segunda-feira, 16 de novembro de 2015

A tarefa docente: A arte do ofício na sociedade pós-moderna sob a égide neoliberal brasileira


Há um discurso que beira a hipocrisia dentro de uma sociedade cada vez mais projetada com as trágicas lições do neoliberalismo à brasileira voltadas para o consumismo imediatista, satisfação instantânea e o narcisismo compulsivo em detrimento do olhar crítico perante aos dilemas da totalidade social. Neste sentido, a Educação é vista como algo individualizado e movida à promoção do capital no que tange a destruição da educação pública e a louvação mercantilista da atividade privada, em especial, na Educação básica.

A crise de autoridade do professor esta na mesma esteira da crise de identidade típica dos fenômenos da Pós-modernidade, onde as certezas mais factíveis viraram transformações líquidas de um mundo cercado de muitas bugigangas tecnológicas, relações efêmeras objetais, massificação do consumismo e o transbordamento da angústia existencial.

Sintomaticamente, as carreiras voltadas à Educação seguem em baixa, tanto no seu prestígio social, quanto a remuneração por suas atividades. Nítido o déficit de professores em especial, nas áreas mais ligadas as ciências. O incentivo à carreira, as dificuldades operacionais e os péssimos salários comparado à outras carreiras de exigência de formação similar contribuem para explicação da baixa procura por candidatos à tarefa docente nas faculdades e universidades. Lembrando ainda a frágil formação dos cursos ligados as licenciaturas, tendo em vista uma precarização de currículos e estrutura para a formação dos futuros profissionais da área. A mídia também participa do papel de descaso do professor ao transformar a profissão em motivo de chacota de programas humorísticos, transformando o docente em “pobre coitado”, digno de pena pública, cercado por um bando de imbecis com indagações patéticas, que seriam os alunos.

A educação com engajamento de reflexão crítica e humanista vem vertiginosamente perdendo espaço dentro da Educação Básica. O conteudismo é hoje a matéria orgânica que garante a sobrevivência das escolas da rede privada, quanto que no bojo da educação público é o sintoma do abandono por parte do Estado (por exemplo em São Paulo, o maior centro econômico do país, onde se assiste um alarmante e sistemático sucateamento do sistema estadual de educação).

Os caríssimos sistemas de ensino privado com todo um modelo de marketing de didatismo mecanicista oriunda da “decoreba” de conteúdos para os vestibulares aliados com alguns floreios “divertidos” para ocupar o tempo do aluno e justificar o alto investimento das mensalidades por parte dos pais dele. De modo geral, o ensino básico do sistema privado virou um grande cursinho pré-vestibular cuja única meta é a promessa aos pais para uma vaga numa (boa) faculdade pública aos seus filhos. Por outro lado, a tarefa dos pais, dentro de um modelo de consumismo desenfreado, é fazer a burocrática transação comercial entre os filhos e a escola e ponto final. Assistimos assim a terceirização das responsabilidades dos pais que são protocoladas em escolas bem remuneradas pelo suor dos seus “investimentos”. Não é a toa que se associa de forma pejorativa o termo oriundo da Economia, o “investimento” mercantilizado associado a um “fundo de longo prazo”, com elementos da Educação cujo slogan bem sintético é travestido em: “invista no seu filho para um futuro melhor!”

O reconhecimento profissional e social do professor é cada vez menor e é margeado pela política de produtividade perante seu oficio. A idéia de “bom professor” hoje é  aquele que dá “show” na sala de aula, sobre nas luminárias e dá cambalhota, que deve fazer de tudo para que o aluno, omisso e supostamente desinteressado, possa “aprender”. Em nada o aluno é vocacionado para ser minimamente cobrado de suas responsabilidades individuais e sociais, não há castração simbólica, mas somente a bajulação sistemática em agradar o aluno sem frustra-lo minimamente. Outro sintoma é o circo armado por parte da associação espúria entre empresas de formaturas e escolas e nome da diversão dos alunos a um alto custo: tudo vira festa, zoeira e irresponsabilidade em nome dos bons e garantidos lucros.

A transição de modelos educacionais sólidos e rígidos, característicos da Modernidade, para modelos líquidos e imediatistas típicos da Pós-Modernidade foi avassalador, mas ambos ainda permanecem igualmente agressivos. O que era um conjunto de regras rígidas e coercitivas virou um festival de niilismo e consumo. A escola perdeu a força conjectural da transformação, ora virou um grande parque de diversões utilitarista, ou um celeiro de fomentação do vazio bárbaro, onde o aluno se ofender o docente é ele, o professor, que deverá beijar os pés do aluno para pedir “desculpas”. Caso o aluno não goste da cara do professor, ele corre imediatamente para a coordenação pedindo a “cabeça” dele. Como bons clientes, para a escola preocupada com os lucros, o aluno sempre tem razão!

Diante do universo de desconstrução do ensino, é cada vez mais comum o caso de agressões físicas por parte de alunos contra seus professores por motivos torpes e banais. Ademais, é mais um aspecto da sociedade pós-moderna, a incapacidade do sujeito em lidar minimamente com as frustrações de um mundo complexo e cheio de questões latentes.  Seguindo o lastro das dificuldades docentes, há um grande número de profissionais com sérios problemas psicológicos derivados da precarização do seu ofício e as angústias oriundas da pressão por parte de direções escolares com olhar da avidez capitalista e alunos agressivos ou tensões psicológicas típico do excesso de seres humanos confinados em diminutas salas de concreto armado.

Com o declínio do poder docente, menos pela ação dos seus profissionais, mas muito mais para um mundo que se tornou muito mais permissível a banalização do conhecimento e regrado por uma série de atrativos tecnológicos de expressividade questionáveis. A escola, na maioria das suas entidades, se comprometeu a simplesmente ser um passatempo dos alunos para que não ocupe o tempo dos pais. A ação lúdica é peça integrante da aprendizagem, todavia o seu excesso se torna pasteurizado e inútil. Afinal, o professor é “pago para cuidar dos filhos (deles)”, como muito se ouve em enfadonhas reuniões de pais mais exaltados com atitudes grosseiras perante o professor, o feitor terceirizado dos filhos.

A educação deixou de ser um bem público universal para se tornar mais uma mercadoria na feira de variedades do capital. Uma frase lapidar do grande educador brasileiro, Paulo Freire (1921-1997), dizia que “[...] a educação sozinha não transforma a sociedade, sem ela, tampouco, a sociedade muda”. Neste contexto, apesar dos ataques sistemáticos que tenta manipular a Educação ora como mais um elo da produtividade capitalista de formação de produtos (no caso do ensino privado), ora como um elemento social sucateado relegado à sua própria sorte (no caso do ensino público), a tarefa dos docentes que toma seu oficio como significação de seus desejos, ainda resiste de forma valente.


Por fim, algumas ações pontuais ainda mostram que a situação não está completamente perdida, como a revalorização dos institutos federais de Educação Básica por parte das últimas gestões do Governo Federal.  Por mais cínica que seja a construção ideológica momentânea presente numa sociedade, seus atores sociais entendem que por mais que seja desconstruída a Educação pela ação de um capitalismo desenfreado, somente ela é o alicerce social para qualquer estrutura humana que carece essencialmente da transmissão da cultura, seja ela mais elaborada, seja ela mais elementar. A tarefa dos atores docentes que se seguem na “aventura” da Educação como ofício, ainda os desafios tão profundos quanto a fragmentação da própria estrutura da sociedade atual.

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