segunda-feira, 31 de maio de 2021

A PANDEMIA DE ESTUPIDEZ E O REBOTALHO CIVILIZATÓRIO

 


O que esperar da civilização quando a estupidez é cultivada como elemento central da cultura? Ao desvalorizar ou minimizar os estudos das Ciências, em prol de outros proselitismos narcisistas na Educação, um ensino voltado para a superficialidade da castração intelectual promove a falta de construção crítica do sujeito-aluno. Por sinal, a Educação é um sintoma dos processos políticos, econômicos e culturais que transita e transforma uma sociedade.

         Na trama neoliberal para domesticação social, o dito cidadão, ou seja, aquele sujeito às amarras neoliberal do capital, não consegue ver além do mero horizonte umbilical. Impregnado por subjetividades promovidas pela indústria cultural, o seu mundo não passa de meia dúzia de bricolagens cotidianas, as quais ele não consegue elaborar com um nível maior de profundidade.

           Neste percurso da fragilidade excessiva da condição humana pós-moderna sob a égide do capital, a liquidez das relações sociais, como apontou Zygmunt Bauman, se torna inevitável: nada é para durar e tudo é tão perene e instável como uma bolha de sabão. A indiferença e o medo do outro se tornam elementos de uma coletividade que não se enxerga, paradoxalmente, como participante de um coletivo! Temos então mais uma demonstração das contradições inatas do capitalismo que resulta na promoção da "sociedade dos inimigos" que tanto é cultivada pelas barbáries de uma atroz burguesia para enjaular e colocar todos contra todos entre as classes trabalhadoras e miseráveis.

Na esteira da esquizofrenia, os debates da esfera pública se transformam em um teatro do sanatório, uma vez que nada relevante é questionado e um punhado de polêmicas tolas conquistam vultos de uma demência coletiva. Na onda da destruição dos saberes, em prol da estupidez coletiva, professores e intelectuais são destituídos de seus postos como referências de conhecimento, para ser entronada uma horda de ignorantes e oportunistas que se utilizam das redes sociais, como se fossem um palanque eletrônico de uma imensa "feira do rolo", diante de um oceano de estupidez. 

Durante a pandemia, a escola voltou a ficar em evidência. Não por ela ser uma entidade de importância vital para a Educação da sociedade, mas como depósito de crianças cujos pais não mais aguentam ficar em isolamento social com a sua prole! Mais uma vez, se revela a distorção que vem sendo nutrida na sociedade: o conhecimento no posto de bricolagem descartável e a estupidez como espetáculo! Os impactos com a pandemia atingiram sem piedade os mais pobres. No caso mais específico das famílias de trabalhadores e desempregados, a fome e a falta de estímulos para a Educação compactuam com a falta de estrutura para o ensino à distância. Uma perda significativa de aprendizado já tem sido observada em decorrência dos diversos problemas oriundos da fragilidade do sistema educacional e agravado com a pandemia. Sendo assim, mais um convite para a estupidez crônica, voluntária ou não, aprofunda ainda mais o fosso social.  

Ainda no campo da pandemia, a estupidez foi a maior responsável por quase meio milhão de mortos no Brasil, até o momento, e milhões de contaminados. Todo o aparelhamento do governo federal nas mãos da milícia de Jair Bolsonaro produziu uma série de insanidades para desinformar a sociedade, contaminar e sabotar, ao máximo, a aquisição de vacinas contra a COVID-19. Nunca a estupidez genocida estatal matou tantos brasileiros e em tão pouco tempo na história do país. Vivenciamos um genocídio que já deixa marcas horripilantes para as futuras gerações terem ojeriza de nossa geração de bestificados. 

Como desgraça pouca é mera retórica diante da realidade, o farelo cultural não para de produzir estupidez. Ao optar pelo desígnio narcísico do sujeito, outro grupo de fanáticos anti-intelectuais ganhou espaço na agenda da estupidez pós-moderna, os chamados identitários. Na onda do revisionismo histórico e cultural, típico das hordas fascistas, os identitários reduzem todo o pensamento à militância histérica e a pregação deste grupo é produzir uma nova onda moralizante da Santíssima Trindade Identitária, cuja visão de mundo se resume em uma tríade de neuroses obsessivas: a infantilização da sexualidade, o alucinado revanchismo racial e o fomento das disputas de pré-adolescentes a respeito dos gêneros durante o recreio escolar! Ao abandonar a complexidade das estruturas socioeconômicas e políticas moldada pelas perversões do capital, os militantes desta simplificação de mundo se embriagam em superficiais elementos narcísicos que buscam operar por via da panfletagem de uma espécie de naturalização de “antagonismos estruturais culturalistas”. 

Nada mais sintomático é observar que uma “nova moral”, típica de adolescentes querendo descobrir o mundo, é objeto de “empoderamento” do mercado neoliberal. Claro, toda esta “militância empoderada” conta a participação ativa e as bênçãos do capital para criar novos nichos de mercado e atender a novas demandas de consumidores que pulsionam novos fetiches de consumismo. Na onda onde tudo é “preconceito” para “cuidar do meu corpo”, todos são inimigos, exceto o afago das idiossincrasias do mercado. O pior de tudo é observar uma parte significativa de uma esquerda política, sem melhor juízo ou senso crítico, embarcando nesta estupidez sem tamanho, promovida por um “neoliberalismo cognitivo”. 

Por mais que a estupidez seja uma desgraça para o conjunto da humanidade, ela oferece espetaculares lucros para o capital que, simultaneamente, mantêm o controle social das massas populares, as quais não enxergam que são exploradas e, pior ainda, sequer se mobilizam efetivamente para sair deste julgo de dominação! 

A ideologia imposta pelo capital em suas diversas variantes é um vírus tão poderoso que nem mesmo o fantasma de antigas vacinas "revolucionárias" parece coibir a contaminação. A estupidez como espetáculo, seja em redes sociais, seja em programas televisivos, demonstra que o processo de imbecilização social é uma perversa construção cultural. Não foi a toa que o Brasil, desde 2013, embarcou na onda da loucura social dos protestos que resultou em um golpe de estado em 2016 e a ascensão da escória miliciana ao poder, em 2018. Com a pandemia, o teatro tétrico da estupidez megalomaníaca brasileira ganhou sua cereja gigantesca sobre o bolo de milhares de covas ao logo das terras de cemitério pelo país. 

A estupidez que a indústria cultural impõe como, por exemplo, os dejetos sonoros produzidos pelos divulgadores de músicas no país são alarmantes. O escroque civilizatório da estupidez produziu uma trilha sonora onde se torna emblemático o estrume pastoso em que o capital quer transformar o país. Não é a toa que verdadeiros boçais, sem nenhum talento para sequer balbuciar algumas palavras, se tornam "astros" de uma plateia que não se importa de ser enganada e, pior ainda, ser reduzida ao mesmo nível de excremento dos seus "ídolos". A decadência cultural é mais um sintoma da destruição corrosiva do capital e a adestração da sociedade para se conformar com a barbárie programada. 

O desafio que poucos conseguem enxergar é, de fato, uma colossal e turva batalha civilizacional. Uma nova era de subdesenvolvimento se instalou no país com todo o sortilégio de perversões nos tonéis gigantescos de estupidez para arquitetar uma sociedade tão tosca quanto passiva. Nossa estupidez não é um fato fortuito de uma depressiva decadência inevitável, mas um mecanismo de controle social que os donos do capital e seus subalternos diretos impõem para manter as velhas rédeas do poder em nome da exploração e miséria física e psíquica de milhões de seres condenados à própria sorte.

 

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Wellington Fontes Menezes – Doutor em Ciências Jurídicas e Sociais (UFF); Mestre em Ciências Sociais (UNESP); Bacharel e Licenciado em Física (USP).

sexta-feira, 30 de abril de 2021

ILUSÕES PÓS-PANDEMONÍACAS

 


Há um otimismo exagerado em algumas análises que se nutrem da queixa do "cansaço da pandemia", acreditando que todo o mal-estar gerado, trará um "mundo melhor", quando a humanidade domesticar o novo coronavírus. Será possível acreditar em um "nirvana pandêmico" de purificação da consciência humana, ou tudo acabará numa volúpia hedonista de criança mimada?

Uma visão poliana seduz muitas das análises otimistas, mas não resiste muito tempo diante da realidade. Tudo parece ser promissor, se não fosse pelo fato de que o progresso não é linear e, tampouco, como se as estruturas sociais não sofressem diferentes impactos sistêmicos, de acordo com a região. Por outro lado, hedonismo sem recursos econômicos é como "praia de paulistano" com um vazio na carteira: visitar vitrine de "shopping center" sem poder comprar suas mercadorias.

Diante da realidade, se o vírus ataca a todos, nem todos tem os mesmos mecanismos de proteção. Europa, Estados Unidos, China e os ricos países asiáticos sairão das turbulências pandêmicas muito melhor, se comparados ao resto de mundo, na pós-pandemia.

O otimismo exagerado cria uma blindagem contra o senso crítico e as ilusões cavalgam sem destino. Da ansiedade na descoberta de vacina contra o vírus, chegou-se à guerra por seu acesso. A disparidade entre ricos e pobres segue fazendo o mesmo percurso conhecido: quem pode mais, vacina primeiro! Logo, vacinadas prioritariamente por terem recursos para pagar às grandes farmacêuticas, serão estas regiões que darão os primeiros saltos para a estabilização econômica. O resto do globo ficará com a xepa do que sobrar, se sobrar algo!

Neste sentido, nas localidades  de maior desenvolvimento econômico, haverá uma demanda reprimida resultante do período de pandemia. Logo, diante da possibilidade de retomar o "velho normal", acenderá o consumismo e os desejos imediatistas. Assim os capitalistas e seus serviçais farão de tudo para atender de pronto a todos aqueles que tiverem recursos econômicos para trocar dinheiro por gozo irrefreável e ilimitado. Para a inflexível ordem do capital, tudo é bem claro: ou "money", ou nada!

No caso brasileiro, graças aos esforços devassos do desgoverno de Bolsonaro, teremos um saldo histórico em mortos por COVID-19, como sendo o mais genocida do mundo. No Brasil que vê destruída sua sociabilidade de forma avassaladora, há um descontrole que é um verdadeiro hospício do terror, com uma economia em recessão sem freio e um povo dividido entre os aplausos sádicos para o genocídio diário e a covardia coletiva aceitando passivamente a morte.

Da devassidão pandêmica ao suposto alívio pós-pandêmico, temos a clareza de que a humanidade continuará a ser o que sempre foi: fantasticamente brilhante quando os interesses se restringem aos egoísmos narcísicos e, por interesses do capital, leniente quando se trata de ampliar os horizontes solidários, referentes a um mundo por mais equidade socioeconômica. Porém, em detrimento de toda a realidade fratricida, há aqueles que preferem viver fazendo o desmedido uso do colírio do delírio civilizacional e do hedonismo como destino.


Para ler mais: https://brasil.elpais.com/cultura/2021-04-27/caminhamos-pros-novos-anos-loucos-de-hedonismo-pos-covid.html

quinta-feira, 18 de março de 2021

POPULISMO IDENTITÁRIO NA ANPOCS

 


 "Neste ano, teremos 20% de reserva de vagas para pesquisadores/as pretos/as, pardos/as, trans ou com deficiência que participem dos SPGs ou GTs como expositores/as de paper. No caso das Mesas Redondas, não serão habilitadas propostas que não contemplem ao menos uma pesquisadora como expositora. As Ciências Sociais brasileiras estão atravessadas, ainda, por desigualdades regionais que se fazem ainda mais significativas no cenário atual de desfinanciamento da educação e da pesquisa. Assim, também são observados critérios de representatividade regional na seleção de propostas. Essas Políticas visam estimular que a diversidade constitutiva da comunidade de cientistas sociais se faça presente nas mais variadas áreas temáticas que compõem a programação do Encontro e se guiam pela autodeclaração dos/as pesquisadores/as no momento da submissão de seus resumos." 

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Acima, temos um fragmento da chamada para o Encontro Anual da “Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais” (ANPOCS) para a edição de 2021. A organização deveria zelar por critérios técnicos para a pesquisa científica na área de Ciências Sociais, mas parece enveredar no desnecessário e preocupante percurso do modismo que ecoa diante de um sedutor populismo identitário, o qual começa a grassar nos meios acadêmicos e nas pesquisas científicas.

Preocupa-se quando as escolhas sobre pesquisas científicas não são pertinentes aos critérios técnicos e científicos, mas supostamente subjetivos e identitários! Qual o sentido de fazer cotas para a pesquisa científica, se os trabalhos são submetidos aos pareceristas do evento, supostamente de forma anônima, conforme são as regras de submissão?

Ao se optar pelas cotas, o efeito não é de privilegiar os diferentes, mas acentuar as desigualdades de quem está do lado que, supostamente, carece delas, precisando de privilégios para serem reconhecidos como “pesquisadores”. Nesta “inclusão excludente”, a ANPOCS, no seu afã populista identitário, parece que, ironicamente, esqueceu-se de incluir os povos originários. Se a premissa que está sendo imposta é a pauta identitária em detrimento do mérito científico, será que eles não seriam também interessantes ou haveria outros motivos mais ocultos para não incluí-los?

É importante ressaltar: uma questão é o acesso à universidade pública diante das disparidades da Educação Básica brasileira, mas outra questão bem diferente se situa no nivelamento de conhecimento e de produção científica. Logo, parece pouco plausível a distinção por meio de cotas para um suposto nível de conhecimento entre os pesquisadores. Qual o critério de escolha de trabalhos acadêmicos para congressos científicos? Qual a lógica da autodeclaração de etnia, gênero ou sexualidade para a submissão dos trabalhos científicos? Se os sujeitos atingiram a capacidade de serem pesquisadores e estão imersos em uma crise de desvalorização da Educação e da Ciência, logo, indistintamente, afeta a todos que fazem pesquisa científica.

Diante do quadro tenebroso que a Ciência vem sofrendo no Brasil pós-golpe e o massacre da política genocida de Bolsonaro, não parece que existam ilhas de privilégios nas Ciências Sociais, como permite suscitar a convocação para os trabalhos do Encontro da ANPOCS. Por sinal, no Brasil, as Ciências Sociais já ficam à margem diante do minguado fomento de financiamento de pesquisa, em comparação as demais Ciências. Afinal, qual a lógica da obsessão de adentrar no reino do irracionalismo em nome do populismo das identidades, tão patrocinado pelo neoliberalismo e seus arautos ideológicos?

O proselitismo e a demagogia são os piores meios para uma suposta "superação das desigualdades sociais", via descarte do mérito da pesquisa em um congresso científico! Lembrar que os revisionistas e negacionistas rejeitam a Ciência em nome de seus esdrúxulos dogmas subjetivos e identitários!

Na lógica do pensamento mágico identitário, basta colocar um elemento "representativo" da Santíssima Trindade Identitária, para que todo o conhecimento aflore por osmose, as injustiças sociais se evaporem como fumaça de chaminé de escolhas papais e a verdade se firme como um prego fincado na gelatina! Diante dos fatos, causam demasiada surpresa os quesitos impostos na construção do Encontro Anual da ANPOCS. Lastimável que chegamos ao ponto da demagogia populista nas organizações científicas, as quais deveriam zelar pela pesquisa científica em Ciências Sociais.

Para que servem os estudos e pesquisas arduamente trabalhados se o que vale, no final, é a subjetividade do sujeito em nome da sua suposta identidade egoica e alegóricas dimensões sociais? No meio de uma pandemia de irracionalismo, parece que a ANPOCS foi severamente contaminada. Sendo assim, é preciso ser vacinada com a Ciência para evitar o vírus do obscurantismo e do irracionalismo! Não é possível aceitar que o populismo identitário se torne a nova onda negacionista dentro da Ciência, e que é mais grave ainda, em nome de supostas subjetividades reprimidas de demandas que podem ser justas socialmente, mas que não combinam com a objetividade que a pesquisa científica necessita, para se oferecer como mecanismo de conhecimento real para a humanidade.

domingo, 7 de março de 2021

GETÚLIO VARGAS

Datada de 24 de agosto de 1954, a carta de suicídio de Getúlio Vargas (1882-1954) é considerada um dos grandes documentos políticos da história contemporânea brasileira. Controverso, mas incisivo líder revolucionário de 1930, Vargas instalou uma ditadura e flertou com o fascismo até o início da Segunda Guerra Mundial. Apesar da empreitada autoritária, foi astuto e camaleônico e, quando se sentiu isolado politicamente, abraçou o populismo e acabou nos "braços do povo". Vargas, foi um conciliador de classes com olhar progressista e, certamente, foi o político mais importante do país no século XX. Considerado o "pai dos pobres", com uma série de leis que beneficiou a regulação do trabalho assalariado, contudo, Vargas impulsionou a dinâmica capitalista nacional e contribuiu para fomentar a riqueza da burguesia nacional. O político da terra de São Borja (RS) foi fundamental na transição do Brasil recém-republicano imerso em políticas provinciais para uma estrutura centralizada de poder de Estado.



NÃO BASTA FINGIR RESPONSABILIDADE, É PRECISO TER RESPONSABILIDADE


Há momentos que exigir um responsável bom senso jornalístico é pedir água no deserto. Em geral, a BBC Brasil que, ao contrário de muitos veículos de imprensa que fizeram o país ir para a cova do golpismo, faz uma boa cobertura sobre a pandemia. Porém, nesta confusa reportagem em destaque, o veículo de imprensa de matriz inglesa, deixa margem para os negacionistas genocidas atuarem com suas narrativas psicotizadas da morte.

Diante da gravidade monstruosa da segunda onda de COVID-19 patrocinada pelo desgoverno assassino de Jair Bolsonaro, ao questionar entre "imunização natural" (infecção via contágio) e "imunização artificial" (estímulo de anticorpos via vacinação), permite uma leitura que pode induzir a população ao entendimento de que, se deixar contaminar para uma "auto-imunização", é mais rápido do que gastar bilhões em vacinas! Observemos o perigo desta possível e deletéria conclusão de botequim!

A chamada "imunização de rebanho" por contágio é puro genocídio e expõe toda a população a dilacerantes sofrimentos e mortes desnecessárias, ao sabor da voracidade do vírus. Só uma vacinação eficaz e massiva será capaz de salvar vidas e minimizar sofrimentos.

Neste sentido, uma reportagem mal redigida ou desorientada é, para o leitor, tão nociva quanto o maremoto de "fake news" que circulam nas redes sociais, perversamente, de modo a confundir e imbecilizar amplos segmentos da população.

A informação correta e amparada em bases científicas é fundamental numa guerra genocida diante de vírus mortífero, onde a canalhice sistêmica de uma burguesia monstruosa e assassina levou, impiedosamente, o país ao nível mais abissal do precipício social.

Não basta fingir uma suposta "ética jornalística", é preciso atuar de forma fidedigna aos princípios da veracidade dos fatos, sem induzir o leitor a equívocos ou interpretações dúbias, referentes às informações fornecidas.

domingo, 7 de fevereiro de 2021

NARCISO NO BERÇÁRIO

 


Quando a infantilização não tem idade, a projeção narcísica se torna o sacrossanto altar a ser ostentado.

A Pós-modernidade embriagada pelos valores do capital se constituiu em um retrocesso da razão e uma construção mítica da negação da maturidade do sujeito.

A adolescentização da vida, tal como numa propaganda de refrigerante, se forjou como uma resposta inconsciente ao medo e a insegurança diante de um mundo em decomposição das grandes certezas e forjado pela necessidade narcísica da aparência dos sujeitos.

Nesta lógica do imediatismo mágico, não basta parecer "sempre jovem", tem que montar o corpo como se fosse a idealização de uma idílica "juventude rebelde". Na prática, a projeção narcísica não passa do desejo de ser notado, reconhecido e validado pelo Outro.

Longe de ter alguma materialidade, as identitadades pós-modernas se constituíram na argamassa da subjetividade alimentada pela projeção narcísica do sujeito e de acordo com a modulação de seus voláteis desejos.

Importante salientar os valores ideológicos do capital tanto no linguajar mimetizado pelos sujeitos "pós-modernos", quanto na sua (inútil) tentativa de ser individualizar diante do oceano plasmado da unilateralidade do neoliberalismo.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2021

A ARAPUCA DO TERRAPLANISMO IDENTITÁRIO: QUEM LUCRA COM A CELEUMA DO SEXO DOS ANJOS?

 

Nada provoca mais polêmica gratuita do que mexer com a intimidade alheia. Assim como os mexericos sempre são campeões de audiência, a Pós-modernidade deu um lustro blasé na fofoca, com ares de intelectualidade, para vigorosos e flácidos debates nos cafés, happy hours e alguns tediosos seminários acadêmicos. A invocação do sexo dos anjos se tornou um fetiche em grande parte da intelectualidade acadêmica das humanidades, embriagada pelo canto da sereia da representatividade, diante do altar performático da santíssima trindade das identidades: sexo, gênero e raça.

O mundo pós-moderno, movido pelas engrenagens do capital, conseguiu o seu maior feito: a promoção da passividade social magnetizada pela crença irracional e narcisista, na metafísica do neoliberalismo. Nesta maravilhosa esteira do capital, no “moinho satânico” apontado por Karl Polanyi, sem uma mínima regulação estatal, tudo se torna mercadoria e tudo tem um preço (para quem pode pagar, é claro!).

No deserto que movimenta o cotidiano de sociedades fadadas a viverem de forma automatizada, a vida líquida, apregoada por Zygmunt Bauman, é nada além do que a ideologia do capital impregnada das mais articuladas formas, desde as concepções políticas, passando pela frágil arquitetura econômica e aterrissando até mesmo no meio das fantasias de alcova dos indivíduos.

Na lógica da atomização social, o sujeito se torna indivíduo ao perder sua subjetividade e se transforma em mero motor de alienações consumistas e da ignorância sistêmica. Adicionado a este motor, temos a embreagem do narcisismo. Quanto mais o sujeito tenta parecer "exótico", em um falso processo de individualidade, mais ele se torna uma caricatura do modelo neoliberal de sujeitos: desvalidos de conteúdos, embriagados de uma vida imediatista e esvaziada.

O interesse pela sexualidade é tão remoto, quanto os labirintos da curiosidade humana sobre si e sobre o mundo. Todavia, alguns pós-modernos querem “descobrir” a sexualidade, como se tudo fosse alguma novidade parida a partir do século XXI, ignorando o passado e projetando um véu de ineditismo que não condiz com a realidade. Seriam muitos destes ativistas que buscam se autopromoverem com pretensos mecanismos sexistas, tão inovadores como dizem, ou apenas marqueteiros a propagaram sensos comuns em vídeos, com odores de charlatanismo do Youtube?

As redes sociais permitem que muitos oportunistas ajam como “doutos” de conhecimento e se posam como “professores” do senso comum, ministrando “aulas” sobre tudo, com conteúdos dos quais nada dominam. O que se pode afirmar é que a dimensão da compulsão da sexualidade na Pós-modernidade se tornou um grande mercado de fetichismos, na busca frenética (e inútil) de preenchimento das crateras existenciais. Neste campo de alta lucratividade, há diversas formas de exploração pelo capital, para instigar fantasias e desejos de ávidos consumidores sedentos de algum “movimento na vida”. Logo, é um velho lugar-comum falar sobre qualquer coisa a respeito de sexualidade e, assim, conquistar consumidores. Ao deslumbrar incomensuráveis lucros, os vendedores de ilusões sabem que, quanto maior é a polêmica, maior é encorajado o desejo de mexerico do consumidor e, posteriormente, de inúmeras possibilidades de aquisição de bens ou serviços.

Em um mundo adoecido por uma pandemia de um vírus que provoca uma doença mortal, a COVID-19, e de um capitalismo mais mortífero ainda, o debate público se plasmou em um reino do infrutífero besteirol. Tudo para não fazer um único risco no espelho monopolístico do capital que hegemoniza a colonização da ideologia dominante, desde a queda do Muro de Berlim. Não é a toa que os novos eugenistas raciais, os tais "antirracistas" utilizam o piegas estratagema do alucinógeno "privilégio branco", dentro na nova quimera neoliberal que prega uma panaceia de explicação do mundo, o “racismo estrutural”: todos os brancos “geneticamente” seriam privilegiados e malvados e todos os negros seriam pobres criaturas ingênuas, dóceis e passíveis de serem vitimas de todos os infortúnios em suas vidas. Nesta profundidade da dimensão de um pires que comporta uma xícara de alucinógeno, não haveria espaço para luta de classes, mas sim uma imortalizada luta entre a eterna vítima negra e o garanhão branco doutrinador! Todavia, uma pergunta se porta no ar para os tais ativistas identitários de alma mater negra: em sociedades cuja presença negra seja ínfima ou nula, como explicar as diferenças sociais?

Derivado deste rocambole de retóricas flácidas, regado com muita imaginação, surge os tais “estudos da branquitude” no Brasil, como se fôssemos uma nação fundada por arianos que, por si só, conduziram sua genética de malefícios, ao longo dos séculos, no território tupiniquim. O espetáculo das caricaturas generalistas cria um teatro da vitimização que confunde o espectador e empobrece o debate público. Nesta esteira, os estudos acadêmicos também se tornam cada vez mais contaminados, com este rol de bobagens do senso comum, turbinado com grande overdose de imaginação preconceituosa e que não condiz com a realidade construída, em mais de quinhentos longos anos, de história das desigualdades brasileiras.

De antemão é bom que fique bem claro: não se nega a questão racial impregnada na sociedade brasileira, mas não será com pseudoteorias fantasiosas, incrementadas pelo capital que serão superadas chagas históricas. Nada disso seria apenas fumaça alucinógena gratuita, se não tivesse propósitos bem claros. Diante desta exibição minúscula de imaginação intelectual, as gritantes e assassinas diferenças sociais não mais seriam devidas ao acirramento da luta de classes, cujo poder coercivamente hegemônico está nas mãos das burguesias, mas tudo seria explicado por uma palavra mágica: o "preconceito". Ao buscar uma narrativa fantástica do irrealismo terraplanista para as desigualdades sociais, as explicações neoliberais do identitarismo visam atacar conceitos consagrados do marxismo e da luta de classes, preservando o capital e culpabilizando a percepção de cada indivíduo, perante uma suposta percepção de realidade calcada na aparência subjetiva.

A chamada “guerra de narrativas” é um nome pomposo para designar um perverso e caricatural revisionismo sócio historiográfico que busca difundir conceitos irreais e do senso comum, em substituição aos elementos consagrados em décadas de estudos e pesquisas acadêmicas e, pior ainda, “cancelar” todos que não se ajoelharem ao fanatismo das identidades e suas alucinações dos contos da Carochinha. Nesta matriz do ilusionismo fantástico dos terraplanistas identitários, o mundo seria então bipolar na narrativa pós-moderna das identidades: negros e racistas, homossexuais e homofóbicos, mulheres e machistas do patriarcado. Enfim, o terraplanismo identitário, cuja matriz é o universo umbilical da cultura de superfície, se resume em uma míope visão de berçário de um mundo de sujeitos: o “descolado” e o preconceituoso.

A simplória visão maniqueísta de mundo da bricolagem identitária se torna tão insana, anti-intelectual e fanatizada que apenas retroalimentam os mesmos fanáticos da extrema direita de quem, supostamente, seriam adversários. Lembrar que os estratagemas dos dois grupos, identitários e extrema direita, são tão parecidos que não seria exagero dizer que acabam se tornando, taticamente, irmãos siameses. Ao esvaziar a visão materialista histórica e dialética do mundo, ao abandonar a racionalidade, a razão e a percepção intelectual, as estruturas neoliberais da pós-modernidade reduzem o pensamento crítico a caricaturas de infantário de mundo.

Os arautos pós-modernos recorrem às ambivalências panfletárias, cujos motes são ampliar polêmicas, desenraizar um irracionalismo prejudicial ao desenvolvimento social, cultuar o anti-intelectualismo e, ao mesmo tempo, posam de “influenciadores” e, o principal, expurgam toda a culpa do capital por seu sistemático genocídio seletivo sobre a Terra. Nesta lógica, ao pulverizar a "culpa individual", o objetivo, no qual as grandes narrativas perdem sua força e o indivíduo se torna o centro do universo, em detrimento dos projetos coletivos que caducam por completo, visa o destino-manifesto do mercado reinando absoluto na terra plana neoliberal, dando vazão ao ego narcisista do eu-empreendedor-de-si-mesmo.

Quem fomenta tanta paranoia obsessiva narcisista? Quem lucra, sem cessar, bilhões em plena pandemia, onde milhões de vidas estão sendo devastadas? A quem interessa o debate do sexo dos anjos? Quem patrocina a estupidez dos fetiches periféricos e as histerias narcísicas? São os mesmos articuladores que sabem muito bem que, quanto maior o nível da imbecilização social, ou seja, da alienação das mais perversas possíveis, maior será o voluntarismo serviçal dos sujeitos, em nome dos senhores do capital.

Não há ilusões sobre esta imbricada e selvagem “guerra cultural”, imposta pelo capital e engendrada nos alicerces do que se poderia chamar “soft power”, empregando narrativas, ora subliminares, ora explícitas. O terraplanismo ideológico é uma ode à imbecilização coletiva, ou seja, uma apologia ao fetichismo pós-moderno e à ignorância que ceifa milhares de vidas diariamente. Nada mais curioso e sintomático do que a propulsão que tais ativistas do identitarismo dão ao empreendedorismo neoliberal, como se fosse tábua de salvação social: o fetiche de o sujeito virar “patrão” ou “patroa”, dentro de um Estado cuja interferência na economia fosse mínima. Até onde mesmo o identitarismo é tão “inovador” assim? Com o enfraquecimento das esquerdas de matriz marxista ou socialista, quem se interessaria em patrocinar tão avidamente, tantos grupos identitários, forjados dentro da própria esquerda que pulveriza o pensamento neoliberal, nos mais inacessíveis guetos sociais?

O negacionismo e o revisionismo, propalados por “narrativas” da extrema, direita são também utilizados como estratagema pelos ativistas identitários. Distorcer os fatos, corromper a verdade e difundir uma “nova verdade” que seja baseada nos interesses de grupos extremistas que, muitas vezes, acredita em um mundo refém de alucinógenas teorias conspiratórias de acordo com a freguesia: ora a culpa é do “globalismo”, ora a culpa é do “privilégio branco”. Um exemplo desta irracionalidade ativista é o movimento para derrubar estátuas em praça pública que, supostamente, não seriam “politicamente corretas”. Com a retórica da vulgata autoritária, se algo está fora das querelas da moral identitária, logo deverá ser derrubado em nome dos novos “bons costumes”. A irracionalidade e a contradição são elementos intrínsecos de movimentos cuja mobilização parte da suposta hegemonia de interesses narcíseos, tal como a extrema direita e o identitarismo neoliberal com pretensos “ares de vanguarda”.   

Ao mesmo tempo em que o terraplanismo ideológico distorce uma visão de mundo mais humanitária, ele contribui para incrementar a ideologia do capital, por sinal, cada vez mais forte, hegemônica e irrefreável. Quase todas as formas de crítica, colocadas no balcão do debate público, não deslumbram o destronamento ou, sequer, o questionamento do capital, mas sim fantasiam formas mais ou menos exóticas para incrementá-lo, nas diferentes sociabilidades e quadros econômicos. A pandemia que causou a maior crise sanitária de todos os tempos, apenas deixou escancarado um mundo cada vez mais desequilibrado economicamente, desguarnecido de alternativas, com a falência sintomática da crítica social e com populações inteiras ajoelhadas e subjugadas pelo martírio do capital à espera do tilintar da própria sorte.

A REAL AMEAÇA À SOBERANIA E À DEMOCRACIA BRASILEIRA: TRÊS VAGABUNDOS EM BUSCA DO PLANALTO

  É assustador que, diante de um processo eleitoral tão tétrico, haja tanta passividade na sociedade brasileira. Cada vez mais, a qualidade ...