1. UM MUNDO NUMA ESTRANHA METAMORFOSE
Na tarde desta terça-feira, 11 de
março, coordenei de forma remota o PAINEL “Gestão da informação e comunicação
em bases democráticas” do V Seminário Internacional sobre Democracia,
Cidadania e Estado de Direito, uma realização conjunta de pesquisadores de três
instituições: Universidade Federal Fluminense (UFF), Universidade Estadual de
Londrina (UEL) e Universidade de Vigo, na Espanha. Por sinal, um evento que faço
parte do Comitê Científico.
Ao todo,
dezoito trabalhos de Pós-graduação com a participação de estudantes e
pesquisadores espalhados por todo o país, os quais, em sua maioria, destacaram
a questão do volume massivo de informações impregnado na sociedade sem controle
por parte do Estado.
As leis
de proteção aos dados ainda engatinham no país, e as grandes empresas de
tecnologias, as chamadas “Big Techs”, ou seja, um braço tecnológico do
Grande Capital internacional. Tais empresas possuem caminhos, praticamente,
livres para fazerem o que bem querem, sem que o alcance das leis governamentais
dos Estados Nacionais possa coibir seus ataques, manipulações e adulterações
dentro da sociedade.
Uma outra
questão relevante e altamente problemática é a chamada “Inteligência Artificial”
(IA) que está sendo desenvolvida também por Big Techs. Não há nenhum tipo de
controle público com o avanço de tecnologias criadas por empresas de
tecnologias e que dominam todo o cenário mundial.
Na minha
concepção, uma das grandes consequências do deserto jurídico que se instalou no
campo do “mundo digital” está correlacionado com a própria estrutura da fragilidade
democrática que sucumbe com a metástase do neoliberalismo, acarretando
consequências dilacerantes dentro da sociedade.
No topo
da pirâmide de lucratividade no mundo, temos os quatro primeiros lugares ocupados
por empresas de tecnologia, sendo uma de comércio eletrônico exclusivamente na
internet. Observando o valor de mercado em 2025 para cada empresa, segundo o
site especializado Investing.com (2025), temos: Apple (3,7 trilhões de
dólares); Nvidia (3,4 trilhões de dólares) Microsoft (3,2 trilhões de dólares);
Amazon (2,2 trilhões de dólares) e Alphabet Inc. (empresa dona do Google, 2,1
trilhões de dólares). Em termos de comparação, o PIB do Brasil, em 2024, foi cerca
de 2,2 trilhões de dólares, ou seja, é inferior aos primeiros colocados deste
ranking!
As Big
Techs vêm se mostrando, cada vez mais, com um caráter manipulador da ordem
social ao introduzir elementos que atingem frontalmente a opinião pública,
criando instabilidade entre governos em nome de lucros bilionários.
2. NOVO TESTE DA
DEMOCRACIA NA CORDA-BAMBA
Após a
tentativa de golpe escancarado, no Brasil, no maior circo dos últimos tempos, no
fatídico 08 de janeiro de 2023, foi arquitetado, em grande parte, nas redes
sociais e em fóruns de debates, na internet, alimentados por grupos de Extrema
Direita apoiadores do ex-presidente Jair Bolsonaro.
O objetivo
da política de promoção do ódio foi o nutrir um estado de alienação de sujeitos
que se forjaram como uma malta de imbecis, lobotomizados desde as famigerados
jornadas de inverno, em 2013.
A livre
circulação de todo o sortilégio de mentiras se tornou combustível para um dos
processos de deterioração da mentalidade coletiva mais retrógrada das últimas
décadas. Ademais, apesar de todas as atrocidades feitas pela militância da
Extrema Direita, a Justiça segue a passos lentos no sentido de condenar os
extremistas e, corre-se o risco, de banalizar todo este processo de ataques
sistemáticas ao regime democrático.
No próximo ano, em 2026, teremos mais um
grande teste para esta nossa bombardeada democracia cambaleante. Será o
processo eleitoral que escolherá o representante ao Planalto. Com o avanço da
Extrema Direita no Ocidente e, no Brasil, temos o avanço da Direita em cenário
nacional, as tensões serão tão preocupantes quanto as duas últimas eleições
presidenciais.
Assim
como em 2016, 2018 e 2022, a enxurrada de insanidades oriundas das redes
sociais visando provocar um oceano de desinformações estará em pleno vapor.
Principalmente, quando o bufão das “fake News”, Donald Trump, e o seu aliando
bilionário fascista, Elon Musk, estão no comando do maior império do planeta.
Da mesma
maneira, como houve excessivas manipulações nos processos de propaganda
eleitoral dos últimos anos, não basta apenas precaver a tragédia: é preciso
punir. Até agora, os responsáveis pela pornochanchada golpista de 08 de janeiro
de 2023 estão soltos e com todo o vigor para cometerem os mesmos crimes e construírem
um cenário de aberração social do mais cristalino projeto da carcomida operação
de manipulação das massas.
O passado
se repete no presente não com tragédia, mas como aberração de uma farsa que
gera novas tragédias: a constância da alienação do Grande Capital como
sabotadora das democracias. Não existe as variantes fascistas sem investidores
com vultosa distribuição de capital que possam promover e alimentar a grande
rede de canalhices dos grupos que buscam sabotar a democracia em nome de
mentiras e das distorções que espatifam algum projeto que visa ampliar a
cidadania.
3. AS LIÇÕES DE WEIMAR
Se, por
hipótese, existisse uma máquina do tempo e trouxesse o ministro nazista da
Propaganda Política do Terceiro Reich, Joseph Goebbels, para a atualidade, o
braço direito de Hitler ficaria encantando! Um universo inteiro para manipular
sem que nada intervenha e ninguém seja punido por mentiras, distorções,
infâmias escrachadas no universo da internet.
Assim
como na Alemanha da chamada República de Weimar (1919-1933), berço da desordem
que imperou na primeira experiência democrática alemã após a hecatombe da
Primeira Guerra Mundial, o extremismo político tomou de assalto as ruas e,
liberalmente, quebrou ossos e tirou a vida de muitos dos entusiastas por
violência em um mundo sobre os escombros de uma guerra perdida.
O limbo
“democrático” de Weimar e da miséria imposta por soldados que nada mais tinham,
exceto a desonra e a miséria, nasceu o nanico Partido Nazista, a agremiação
política mais temida do mundo no século XX.
Inicialmente,
o Partido Nazista, em suas origens, era apenas um grupo majoritário de soldados
sem rumo e encontrou na figura insólita de um ressentido Adolf Hitler, a voz e
a vocação de uma vertiginosa “missão” para servir o povo e, para isto, para
proferir todos os impropérios contra a República em nome do “povo alemão”.
É
importante frisar que a Alemanha de Weimar foi palco exemplar de todo
sortilégio de loucura em nome da “democracia”. Sem nenhum constrangimento,
lutas tribais foram travadas nas ruas por motivações políticas e, depois,
racialistas, na epifania da loucura das massas contra os judeus.
Carregados
de ódio, mentira e distorções, uma série obscuros panfletos e jornais de livre
circulação provocaram uma rede de mentiras que terminaram em desorganizar ainda
mais o pensamento dos cidadãos. O Partido Nazista liderava as manifestações e
política de ódio contra comunistas, judeus e tudo que suas lideranças
considerassem “indesejáveis”.
Sem o
lastro de miséria, desamparo e desespero, tantas mentiras não encontrariam
morada nas mentes e corações dilacerados do povo alemão. As crises econômicas
viscerais da crise de hiperinflação de 1923 e o colapso da economia mundial em 1929,
colocaram a Alemanha de joelhos, e refém dos grupos extremistas e suas soluções
mágicas em nome do sepultamento da democracia e o levante do autoritarismo. Neste
lastro de irracionalismos, desesperança, fome, desemprego e orgulho ferido,
ascendeu o grupo político mais nefasto de todo a história do século XX e
mudaria o mundo para sempre: Partido Nazista entra a República de Weimar e ergue
o famigerado Terceiro Reich.
4. NO DILACERANTE DESERTO
DA DESESPERANÇA, EIS A MORADA IDEAL DAS IDEOLOGIAS FASCISTIZANTES
A quem
interessa uma sociedade fragmentada, intoxicada de falsas informações e
alienada do seu direito de pensar? A batalha da informação que está sendo
travada é para quem conseguir desconectar as pessoas de suas próprias vontades
e construir narrativas impostas como se fosse delas próprias.
Nada é
mais manipulador do que as estruturas do capitalismo que sabe operar o
inconsciente coletivo e transformar o desanimo e a desesperança em um barril de
pólvora para alimentar o ódio e o ressentimento.
Não há
nada novo que já não foi testado com objetivo de manipular uma sociedade de
massa. O que temos agora, é uma veloz escala industrializada de mentiras jamais
vista na história!
Nada que
a história não deixou suas lições que não possam ser lidas e aprendidas! Até
quando ousaremos repetir os piores momentos da História da civilização humana?
Como é
possível que um Estado permita que empresas se expandam de tal forma que se
transforma em monopólios mundiais deixando o próprio Estado refém delas? As
empresas mais ricas no “top 10”, segundo o site Investing.com, representam
monopólios mundiais da tecnologia.
Desta
forma, estão elas que ditam as regras do mercado mundial e criam condições de operarem
ao seu bel-prazer! Quebrar o monopólio destas empresas deveria ser uma
obrigação urgente dos governos de todos países, inclusive das principais potências,
uma vez que os próprios poderes estatais se tornaram refém dos interesses do
capital privado!
O
aprofundamento do avanço das tecnologias, curiosamente, muitas vezes, com
aporte de capital estatal, permitiu um nível de manipulação social que é, cada
vez, de maior complexidade de detecção e, pior ainda, as metamorfoses do
processamento do controle das informações atingem escalas inimagináveis. Tudo
isto, controlado por empresas privadas internacionais operando como verdadeiros
Estados Nacionais, com orçamentos anuais maiores do que o PIB da maioria dos
países do mundo, e que não são submetidas por nenhuma lei, apenas pelos
desígnios de seus abutres acionistas sedento por lucros!
Não se
pode apostar no lançamento de dados à espera da sorte dar números positivos na
roleta do grande cassino da civilização. A ideologia neoliberal procura sempre
normalizar a barbárie ao criticar e condenar sempre a ação do Estado contra os
interesses do Grande Capital.
As velhas
e novas formas de tirania sempre tiveram como base o controle e a manipulação
das informações vigentes em uma sociedade. No caso das Big Techs, sem nenhum
controle social e sem quebrar o monopólio das empresas transnacionais, o resultado
é uma submissão completa, ou seja, um planeta inteiro sitiado por uma espécie
de “terra de ninguém”, operadas por interesses do Grande Capital que possam manipular
diretamente os núcleos dos governos estatais do mundo inteiro e entregue à
barbárie do ultraliberalismo cujo força vital é moer tudo e a todos em nome dos
lucros do Grande Capital.
Wellington Fontes Menezes
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