sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

A NOVA VELHA (DES)ORDEM DO MUNDO DIANTE DA MEGALOMANIA PIRATA DE TRUMP: A DESCONSTRUÇÃO DO CAPITAL E A PRODUÇÃO INCESSANTE DE RESSENTIMENTOS

 


I. O delírio das identidades diante de um ar de egos narcísicos e ressentidos

Um dos princípios basilares do capitalismo é criar um paiol de ideologias lastreado na alienação. A criação de farsas teatrais impulsiona desentendimentos, ignorância e ressentimentos, além de ajudar a desviar a atenção dos reais problemas que afetam os intestinos das sociedades, as economias erodidas e a degeneração política de um sistema de incessante exploração.

A desmobilização dos movimentos sociais, que se descolaram da consciência de classe e do seu papel no mundo, transformou-os em faroletes moralistas nauseantes, corrompidos pela lógica do patrocínio do Grande Capital. Para alimentar, com generosas irrigações financeiras, uma cadeia ideológica de ruminantes ressentimentos pós-modernos, com seus ativistas catequéticos, o Grande Capital se travestiu de ONGs filantrópicas e fundos beneplácitos que visavam não apenas influenciar a opinião pública, mas também as políticas públicas.

Não se pode esquecer que a mobilização por uma volúpia onanística de performáticos debates unidirecionais e ressentimentos narcísicos — desde devaneios raciais, guerrilhas de travesseiro de gênero até a constelação de “identidades desconstruídas” (assim como a nova faceta da “desconstrução do capital”) — foi um mecanismo de criação incessante de ideologias narcísicas e eugênicas, além de se constituir como nichos de mercado. Nesse ínterim, é importante sempre lembrar que os “tempos sociais” refletem, invariavelmente, os tempos econômicos do paradigma reinante do momento.

Um destaque sintomático é o esvaziamento de ideias conceituais que foram erguidas na Modernidade, mas que hoje sofrem um processo de desertificação e desqualificação. Questões sobre a universalização de conceitos foram atacadas e buscaram ser reduzidas a meros fragmentos tão subjetivos quanto inúteis.

Um fetiche emblemático da Pós-modernidade, parida sob a égide do neoliberalismo, por exemplo, está em destruir, humilhar e avacalhar a imagem idealizada do homem (a alardeada e tão fetichizada “masculinidade do branco”), retratando-o como afeminado, estúpido e covarde. Nesse lastro, buscou-se germinar uma retórica pulverizada de “identidades desconstruídas” e, por outro lado, ajudou-se a alimentar uma manada de ressentidos, desempregados ou subempregados e desiludidos, capitaneada pela Extrema Direita.

Com a queda do Muro de Berlim e a dissolução da União Soviética, no final do século passado, sem rumo e sem horizonte crível, um oceano de alucinações narcísicas tomou conta da ideologia daquilo que se chama “progressista”. Com isso, a Esquerda, em sua maioria, deixou a materialidade e a luta de classes, abandonou o marxismo e o esclarecimento da racionalidade, e mergulhou na fantasia degenerativa de acreditar que o Cavalo de Troia das “identidades” era o suprassumo do que havia de mais progressista na civilização!

A adesão acrítica, por parte de uma Esquerda submissa ao modelo neoliberal, a um gelatinoso “programa” a partir das identidades representou uma opção tão irresponsável quanto inútil. Para solapar a democracia e a cidadania, surgiram elementos ideológicos que implicaram um enfraquecimento e questionamento de seus pilares. Por exemplo, foi alicerçado o encantamento das “minorias” (ou seja, o regurgitado neologismo para “mercado consumidor”), como resposta a um “biotipo” moral do “novo mundo”, pautado por uma suposta “diversidade” monotemática, pedante e unidirecional.

Na lógica de uma excessiva “vitimização”, deslocada da materialidade, tudo poderia ser transformado em “minoria”, desde grupos populacionais até opções fetichistas sexuais — assim como se multiplicam os nichos de mercado.

As chamadas “minorias” não eram operacionalizadas como um número cardinal dentro de um universo estatístico, mas como teatro de operações culturalizantes, ampliando sua densidade em um papel de “vitimização” e buscando a espetacularização de sua própria existência. O próprio sentido de pertencimento foi erodido com o ideário antinacionalista, em que tudo era obra de “colonizadores” que somente sabiam fazer “apropriação cultural”. A consciência de classe foi transformada, em que uma parcela das minorias era vista como “vítima” de colonizadores!

Dessa forma, não houve uma preocupação objetiva em formar cidadãos e, tampouco, implementar efetivamente a cidadania (diante do Estado de Direito com sujeitos plenos de direitos), mas sim o multiplicar de identidades flutuantes no caldo cultural imposto pelas disforia das redes sociais, ONGs e coletivos militantes, ancorados nos nichos de mercado.

A pergunta que pode ser feita é: e se no mundo real, toda essa parafernália verborrágica tresloucada que buscava operar uma alienação narcísica das massas, não servir para nada? Pois é… E não é que a resposta veio de forma tão assustadora?

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II. O mundo real chutou o balde e tudo o que era delírio se esvaiu em inquietação

Nem o ano de 2026 nasceu e já se tornou velho, assustador e caduco! A máscara do multiculturalismo neoliberal não se sustentou diante da agressividade incessante do capital. Daí, de forma desvairada, a realidade se desvela com um brutal escancaramento: um comandante de piratas na Casa Branca querendo pilhar o mundo — o bilionário Donald Trump. É importante ressaltar um breve resgate da trajetória de Trump, que agraciou com um mar de dólares o Partido Republicano, do qual se tornou o mais alardeado cacique.

Trump representa seu expressivo eleitorado estadunidense de ressentidos, em sua maioria com inclinações políticas extremistas de Direita. Com a condição de maior potência militar do planeta, Trump, sentado sobre ogivas nucleares capazes de destruir todo o planeta enésimas vezes, cada vez mais deixa o mundo estupefato com as bizarras, mesquinhas, violentas e erráticas atitudes da maior liderança oficial dos Estados Unidos.

O quase octogenário Trump sempre foi um bufão que, entre orgias, fortuna, escândalos e programas de televisão sensacionalistas, foi o que se chama de “outsider” da política dos Estados Unidos. O bilionário estadunidense nunca havia disputado nenhum cargo eletivo ou tido alguma relevância política no país quando foi eleito, pela primeira vez, presidente dos Estados Unidos, em 2016, e voltou a vencer em 2024.

Sobraram polêmicas em seu primeiro mandato, e Trump, inclusive, foi o inspirador do ataque ao Capitólio, em 6 de janeiro de 2021, por parte de sua militância de radicais da Extrema Direita, raivosos pela derrota na disputa por um segundo mandato. Com o fracasso do democrata Joe Biden no plano econômico pós-pandemia, Trump ganhou respiro e retornou triunfante à presidência, derrotando a então vice-presidente democrata Kamala Harris.

No segundo ano de seu mandato, Trump decidiu ampliar seu teatro fantasmagórico, que já se desenrolava no plano interno com a “caça aos imigrantes ilegais”. O comandante do maior exército do mundo passou a dizer, literalmente, que imporia a força para fazer prevalecer seus caprichos no globo. Com isso, Trump estabelece um mórbido cenário de destruição do Direito Internacional e atinge o âmago do que restava da desorganizada ordem global oriunda dos escombros da Guerra Fria.

E o que restou do teatro burlesco da retórica da “desconstrução do homem” na Pós-modernidade? Nada! Virou purpurina de fim de festa da orgia dionisíaca do vazio performático das ideologias autofágicas pós-modernas. Nada disso serve para alguma coisa em tempos de pirataria e destruição acachapante promovidas pelos arautos mais perversos do capital na atualidade.

Sob um cenário nebuloso, um novo e destrutivo mundo está eclodindo diante dos olhos atônicos de todo o planeta. Nesse mundo, mais parecido com uma distopia de ficção futurista, tem-se um Trump megalomaníaco que age de forma tresloucada, pisando em qualquer coisa que seu ego desejar, para agitar seu público interno e ser aplaudido por seu eleitorado de reacionários ressentidos.

Destaca-se que Trump é obcecado por plateia e, para ele, nada é mais importante do que se mostrar como uma grande e gorda cereja, mais expressiva e adorada do que o bolo do complexo governamental estadunidense. E a realidade do mundo para Trump? Às favas!

Enfim, estamos sendo brutalmente tragados para o saco sem fundo de uma nova era em que, do jeito que se esboça o anárquico quadro da geopolítica mundial, não haverá mais segurança para ninguém. Trump, em busca de uma contínua carga emocional midiática para seu eleitorado interno, rompeu todos os laços da frágil estabilidade que delimitavam uma aparente racionalidade civilizatória. A aposta na barbárie, na banalização dos conflitos e na psicotização da sociedade está, enfim, colocando suas cartas na mesa e revelando uma nova face de uma espécie de capitalismo anárquico da monstruosidade.

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III. A diluição das fronteiras sem nenhum limite: redesenhando a colonização da América Latina e a pilhagem como nova era da anarquia capitalista

Com a aventura do sequestro do presidente Nicolás Maduro e, consequentemente, a pirataria e a pilhagem do petróleo praticadas por Trump na Venezuela, ventila-se que uma reconfiguração da velha “Doutrina Monroe” se reinstala, com o objetivo de transformar, novamente, toda a América Latina em um curral submisso aos interesses políticos de Washington, encurralada pelas Forças Armadas estadunidenses.

Diante da lenta e turva derrocada econômica dos Estados Unidos, pode-se afirmar que se trata de uma estratégia pontual de Trump e de sua típica megalomania maníaco-obsessiva. Todavia, convenhamos: alguém acreditaria que, por exemplo, em um eventual governo da ex-concorrente de Trump à Casa Branca, a democrata Kamala Harris, algo seria substancialmente diferente em relação à Venezuela? Talvez com mais sutileza do que sequestrar o presidente local; porém, a agressividade perante os países latino-americanos não destoaria da de Trump.

Não vivemos apenas tempos nauseantes, mas também a diluição do pensamento crítico e a perda do senso de observação diante da realidade, em meio a um oceano explosivo no qual a violência se impõe diante da deterioração dos Estados nacionais, que agem não em favor de seus cidadãos, mas explicitamente em prol das grandes empresas transnacionais, por sua vez operadas pelo capital financeiro multifacetado.

O sucesso de lideranças grotescas da Extrema Direita, em grande parte, é reflexo da falta de propostas e de um programa realista para animar os trabalhadores e reconquistar a confiança das massas, perdidas nos sucessivos anos do neoliberalismo imposto no mundo e, de maneira intensa, no Brasil. A ascensão de uma Extrema Direita com adesão popular permitiu criar condições para figuras de fora da política formal, como Trump, projetarem-se como “salvadores da pátria” e despejarem uma torrente de bravatas e um programa reacionário para alimentar uma militância ávida por soluções mágicas instantâneas.

A partir dessa trágica realidade, as normas costuradas por um mínimo de “civilidade” estão ruindo sem qualquer parâmetro, e as garantias humanitárias evaporam-se, tal como a esperança de dias melhores. O novo mundo se apresenta como um lugar mais perigoso e inseguro do que antes, e tudo o que foi alimentado e validado por construções patologicamente narcísicas dos sujeitos nada vale, não apenas para compreender o cenário que se avizinha, mas também para modificar o que está em curso. O futuro, no momento, é da cor de uma longa noite sem estrelas diante de um eclipse lunar.

(Wellington Fontes Menezes)

 


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