I. O delírio das identidades diante de um ar de
egos narcísicos e ressentidos
Um dos
princípios basilares do capitalismo é criar um paiol de ideologias lastreado na
alienação. A criação de farsas teatrais impulsiona desentendimentos, ignorância
e ressentimentos, além de ajudar a desviar a atenção dos reais problemas que
afetam os intestinos das sociedades, as economias erodidas e a degeneração
política de um sistema de incessante exploração.
A
desmobilização dos movimentos sociais, que se descolaram da consciência de
classe e do seu papel no mundo, transformou-os em faroletes moralistas
nauseantes, corrompidos pela lógica do patrocínio do Grande Capital. Para
alimentar, com generosas irrigações financeiras, uma cadeia ideológica de
ruminantes ressentimentos pós-modernos, com seus ativistas catequéticos, o
Grande Capital se travestiu de ONGs filantrópicas e fundos beneplácitos que
visavam não apenas influenciar a opinião pública, mas também as políticas
públicas.
Não se
pode esquecer que a mobilização por uma volúpia onanística de performáticos
debates unidirecionais e ressentimentos narcísicos — desde devaneios raciais,
guerrilhas de travesseiro de gênero até a constelação de “identidades
desconstruídas” (assim como a nova faceta da “desconstrução do capital”) — foi
um mecanismo de criação incessante de ideologias narcísicas e eugênicas, além
de se constituir como nichos de mercado. Nesse ínterim, é importante sempre
lembrar que os “tempos sociais” refletem, invariavelmente, os tempos econômicos
do paradigma reinante do momento.
Um
destaque sintomático é o esvaziamento de ideias conceituais que foram erguidas
na Modernidade, mas que hoje sofrem um processo de desertificação e desqualificação.
Questões sobre a universalização de conceitos foram atacadas e buscaram ser
reduzidas a meros fragmentos tão subjetivos quanto inúteis.
Um
fetiche emblemático da Pós-modernidade, parida sob a égide do neoliberalismo,
por exemplo, está em destruir, humilhar e avacalhar a imagem idealizada do
homem (a alardeada e tão fetichizada “masculinidade do branco”), retratando-o
como afeminado, estúpido e covarde. Nesse lastro, buscou-se germinar uma
retórica pulverizada de “identidades desconstruídas” e, por outro lado,
ajudou-se a alimentar uma manada de ressentidos, desempregados ou subempregados
e desiludidos, capitaneada pela Extrema Direita.
Com a
queda do Muro de Berlim e a dissolução da União Soviética, no final do século
passado, sem rumo e sem horizonte crível, um oceano de alucinações narcísicas
tomou conta da ideologia daquilo que se chama “progressista”. Com isso, a
Esquerda, em sua maioria, deixou a materialidade e a luta de classes, abandonou
o marxismo e o esclarecimento da racionalidade, e mergulhou na fantasia
degenerativa de acreditar que o Cavalo de Troia das “identidades” era o
suprassumo do que havia de mais progressista na civilização!
A adesão
acrítica, por parte de uma Esquerda submissa ao modelo neoliberal, a um
gelatinoso “programa” a partir das identidades representou uma opção tão
irresponsável quanto inútil. Para solapar a democracia e a cidadania, surgiram
elementos ideológicos que implicaram um enfraquecimento e questionamento de
seus pilares. Por exemplo, foi alicerçado o encantamento das “minorias” (ou
seja, o regurgitado neologismo para “mercado consumidor”), como resposta a um
“biotipo” moral do “novo mundo”, pautado por uma suposta “diversidade”
monotemática, pedante e unidirecional.
Na lógica
de uma excessiva “vitimização”, deslocada da materialidade, tudo poderia ser
transformado em “minoria”, desde grupos populacionais até opções fetichistas
sexuais — assim como se multiplicam os nichos de mercado.
As
chamadas “minorias” não eram operacionalizadas como um número cardinal dentro
de um universo estatístico, mas como teatro de operações culturalizantes,
ampliando sua densidade em um papel de “vitimização” e buscando a
espetacularização de sua própria existência. O próprio sentido de pertencimento
foi erodido com o ideário antinacionalista, em que tudo era obra de
“colonizadores” que somente sabiam fazer “apropriação cultural”. A consciência
de classe foi transformada, em que uma parcela das minorias era vista como
“vítima” de colonizadores!
Dessa
forma, não houve uma preocupação objetiva em formar cidadãos e, tampouco, implementar efetivamente a
cidadania (diante do Estado de Direito com sujeitos plenos de direitos), mas sim o
multiplicar de identidades flutuantes no caldo cultural imposto pelas disforia das redes
sociais, ONGs e coletivos militantes, ancorados nos nichos de mercado.
A
pergunta que pode ser feita é: e se no mundo real, toda essa parafernália
verborrágica tresloucada que buscava operar uma alienação narcísica das massas,
não servir para nada? Pois é… E não é que a resposta veio de forma tão assustadora?
*
II. O mundo real chutou o balde e tudo o que era
delírio se esvaiu em inquietação
Nem o ano
de 2026 nasceu e já se tornou velho, assustador e caduco! A máscara do
multiculturalismo neoliberal não se sustentou diante da agressividade
incessante do capital. Daí, de forma desvairada, a realidade se desvela com um
brutal escancaramento: um comandante de piratas na Casa Branca querendo pilhar
o mundo — o bilionário Donald Trump. É importante ressaltar um breve resgate da
trajetória de Trump, que agraciou com um mar de dólares o Partido Republicano,
do qual se tornou o mais alardeado cacique.
Trump
representa seu expressivo eleitorado estadunidense de ressentidos, em sua
maioria com inclinações políticas extremistas de Direita. Com a condição de
maior potência militar do planeta, Trump, sentado sobre ogivas nucleares
capazes de destruir todo o planeta enésimas vezes, cada vez mais deixa o mundo
estupefato com as bizarras, mesquinhas, violentas e erráticas atitudes da maior
liderança oficial dos Estados Unidos.
O quase
octogenário Trump sempre foi um bufão que, entre orgias, fortuna, escândalos e
programas de televisão sensacionalistas, foi o que se chama de “outsider” da
política dos Estados Unidos. O bilionário estadunidense nunca havia disputado
nenhum cargo eletivo ou tido alguma relevância política no país quando foi
eleito, pela primeira vez, presidente dos Estados Unidos, em 2016, e voltou a
vencer em 2024.
Sobraram
polêmicas em seu primeiro mandato, e Trump, inclusive, foi o inspirador do
ataque ao Capitólio, em 6 de janeiro de 2021, por parte de sua militância de
radicais da Extrema Direita, raivosos pela derrota na disputa por um segundo
mandato. Com o fracasso do democrata Joe Biden no plano econômico pós-pandemia,
Trump ganhou respiro e retornou triunfante à presidência, derrotando a então
vice-presidente democrata Kamala Harris.
No
segundo ano de seu mandato, Trump decidiu ampliar seu teatro fantasmagórico,
que já se desenrolava no plano interno com a “caça aos imigrantes ilegais”. O
comandante do maior exército do mundo passou a dizer, literalmente, que imporia
a força para fazer prevalecer seus caprichos no globo. Com isso, Trump
estabelece um mórbido cenário de destruição do Direito Internacional e atinge o
âmago do que restava da desorganizada ordem global oriunda dos escombros da
Guerra Fria.
E o que
restou do teatro burlesco da retórica da “desconstrução do homem” na
Pós-modernidade? Nada! Virou purpurina de fim de festa da orgia dionisíaca do
vazio performático das ideologias autofágicas pós-modernas. Nada disso serve
para alguma coisa em tempos de pirataria e destruição acachapante promovidas
pelos arautos mais perversos do capital na atualidade.
Sob um
cenário nebuloso, um novo e destrutivo mundo está eclodindo diante dos olhos
atônicos de todo o planeta. Nesse mundo, mais parecido com uma distopia de
ficção futurista, tem-se um Trump megalomaníaco que age de forma tresloucada,
pisando em qualquer coisa que seu ego desejar, para agitar seu público interno
e ser aplaudido por seu eleitorado de reacionários ressentidos.
Destaca-se
que Trump é obcecado por plateia e, para ele, nada é mais importante do que se
mostrar como uma grande e gorda cereja, mais expressiva e adorada do que o bolo
do complexo governamental estadunidense. E a realidade do mundo para Trump? Às
favas!
Enfim,
estamos sendo brutalmente tragados para o saco sem fundo de uma nova era em
que, do jeito que se esboça o anárquico quadro da geopolítica mundial, não
haverá mais segurança para ninguém. Trump, em busca de uma contínua carga emocional
midiática para seu eleitorado interno, rompeu todos os laços da frágil
estabilidade que delimitavam uma aparente racionalidade civilizatória. A aposta
na barbárie, na banalização dos conflitos e na psicotização da sociedade está,
enfim, colocando suas cartas na mesa e revelando uma nova face de uma espécie
de capitalismo anárquico da monstruosidade.
*
III. A diluição das fronteiras sem nenhum limite:
redesenhando a colonização da América Latina e a pilhagem como nova era da
anarquia capitalista
Com a
aventura do sequestro do presidente Nicolás Maduro e, consequentemente, a
pirataria e a pilhagem do petróleo praticadas por Trump na Venezuela,
ventila-se que uma reconfiguração da velha “Doutrina Monroe” se reinstala, com
o objetivo de transformar, novamente, toda a América Latina em um curral
submisso aos interesses políticos de Washington, encurralada pelas Forças
Armadas estadunidenses.
Diante da
lenta e turva derrocada econômica dos Estados Unidos, pode-se afirmar que se
trata de uma estratégia pontual de Trump e de sua típica megalomania
maníaco-obsessiva. Todavia, convenhamos: alguém acreditaria que, por exemplo,
em um eventual governo da ex-concorrente de Trump à Casa Branca, a democrata
Kamala Harris, algo seria substancialmente diferente em relação à Venezuela?
Talvez com mais sutileza do que sequestrar o presidente local; porém, a
agressividade perante os países latino-americanos não destoaria da de Trump.
Não
vivemos apenas tempos nauseantes, mas também a diluição do pensamento crítico e
a perda do senso de observação diante da realidade, em meio a um oceano
explosivo no qual a violência se impõe diante da deterioração dos Estados
nacionais, que agem não em favor de seus cidadãos, mas explicitamente em prol
das grandes empresas transnacionais, por sua vez operadas pelo capital
financeiro multifacetado.
O sucesso
de lideranças grotescas da Extrema Direita, em grande parte, é reflexo da falta
de propostas e de um programa realista para animar os trabalhadores e
reconquistar a confiança das massas, perdidas nos sucessivos anos do
neoliberalismo imposto no mundo e, de maneira intensa, no Brasil. A ascensão de
uma Extrema Direita com adesão popular permitiu criar condições para figuras de
fora da política formal, como Trump, projetarem-se como “salvadores da pátria”
e despejarem uma torrente de bravatas e um programa reacionário para alimentar
uma militância ávida por soluções mágicas instantâneas.
A partir
dessa trágica realidade, as normas costuradas por um mínimo de “civilidade”
estão ruindo sem qualquer parâmetro, e as garantias humanitárias evaporam-se,
tal como a esperança de dias melhores. O novo mundo se apresenta como um lugar
mais perigoso e inseguro do que antes, e tudo o que foi alimentado e validado
por construções patologicamente narcísicas dos sujeitos nada vale, não apenas
para compreender o cenário que se avizinha, mas também para modificar o que
está em curso. O futuro, no momento, é da cor de uma longa noite sem estrelas
diante de um eclipse lunar.
(Wellington
Fontes Menezes)