos que se de um lado “conectam-no” com o mundo, por outro dão uma falsa sensação de progresso. Nenhuma tecnologia por si mesma, por mais panfletária que seja sua campanha de marketing, faz alterar consistentemente condições de desigualdade socioeconômica.


O fato de uma criança parida na miséria urbana, seja na paulistana Paraisopólis ou na indiana Khairat, utilizar o manejo de um computador não a tirará da condição de opressão e treva social. “Conectada” numa rede de computadores, a criança talvez possa agregar algum conhecimento mínimo para no futuro “enfrentar o mercado de trabalho” ou se divertir um pouco com algum novo jogo eletrônico que antes ela não teria acesso. É de um cinismo inexprimível quando empresas reclamam da baixa “capacitação tecnológica” dos candidatos a alguma vaga de emprego (naturalmente, submetido a um irrisório salário!). Uma pergunta é pertinente: se uma empresa deseja empregados para utilizar suas ferramentas tecnológicas, por que não ensiná-los? De prontidão, a resposta estará na ponta da língua de qualquer gerenciador de “recursos humanos”: “ensinar é custo para a empresa”. Logo, ter um “cidadão” tecnologicamente informado é ter um empregado “qualificado” sem maiores custos operacionais para uma empresa.


Com a “flexibilidade” e “precariedade” dos contratos trabalhistas, caso houver uma mudança drástica na tecnologia, basta demitir o trabalhador e contratar outro mais “experiente” de acordo com a nova “onda” do momento. Para o empregador, é tudo uma questão de “competitividade”: econômica, simples e asséptica! Daí surge outra cínica encruzilhada que ronda o imaginário da angústia diária dos empregados de empresas que trabalham com um dinamismo de razoável tecnologia: “atualizar ou perecer”. Não é a toa que cada vez mais as empresas incentivam “generosamente” os empregados a trabalharem em suas residências. Desta maneira, é possível extorquir mais-valia quase absoluta com o sorriso beneplácito do empregador. Mulheres em gestação ou com filhos pequenos são alvos preferenciais: afinal, a empresa “entende” o problema da mãe-trabalhadora. Logo, é sedutor para essa trabalhadora um trabalho que se utiliza dos acessos via internet e controle sistemático das suas ações (por exemplo, o uso da tecnologia de biometria) dentro de sua própria residência. Então, dentro do mesmo recinto, ela desdobra-se sob o mesmo teto entre cuidar da casa, dos filhos e ainda ficar presa ao computador “trabalhando” para a empresa. O mesmo poderá ocorrer para um funcionário do sexo masculino em situação semelhante: para o capitalismo sem freios a questão do “gênero” é apenas uma bobagem semântica. Nem os senhores de engenho do Brasil colonial tiveram soluções tão “criativas” como as utilizadas na era da tecnobarbárie!


Criar uma rede de computadores em favelas, por exemplo, poderá hipoteticamente conectar um mínimo de percentual dos seus moradores ao Orkut ou Facebook, mas não retirarão suas severas condições de miséria endêmica. Após a incorporação do ideário neoliberal no papel do Estado que se ausentou de agir na questão social (as evidências do fim do chamado “walfare state”), as ONGs assumiram o papel no vácuo da promoção social e de forma terceirizada praticam as ações (que são da esfera governamental) em trabalhos cosméticos, irrisórios e pontuais. Para ter visibilidade e atrair patrocinadores da cínica etiqueta neoliberal da “responsabilidade social”, as ONGs se armam de uma grossa camada de “marketing social”!


São inegáveis os benefícios de algumas novas ferramentas tecnológicos para sociedade. Porém, é pertinente entender que elas são apenas ferramentas e nada, além disto, ao contrário que pregam muitos arautos do agressivo marketing tecnológico. Sem cair no sedutor do discurso do fetiche voluntário da tecnociência, o uso socializável e democrático das tecnologias poderá reder bons frutos (como em muitos casos já uma notória realidade!). Todavia é preciso atentar para os perigos de uma latente clivagem ainda maior nas desigualdades sociais e entre países de diferentes domínios de tecnologias. Ainda não se definiu como as sociedades poderão se proteger com o vertiginoso cerceamento do conhecimento de um punhado de empresas bilionárias do ramo tecnológico. Por exemplo, as questões éticas sobre sigilo de informações de Estado, tecnologias empregadas na engenharia genética e o patenteamento de medicamentos ainda continuam tão turvas e obscuras como as águas do rio Tietê.


A nova estratégia de políticas públicas é criar condições fetichistas de “incorporação” da miséria ao cotidiano capitalista com maior midiático possível. Desde as políticas minguadas de transferência de renda, microcrédito ou projetos de “reciclagem” de trabalhadores desempregados. A supostas benesses da “inclusão” não param por ai: no safári da miséria, passando ainda por um mórbido e surreal “turismo” de gringos em passeios pelo interior de favelas, no bizarro “Favela Tour” como já acontece na favela da Rocinha no Rio de Janeiro e dirigida por uma ONG local. A miséria não é apenas persistente, mas também tem seu lado lucrativo ao ser explorado em todos os parâmetros sem piedade por ONGs inescrupulosas, agências e governantes atrás do voto da barbárie. Tais atores que deveriam trabalhar para eliminar a barbárie interior, apenas sustentam um clima selvagem imbuído de uma moral de exploração humana e lucratividade desmedida.


O homem contemporâneo, contaminado pelos vícios da velocidade das conexões de banda larga e sem fio, anseia por respostas prontas nas bordas do cursor do mouse. A apologia à tecnociência é da mesma proporção da solidão e vazio interior que a aridez da sociedade se configura entre seus indivíduos. Para fugir da sua solidão, o indivíduo se conecta as redes de pessoas tão solitárias quanto ele e assim socializam dentro do tear tecnológico de solidão disfarçada. A cada novo pacote de tecnologia que pretende “revolucionar” a revolução do pacote anterior se hipnotiza pelas sensações táteis e midiáticas das processas tecnológicas. Bastar estar “plugado” em alguma conexão que todos os problemas e angustias serão “deletadas” com um único e preciso “clique”. No afã messiânico de libertação humana, o risco é sempre de ficar mais preso ainda nas armadilhas da caixa de Pandora. A tecnobarbárie, produto imediato da tecnociência, é apenas mais um sedutor e atualizado mecanismo que endogeniza e “naturaliza” as desigualdades na idéia-força sob o rótulo pueril de “civilização humana”. Para reiniciar um novo horizonte, não bastará dar apenas um mero [Ctrl] + [Alt] + [Del]. Um novo olhar para o mundo pede muito além disso...


domingo, 5 de setembro de 2010

Vida Material, Violência e Angústia: O tráfico de drogas como metáfora




1. O descaso como proposta.


Diante do debate estéril das plataformas políticas dos principais candidatos aos postos de comando do país nas duas esferas de poder (federal e estadual), o que a população assiste de forma apática é um teatro de bobagens e lugares-comuns. Um tema que sequer passa pela retórica bolorenta dos discursos é a questão do tráfico de drogas e o enraizamento da violência nas grandes cidades. De forma omissa, independente do espectro da cor partidária, a ação do Estado e suas esferas de ação em trono da violência gerada pelo narcotráfico não são sequer levadas em pauta. O que torna mais dramática é a sensação que num futuro de horizonte muito próximo a situação tende cada vez mais a acentuar. Para o afã troculento de alguns, a questão das drogas e o uso delas por parte significativa da população está longe de ser resolvida com medidas meramente de ação policialesca e de sumária repressão aos mais pobres.

Antes de qualquer coisa, é preciso deixar claro que sem uma promoção de políticas públicas dentro do mercado consumidor, será ineficiente todo combate das forças policiais contra o tráfico de entorpecentes. Isto é, se de fato alguma sociedade realmente deseja combater o uso das drogas em suas esferas de sociabilidades. Retóricas benevolentes para “legalizar” seu uso pululam aqui ou acolá, talvez para os defensores da legalização seja a saída fosse à criação de uma espécie de “Macombras”, a estatal dos entorpecentes legais (como é o caso da liberação dos cigarros e bebidas alcoólicas). Entre vícios e virtudes, é mais simplificador encontrar apaziguamento para os problemas e não refletir suas causas. Pelos seus espinhos, esta matéria essa que está longe de um consenso, isto é, se é que de fato alguém queria debater com seriedade tais assuntos. Existe uma pergunta que precisa ser feita com sinceridade: estaria alguma sociedade disposta a coibir realmente seus vícios ou não poderia viver sem deixá-los de cometer?



2. Tráfico, poder e globalização.

Voltando para uma “práxis” da realidade. Apenas para ficarmos atentos na América Latina, o exemplo da instalação do narcotráfico nas raízes do Estado é revelador na Colômbia e seus cartéis que tem na figura do lendário Pablo Escobar seu mártir do crime. O México hoje vive um drama mais pungente e explosivo onde uma parte do seu território é controlada fisicamente pelo poder dos cartéis. Paradoxalmente, os Estados Unidos com sua política de permanente interferência na América Latina, tal como se processou no famigerado "Plano Colômbia", além de não diminuir a oferta de drogas e impulsionou mais violência no Estado colombiano, o tal Plano não conseguiu sequer diminuir internamente a voracidade do mercado consumidor estadunidense. Ademais, é necessário coibir em escala global a bilionária indústria da produção de armas dos países desenvolvidos que abastecem robustamente os traficantes. Mas algum governo do "civilizado" Primeiro Mundo realmente estaria disposto a cessar a produção de armas em nome da perda de postos de trabalho e influência econômica das gigantescas empresas do ramo?

No propalado “boom” da economia dos últimos anos, o Brasil se tornou hoje um dos maiores consumidores do mercado latino-americano das drogas. A repressão se faz no interior das zonas de periferia das cidades com carga máxima de violência e descontrole das ações midiáticas da força policial. Por sua vez, o modo que se processa a sociedade com a ostentação do capital a curtíssimo prazo seduz um batalhão de jovens pobres e sem esperança para o vistoso mercado do crime de curto prazo e altíssimos lucros. Hoje, com os norteadores da vida material, não é raro que até mesmo alguns bem nutridos integrantes das classes médias adentram no mercado das drogas como traficantes e não apenas como alucinógenos usuários. Na teia complexa que se enquadra as organizações do crime, o tráfico do drogas se tornou não apenas um subterfúgio do desespero de vida, mas também uma rentável opção de remuneração para ter acesso rápido um alto padrão de vida de bens materiais (fato que raramente seria alcançado sendo remunerado como um "trabalhador normal").

No Brasil, a prática usual da corrupção policial aliada à endogenização da violência e pobreza são as matrizes fundamentais de uma economia que de cigarrinhos, papelotes, fileirinhas e “trouxinhas” movimentam bilhões de dólares sem a menor fiscalização dos grandes operadores do sistema financeiro. Levando em consideração que o próprio sistema financeiro mundial é irrigado constantemente por dinheiro ilícito proveniente de lavagem de drogas e seus derivados. Na base da exuberância do progresso da economia material dos operadores ilícitos do mercado, temos a indústria do sexo, armas, drogas e medicamentos como uma das mais lucrativas do “planeta business”. A alta rentabilidade promovida pela produção e comercialização de drogas ilícitas não pode ser desprezada nos balancetes não-oficiais da contabilidade nacional de muitos países, na América do Sul e regiões africanas e asiáticas. O tráfico de drogas é um grande imperativo na manutenção de guerrilhas, milícias e grupos terroristas espalhados pelo globo.

O poder messiânico do dinheiro é o maior dos deuses no cotidiano da vida material capitalista. No Brasil, longe da miséria das favelas, o tráfico de drogas vai além do mero problema social, mas um empreendimento econômico altamente lucrativo cujo seus principais acionistas estão desfrutando da vida mansa e tranqüila no asfalto em seus belos casarões regados com muito champagne e entre afagos mimosos de belas mulheres e políticos locais.



3. A fragmentária sociedade material

Em linhas gerais, do ponto de vista do usuário, o consumo é o portal do acesso ao progresso material e a aquisição de drogas ilícitas é apenas mais um aporte de recurso para estar inserido dentro de uma esfera de influencia social. Todavia, devido à vários fatores, quando é rompida a esfera da sociabilidade vem o limbo do desespero perante a dependência psicoquímica. Na relativização da subjetividade familiar, por exemplo, dificilmente uma mãe ou pai interdita o desejo da filha adolescente de passar a madruga inteira e chegar às 6 horas da manhã numa “rave”, independente de estar “alterada” ou não. Porém os mesmos pais são capazes de fazer de tudo para que o professor de sua filha perca o emprego por ter dado uma “nota baixa” no boletim escolar. Não raro que os próprios pais, ou pelo menos um deles, socialize um “cigarrinho” com o filho ou filha para se apresentarem como mais “modernos”. Porém estes mesmos pais reclamam da violência no semáforo, do roubo do relógio ou do celular e segue a mesma ladainha de sempre: “que absurdo”, “que pais é este”, “onde vamos parar”?

Para ter acesso ao "produto" é preciso subir no morro ou fazer um "disk-drogas" que chegará no horário combinado no asfalto. A face de uma verdadeira guerra civil foi instalada em alguns pontos de alta densidade populacional e pobreza endêmica tem como força-motriz o abismo da esperança devido ao abandono secular das políticas sociais do Estado elevando-se na barbárie explicita da guerra sanguinária por pontos de comércio e escoamento de drogas e armas. Cenas cotidianas da polícia fluminense subindo os morros do Rio de Janeiro e trocando tiros como se fossem retratos miméticos de cenários de guerra se tornou tão rotineira quanto à imagem do Cristo Redentor. É importante frisar que os supostos pontos “pacificados” em regiões de violência endêmica, em geral, têm uma maior “convivência” das práticas policiais que fazerem “vistas grossas” mediante as ancestrais práticas do suborno.

Outro detalhe a ser refletido é a “cultura da violência” que se normatizou em boa parte das sociedades cuja influencia proveniente do tráfico de drogas é endêmico. Entre outros fatores, o culto do medo patrocinado particularmente pela indústria dos artefatos de bugigangas eletrônicas e das empresas que vendem seguro de tudo (inclusive de glúteos e seios siliconados!) colaboram acintosamente para irradiar o clima da guerrilha de “todos contra todos” dentro das cidades. Cada vez mais a população é convencida da urgente necessidade de se trancafiarem com câmeras, porteiros eletrônicos, seguranças armados e seguros de seus pertences.

A idéia de uma cidade livre é engaiolada na arquitetura mercantilizada de um shopping-center esterilizado e “protegido” das agruras do “lado de fora”. Estes “oásis” de suposta segurança e bem-estar se multiplicaram ferozmente e se tornaram os espaços públicos preferenciais dos individuo das grandes cidades. Na mesma linha segue os lançamentos cada vez mais rotineiros dos condomínios residenciais fechados das classes médias, cada vez mais preocupadas de se isolarem do mundo em busca de “segurança e tranqüilidade”. O paradoxo é quando mais se preocupam de forma narcísica em salvar a própria pele, mais desprotegem o ambiente social que vive. Não raro, quando pais da classe média escondidos numa destas bolhas de suposta tranqüilidade, descobrem que os próprios filhos estão usando drogas, caem em lamentações: “onde foi que errei?”. Daí o “estrago já foi feito”...

Numa sociedade onde o culto pelo vazio, mercantilização de todas as esferas de convivência e da banalização da vida é sintomático. A opção pelo uso “social” das drogas ilícitas em rodas de amigos se revela “aceitável” ou até mesmo imperativo: o charme do “inofensivo” cigarrinho de maconha. Ao observar com realismo as mudanças processadas nas sociedades ocidentalizadas, o que poderíamos dizer nos anos 1960-70 ações que se reduziam em “apenas” uma transgressão de conduta o uso de drogas como o cigarro, a maconha e o LSD, hoje se tornou um problema cuja solução asséptica é impossível. O romantismo transgressor cedeu espaço para a barbárie e angustia da dependência química.

A questão das drogas e seu comércio com lucros exponenciais se tornaram mais visíveis com o advento de drogas de efeito mais devastador e se tornaram populares e resultados dramaticamente deletérios. Para a camada mais endinheirada, as drogas sintéticas fazem grande “sucesso” enquanto para os usuários populares, o “crack” vem se tornando a maior angústia de muitas famílias.

Para uma sistemática omissão do Estado que apenas faz o uso do massivo assassinato de jovens pobres das periferias e um ineficiente controle do escamento das rotas de distribuição de drogas, então o que sobrou é uma política de redução de danos (de eficácia muitas vezes lenta e duvidosa). A barbárie da violência impregnada nas grandes cidades tem como uma de suas forças motrizes a questão da criminalidade com o enraizamento do tráfico de drogas. Todavia, é uma grande ilusão que se eliminássemos completamente de forma “mágica” a questão das drogas ilícitas, estaríamos num patamar de maior “tranqüilidade”.

Quem realmente deseja a Paz? A questão do tráfico de drogas é uma metáfora impactante que permeia a violência e os valores simbolizados por uma sociedade mercantil e de volatilidade da vida. Logo, reside no modo de produção material e de processamento da vida em sociedade, angustiada e esvaziada, sob um conjunto de fatores atrelado a sustentação de um suposto estilo de vida que bane da esfera da reflexão toda forma de superação do esgotamento social.

O valor de uma vida não poderá ser mediado pela quantidade de dinheiro que possa habitar no bolso de um indivíduo. O fardo de coexistir numa sociedade de “vencedores” e “fracassados” causa uma enorme angustia no indivíduo que se sente cada vez mais impotente diante de sua vã existência. Todavia, a barbárie e a civilização são irmãs siamesas e caminham quase sempre de forma turbulentamente harmônica. Escapar destas premissas será um enorme desafio para a construção de um novo modelo de sociedade onde deverão ser trabalhados novos padrões e valores a serem estabelecidos, como a plenitude dos conceitos de igualdade, liberdade e justiça social.

Safatle: A face da pseudo-esquerda ilustrada acadêmica

Em artigo nesta sexta-feira , o professor Vladimir Safatle, ligado ao PSOL, mostrou, mais uma vez, todo o mau-caratismo que lhe é muito...