terça-feira, 15 de novembro de 2011

USP e Polícia Militar: Entre a histeria e o populismo acadêmico







1.    Ares do populismo acadêmico.

O fenômeno do “populismo", em linhas bem gerais, consistiu num termo utilizado para o movimento político que surgiu com a urbanização e industrialização no Brasil a partir dos anos 1930, e teve a figura de Getúlio Vargas como o maior expoente desta natureza no país. O populismo é calcado em promessas de um líder carismático, desvencilhado do partidarismo ou corporações e que procurou criar um vínculo emocional e empatia com as classes médias, e também as classes famélicas e carentes em troca de apoio político e legitimidade para assumir um dado governo ou garantir plenos poderes. O termo está longe de ter um consenso, e ademais, o populismo também se alastrou pela América Latina com variados espectros do posicionamento ideológico que vai da direita até a esquerda, dependendo do momento particularmente histórico.

No clamor dos fatos e do deserto que se transformou o olhar crítico da realidade, o populismo ainda resiste ao tempo e opera de diversas formas. Ultimamente reacendeu sua vulgata menos explícita: o populismo acadêmico. De um ponto de vista da constituição da Esquerda e das possibilidades de ser reinventada como real alternativa ao neoliberalismo, atualmente, praticar o populismo acadêmico parece ser mais fácil e, paradoxalmente, permite dar margem ao rolo compressor aos donos do poder do momento. Difícil realmente é propor saídas factíveis que possam renovar o pensamento de Esquerda como projeto viável para as graves complexidades do mundo sem recair nos bolores de um esquerdismo de boutique infantilizado e fossilizado. Entre o discurso histérico, birrento e midiático, assistimos ultimamente a uma enxurrada de chavões e bobagens desconexas.

 


2.    A soberba de Pilatos

Voltemos ao caso da polêmica uspiana do momento. A cidade universitária da Universidade de São Paulo (USP), situada no campus do Butantã, zona oeste de São Paulo, é um caso singular pela sua grande dimensão territorial e dinâmica interna com seus institutos e faculdades e milhares de alunos, professores e funcionários. A USP tem um orçamento anual em torno de R$ 2,8 bilhões de reais, parcela de 5,02% do ICMS de São Paulo, maior do que a soma das outras duas universidades estaduais UNESP e UNICAMP e mais que o dobro do que muitas cidades que são capitais de Estado, por exemplo, a cidade de Aracaju, capital do Estado de Sergipe, que tem um orçamento anual em torno de R$ 1 bilhão de reais. Com o tempo, devido as suas grandes dimensões, a cidade universitária tem tido problemas como qualquer outro aglomerado urbano, como é o caso da violência banal e cotidiana dentro do campus. E por meio de um estatuto que vigora deste o tempo da ditadura militar (1964-1985), não é permitido que a polícia atue dentro do seu campus. Entre discutir se ainda é um avanço ou retrocesso a manutenção desta regulamentação, é importante refletir a realidade do mundo atual. Fazer a crítica sobre a atuação da polícia militar no episódio da invasão de alguns alunos à reitoria se faz necessário. Apesar de gozar de um orçamento gigantesco, parece que o mais difícil para a universidade, propor políticas efetivas de segurança pública para seu interior. A crítica que se faz não é pelo tamanho do orçamento, sempre necessário para sua importância, mas o estranhamento de suas várias omissões perante muitos fatos. A falta de transparência e democracia interna na USP é tão verdadeira que reflete na escolha indireta dos diretores de institutos e faculdades e da própria figura do reitor. As demais universidades públicas seguem a mesma ladeira da burocracia e do engessamento universitário.

Outra questão que é “cara” dentro dos pilares universitários é a omissão sobre circulação de drogas. Sempre tratadas com vistas grossas ou simplesmente um assunto insignificante, tolerante ou “temática reacionária”. Dentro de tantas retóricas que pairam dos debates universitários, muitas vezes tão estéreis quanto esperar germinar sementes no deserto do Saara, uma delas é deixar o narcotráfico adentrar em suas estruturas e tudo ser tratada como “uma coisa menor”. Além do sorvedouro de drogas ilícitas, é muito usual (praticamente obrigatório!) que as festas sejam regadas com muito álcool e nas várias “baladas” pueris patrocinadas pelos alunos dentro do campus. Tudo dentro da mais cândida normalidade! Claro, que quem se aventura a adentrar na crítica deste submundo acadêmico corre o risco de ser literalmente apedrejado pelos “heróis da resistência” com coloração infanto-esquerdóide. Longe de fazer um discurso moralista, a questão é que tipo de “socialização” se faz dentro do espaço público universitário: “beber, cair e levantar”? Novamente, a universidade finge que nada ocorre e sequer uma campanha de conscientização mais efetiva para os mais jovens sobre álcool e drogas é realizado em seu campus, ou seja, se “naturalizou” a embriaguez social.

Na estética da violência, politicamente foi um desgaste desnecessário o deslocamento da Tropa de Choque da Polícia Militar para o campus, independente de se apoiar ou não a invasão atabalhoada de alguns alunos na reitoria da universidade. Sendo assim, apesar do tom oficial de que a polícia estivesse “cumprindo o seu dever”, notou-se num exagero policialesco que apenas alimentou o lado tragicômico do “revolucionarismo de boutique”. Por outro lado, somente a cegueira infanto-esquerdóide não percebeu o desgaste que deu para universidade perante a opinião pública com cenas bisonhas e surreais de alunos encapuzados praticando vandalismo explícito no patrimônio público da universidade e, não-raro, com mensagens sugestivas e irresponsáveis sobre propaganda de drogas. É bom salientar, que para muitos que adentram na festa do “oba-oba”, é bem mais importante a preocupação com uma “messiânica revolução” do que com o resto da sociedade. Pouco adianta dizer que foi “culpa das imagens feitas pela imprensa”, mesmo porque quem conhece os intestinos do tal “movimento estudantil” sabe que infelizmente muitas de suas ações são movidas a politicagem parasitária. Aliás, como qualquer outra organização refém da lobotomia política e sujeitas a erros e acertos, desentendimentos e fracionamentos. É fundamental a defesa da universidade pública, gratuita e incorporada de qualidade. Todavia os excessos e desvirtuamento desta proposta se tornam de difícil sustentação.

No episódio da invasão da reitoria da USP, a crítica não se manifestou claramente pela defesa da liberdade de expressão e do ensino público, mas de uma suposta “liberdade” que alguns acreditam ter diante do gozo de privilégios. É importante salientar, que diante das cenas patéticas do teatro da invasão da reitoria, se houve excessos da polícia contra os "infanto-revolucionários", ou seja, os mais novos “presos políticos” do país, tem que ser apurado com rigor como qualquer excesso da força pública. Por outro lado torna quase risível é inverossímil o discurso acalorado e populista do “retorno da ditadura" e o "viva os presos políticos!" cujas argumentações beiram a infantilidade, oportunismo político ou a simples má-fé. Na comédia dos erros uspianos, o saldo é negativo para todos os lados e igualmente toda a sociedade perde com cenas deprimentes, midiáticas e desnecessárias.

A bacia de Pôncio Pilatos não cabe dentro de uma universidade que se vangloria de ser a vanguarda do conhecimento. Reiterando, ninguém em sã consciência quer uma polícia fascistóide, agressiva, despreparada e truculenta, mas não basta fechar os olhos para as questões gritantes da sociedade. Dito de outra maneira, é muito cômodo posar de “pobre coitado” pequeno-burguês, uma “vítima do sistema” desfilando com roupas de grife. Difícil é passar mais de duas horas de translado em transporte público superlotado com exíguos recursos econômicos nos bolsos. Pior ainda é gerar uma antipatia generalizada perante a opinião pública com reivindicações que não refletem o momento histórico e não primam pelo bom senso. Nem tudo que reluz é realmente o que parece ser...

 


3.    O dúbio discurso.

A questão que se torna pertinente é se a sociedade quer realmente uma polícia honesta e eficiente. O país do jeitinho brasileiro, da “carteirada” (bem ao estilo: “Você sabe com quem está falando?”), jovens que se aproveitam da condição de “universitários” para burlar regras e permanecerem impunes, as típicas rodinhas entre amigos que puxam sorridentes um “inocente baseadinho” ou perfilam uma “carreirinha social”, sem falar das mazelas da classe política e do banditismo dos alcoólatras ao volante que ajudaram a matar quase 40 mil brasileiros no asfalto somente no ano de 2010. A lista é extensa e igualmente bárbara. A democracia brasileira parece estar mais fadada a ser um amontoado de favorecimentos que apenas nutrem privilégios setoriais e classistas de distinta natureza. Enquanto corre o discurso da falácia democrática, surge a pergunta inevitável: quem quer perder privilégios oportunistas? Enquanto a retórica da “volta da ditadura” vigora na cabeça de alguns saudosistas, é importante lembrar que um novo modelo de segurança pública é tão importante quanto novos modelos para as demais áreas da vida social. É fácil tecer criticas do alto do Olimpo, o difícil mesmo é propor soluções para a vida terrena. Infelizmente, o que se vê é um deserto de retóricas rocambolescas que pouco colabora em subsídios para construir minimamente modelos alternativos.

A patológica crise na Educação,em particular na Educação Básica, assim como em todos os setores sociais, é severamente preocupante e vem sendo tratada como uma "coisa menor" pelas políticas mercantis neoliberais. Todavia, tratar segurança pública como apenas "coisa da ditadura" é ficar preso ao retrovisor do tempo sem buscar alternativas para a violência cotidiana que muito em parte é gerada pelo tráfico de drogas (tão amplamente defendido pelos seus adeptos com grande número de consumidores e simpatizantes universitários que o faz em espaço público).

Falar em autonomia universitária é fácil, difícil é fazer com que algumas universidades desçam do cômodo pedestal com seus debates estéreis e se misturarem com a realidade. Se a USP é exemplar com seus centros de excelência, também é exemplar com seus muros, sua burocracia e ares de Olimpo. Fácil é desfilar pelo campus com seus carros e carrões. E se alguma coisa acontecer ao patrimônio material, os mesmos que não querem nenhum tipo de segurança pública no campus vão querer imediatamente a intervenção da Presidência da República! (E ai se a polícia não solucionar o problema!...)

Quem disse que alguns iluminados do “movimento estudantil” são os detentores do monopólio da vanguarda e da razão suprema por serem simplesmente “jovens universitários”? E quem disse que temos uma polícia totalmente preparada para atender a população sem excessos, sem agressividade gratuita e com dignidade? É preciso avançar em busca de soluções e a autocrítica merece sempre ser motivo de consideração. Ademais, preocupante ainda é a própria universidade recorrer a velhos hábitos e não buscar propor modelos alternativos para problemas que estão debaixo do seu nariz. Nunca é demais dizer que se alguns sectários do movimento estudantil com suas prosopopéias iluminadas querem mimetizar alguma coisa mais substancial, que se inspirem nas reivindicações dos estudantes chilenos e ingleses que há semanas vem brigando por melhores condições na Educação nos seus respectivos países. A oxigenação é sempre muito importante para o corpo e a mente. As lutas sociais não podem ser banalizadas e merecem ser respeitadas com causas mais dignas, nobres e sem ficar choramingando privilégios irreais. Cabe ainda à universidade desvencilhar-se da política do avestruz, destronar Pilatos e o populismo imediatista e refletir seu papel e sua contribuição perante a sociedade.

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