terça-feira, 15 de novembro de 2011

USP e Polícia Militar: Entre a histeria e o populismo acadêmico







1.    Ares do populismo acadêmico.

O fenômeno do “populismo", em linhas bem gerais, consistiu num termo utilizado para o movimento político que surgiu com a urbanização e industrialização no Brasil a partir dos anos 1930, e teve a figura de Getúlio Vargas como o maior expoente desta natureza no país. O populismo é calcado em promessas de um líder carismático, desvencilhado do partidarismo ou corporações e que procurou criar um vínculo emocional e empatia com as classes médias, e também as classes famélicas e carentes em troca de apoio político e legitimidade para assumir um dado governo ou garantir plenos poderes. O termo está longe de ter um consenso, e ademais, o populismo também se alastrou pela América Latina com variados espectros do posicionamento ideológico que vai da direita até a esquerda, dependendo do momento particularmente histórico.

No clamor dos fatos e do deserto que se transformou o olhar crítico da realidade, o populismo ainda resiste ao tempo e opera de diversas formas. Ultimamente reacendeu sua vulgata menos explícita: o populismo acadêmico. De um ponto de vista da constituição da Esquerda e das possibilidades de ser reinventada como real alternativa ao neoliberalismo, atualmente, praticar o populismo acadêmico parece ser mais fácil e, paradoxalmente, permite dar margem ao rolo compressor aos donos do poder do momento. Difícil realmente é propor saídas factíveis que possam renovar o pensamento de Esquerda como projeto viável para as graves complexidades do mundo sem recair nos bolores de um esquerdismo de boutique infantilizado e fossilizado. Entre o discurso histérico, birrento e midiático, assistimos ultimamente a uma enxurrada de chavões e bobagens desconexas.

 


2.    A soberba de Pilatos

Voltemos ao caso da polêmica uspiana do momento. A cidade universitária da Universidade de São Paulo (USP), situada no campus do Butantã, zona oeste de São Paulo, é um caso singular pela sua grande dimensão territorial e dinâmica interna com seus institutos e faculdades e milhares de alunos, professores e funcionários. A USP tem um orçamento anual em torno de R$ 2,8 bilhões de reais, parcela de 5,02% do ICMS de São Paulo, maior do que a soma das outras duas universidades estaduais UNESP e UNICAMP e mais que o dobro do que muitas cidades que são capitais de Estado, por exemplo, a cidade de Aracaju, capital do Estado de Sergipe, que tem um orçamento anual em torno de R$ 1 bilhão de reais. Com o tempo, devido as suas grandes dimensões, a cidade universitária tem tido problemas como qualquer outro aglomerado urbano, como é o caso da violência banal e cotidiana dentro do campus. E por meio de um estatuto que vigora deste o tempo da ditadura militar (1964-1985), não é permitido que a polícia atue dentro do seu campus. Entre discutir se ainda é um avanço ou retrocesso a manutenção desta regulamentação, é importante refletir a realidade do mundo atual. Fazer a crítica sobre a atuação da polícia militar no episódio da invasão de alguns alunos à reitoria se faz necessário. Apesar de gozar de um orçamento gigantesco, parece que o mais difícil para a universidade, propor políticas efetivas de segurança pública para seu interior. A crítica que se faz não é pelo tamanho do orçamento, sempre necessário para sua importância, mas o estranhamento de suas várias omissões perante muitos fatos. A falta de transparência e democracia interna na USP é tão verdadeira que reflete na escolha indireta dos diretores de institutos e faculdades e da própria figura do reitor. As demais universidades públicas seguem a mesma ladeira da burocracia e do engessamento universitário.

Outra questão que é “cara” dentro dos pilares universitários é a omissão sobre circulação de drogas. Sempre tratadas com vistas grossas ou simplesmente um assunto insignificante, tolerante ou “temática reacionária”. Dentro de tantas retóricas que pairam dos debates universitários, muitas vezes tão estéreis quanto esperar germinar sementes no deserto do Saara, uma delas é deixar o narcotráfico adentrar em suas estruturas e tudo ser tratada como “uma coisa menor”. Além do sorvedouro de drogas ilícitas, é muito usual (praticamente obrigatório!) que as festas sejam regadas com muito álcool e nas várias “baladas” pueris patrocinadas pelos alunos dentro do campus. Tudo dentro da mais cândida normalidade! Claro, que quem se aventura a adentrar na crítica deste submundo acadêmico corre o risco de ser literalmente apedrejado pelos “heróis da resistência” com coloração infanto-esquerdóide. Longe de fazer um discurso moralista, a questão é que tipo de “socialização” se faz dentro do espaço público universitário: “beber, cair e levantar”? Novamente, a universidade finge que nada ocorre e sequer uma campanha de conscientização mais efetiva para os mais jovens sobre álcool e drogas é realizado em seu campus, ou seja, se “naturalizou” a embriaguez social.

Na estética da violência, politicamente foi um desgaste desnecessário o deslocamento da Tropa de Choque da Polícia Militar para o campus, independente de se apoiar ou não a invasão atabalhoada de alguns alunos na reitoria da universidade. Sendo assim, apesar do tom oficial de que a polícia estivesse “cumprindo o seu dever”, notou-se num exagero policialesco que apenas alimentou o lado tragicômico do “revolucionarismo de boutique”. Por outro lado, somente a cegueira infanto-esquerdóide não percebeu o desgaste que deu para universidade perante a opinião pública com cenas bisonhas e surreais de alunos encapuzados praticando vandalismo explícito no patrimônio público da universidade e, não-raro, com mensagens sugestivas e irresponsáveis sobre propaganda de drogas. É bom salientar, que para muitos que adentram na festa do “oba-oba”, é bem mais importante a preocupação com uma “messiânica revolução” do que com o resto da sociedade. Pouco adianta dizer que foi “culpa das imagens feitas pela imprensa”, mesmo porque quem conhece os intestinos do tal “movimento estudantil” sabe que infelizmente muitas de suas ações são movidas a politicagem parasitária. Aliás, como qualquer outra organização refém da lobotomia política e sujeitas a erros e acertos, desentendimentos e fracionamentos. É fundamental a defesa da universidade pública, gratuita e incorporada de qualidade. Todavia os excessos e desvirtuamento desta proposta se tornam de difícil sustentação.

No episódio da invasão da reitoria da USP, a crítica não se manifestou claramente pela defesa da liberdade de expressão e do ensino público, mas de uma suposta “liberdade” que alguns acreditam ter diante do gozo de privilégios. É importante salientar, que diante das cenas patéticas do teatro da invasão da reitoria, se houve excessos da polícia contra os "infanto-revolucionários", ou seja, os mais novos “presos políticos” do país, tem que ser apurado com rigor como qualquer excesso da força pública. Por outro lado torna quase risível é inverossímil o discurso acalorado e populista do “retorno da ditadura" e o "viva os presos políticos!" cujas argumentações beiram a infantilidade, oportunismo político ou a simples má-fé. Na comédia dos erros uspianos, o saldo é negativo para todos os lados e igualmente toda a sociedade perde com cenas deprimentes, midiáticas e desnecessárias.

A bacia de Pôncio Pilatos não cabe dentro de uma universidade que se vangloria de ser a vanguarda do conhecimento. Reiterando, ninguém em sã consciência quer uma polícia fascistóide, agressiva, despreparada e truculenta, mas não basta fechar os olhos para as questões gritantes da sociedade. Dito de outra maneira, é muito cômodo posar de “pobre coitado” pequeno-burguês, uma “vítima do sistema” desfilando com roupas de grife. Difícil é passar mais de duas horas de translado em transporte público superlotado com exíguos recursos econômicos nos bolsos. Pior ainda é gerar uma antipatia generalizada perante a opinião pública com reivindicações que não refletem o momento histórico e não primam pelo bom senso. Nem tudo que reluz é realmente o que parece ser...

 


3.    O dúbio discurso.

A questão que se torna pertinente é se a sociedade quer realmente uma polícia honesta e eficiente. O país do jeitinho brasileiro, da “carteirada” (bem ao estilo: “Você sabe com quem está falando?”), jovens que se aproveitam da condição de “universitários” para burlar regras e permanecerem impunes, as típicas rodinhas entre amigos que puxam sorridentes um “inocente baseadinho” ou perfilam uma “carreirinha social”, sem falar das mazelas da classe política e do banditismo dos alcoólatras ao volante que ajudaram a matar quase 40 mil brasileiros no asfalto somente no ano de 2010. A lista é extensa e igualmente bárbara. A democracia brasileira parece estar mais fadada a ser um amontoado de favorecimentos que apenas nutrem privilégios setoriais e classistas de distinta natureza. Enquanto corre o discurso da falácia democrática, surge a pergunta inevitável: quem quer perder privilégios oportunistas? Enquanto a retórica da “volta da ditadura” vigora na cabeça de alguns saudosistas, é importante lembrar que um novo modelo de segurança pública é tão importante quanto novos modelos para as demais áreas da vida social. É fácil tecer criticas do alto do Olimpo, o difícil mesmo é propor soluções para a vida terrena. Infelizmente, o que se vê é um deserto de retóricas rocambolescas que pouco colabora em subsídios para construir minimamente modelos alternativos.

A patológica crise na Educação,em particular na Educação Básica, assim como em todos os setores sociais, é severamente preocupante e vem sendo tratada como uma "coisa menor" pelas políticas mercantis neoliberais. Todavia, tratar segurança pública como apenas "coisa da ditadura" é ficar preso ao retrovisor do tempo sem buscar alternativas para a violência cotidiana que muito em parte é gerada pelo tráfico de drogas (tão amplamente defendido pelos seus adeptos com grande número de consumidores e simpatizantes universitários que o faz em espaço público).

Falar em autonomia universitária é fácil, difícil é fazer com que algumas universidades desçam do cômodo pedestal com seus debates estéreis e se misturarem com a realidade. Se a USP é exemplar com seus centros de excelência, também é exemplar com seus muros, sua burocracia e ares de Olimpo. Fácil é desfilar pelo campus com seus carros e carrões. E se alguma coisa acontecer ao patrimônio material, os mesmos que não querem nenhum tipo de segurança pública no campus vão querer imediatamente a intervenção da Presidência da República! (E ai se a polícia não solucionar o problema!...)

Quem disse que alguns iluminados do “movimento estudantil” são os detentores do monopólio da vanguarda e da razão suprema por serem simplesmente “jovens universitários”? E quem disse que temos uma polícia totalmente preparada para atender a população sem excessos, sem agressividade gratuita e com dignidade? É preciso avançar em busca de soluções e a autocrítica merece sempre ser motivo de consideração. Ademais, preocupante ainda é a própria universidade recorrer a velhos hábitos e não buscar propor modelos alternativos para problemas que estão debaixo do seu nariz. Nunca é demais dizer que se alguns sectários do movimento estudantil com suas prosopopéias iluminadas querem mimetizar alguma coisa mais substancial, que se inspirem nas reivindicações dos estudantes chilenos e ingleses que há semanas vem brigando por melhores condições na Educação nos seus respectivos países. A oxigenação é sempre muito importante para o corpo e a mente. As lutas sociais não podem ser banalizadas e merecem ser respeitadas com causas mais dignas, nobres e sem ficar choramingando privilégios irreais. Cabe ainda à universidade desvencilhar-se da política do avestruz, destronar Pilatos e o populismo imediatista e refletir seu papel e sua contribuição perante a sociedade.

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Muita fumaça e pouca realidade

(Cena surreal: Na foto, alunos encapuzados montando barricadas nas aproximidades do prédio da FFLCH. Tudo em nome da maconha?. - 27.out.2011. Fonte: Folha)

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Notícias da imprensa destacam que nesta última noite, 27 de outubro, ao menos cem estudantes ocuparam o prédio da administração da FFLCH (Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas) da USP (Universidade de São Paulo), após confronto com a polícia. Interessante notar que nossos “bravos” colegas uspianos, alguns estranhamente encapuzados, que participaram do protesto e quebradeira do patrimônio público tinham como objetivo defender três colegas que foram pegos pela Polícia Militar no campus da USP fumando maconha. Coisas típicas da adolescência tardia com carteirinha universitária e livre acesso a drogas em nome de uma suposta auto-afirmação existencial. Ademais, a solidariedade estudantil expandiu o ato para  um “repúdio” da presença da Polícia Militar dentro do campus. Algo bem surreal para a sociologia da vitimização que tomou conta de muito dos atuais debates a respeito da sociedade contemporânea.



O que vale lá, nao vale cá.

Para quem conhecem bem o paraíso livre do consumo de entorpecentes da USP, isto não causa menor surpresa. Curiosamente, muitos alunos que pregam a “igualdade democrática”, não aceitam que as leis da sociedade se apliquem ao paraíso do campus. Alunos consumindo maconha livremente e o bendito cheiro do mato queimado ecoando livremente pelos prédios, corredores e áreas arborizadas. Tudo de forma permissivamente impune numa suposta "vanguarda da modernidade” constituinte de um religioso uso de drogas com tatuagens adornando o corpo com metais anexos. O modelito perfeito para o kit-acadêmico pós-moderno!


Longe da estética "fashion", fato pertinente são os centros acadêmicos (CA) que em tese deveriam zelar para defender os direitos dos alunos e da universidade. Porém suas áreas são impregnadas pelo cheiro e a livre circulação de drogas. No início dos anos 2000, período de minha gestão como diretor do Centro Acadêmico do Instituto de Física da USP (CEFISMA) era muito comum encontrar os alunos deitados nos sofás e fumando idilicamente no recinto fechado do CA. Na época, então diretores do CEFISMA, tentamos proibir (ou melhor, "minimizar") o fumo herbáceo dentro do espaço do nosso centro acadêmico, porém foi muito difícil “educar” um espaço onde um número significativo de alunos acham que suas vaidades pessoais eram mais importantes que os interesses coletivos. Vale ressaltar sobre a estranha dialética dos defensores de drogas. Qualquer coercitiva medida desta natureza era considerada “totalitária”, principalmente para os saudosistas de algum golpe militar latino-americano. De lá para cá, naturalmente, as coisas evoluíram tanto quanto o deslocamento da Lua sobre a Terra.


É importante destacar que não se trata de fazer policiamento dos atos privados de alunos. Mas ao utilizar o espaço público com um fumódromo de drogas à revelia ocorre numa imposição e constrangimento da vontade juvenil de uma minoria sobre o restante e maioritário número de não-usuários. Infelizmente, muitos dos que fazem um ácido discurso contra as “tiranias da direita” são os mesmos que impõem suas vontades de consumirem drogas e, por conseqüência, contribuirem diretamente para alimentar os tentáculos do narcotráfico.



Fora de contexto.

Se utilizar drogas nos anos 1960 e 1970 tinha um significado simbólico e mistificador de “transgressor” e “libertário”, hoje é importante destacar que não faz mais eco e algum sentido tal simbologia. Sem cair no debate do juízo de valor, independente de muitas vontades pessoais, o mundo muda padrões, ideologias e culturas ao longo do tempo. A questão das drogas se tornou parâmetro de duas esferas correlacionadas à saúde pública e também à questão de segurança pública. A suposta ingenuidade de um simples cigarrinho de maconha esconde toda uma indústria do crime globalizada onde impera a criminalidade, assassinatos e corrupção político-policial. O discursinho simplório da liberação de drogas é muito bonitinho e conveniente para os moradores da fina-flor da burguesia que podem pagar perdulários tratamentos de desintoxicação para seus mimados filhotes consumidores. Para o restante da população, em especial nas periferias dos grandes centros urbanos e cidades do interior, uma horda de usuários vivem perambulando pelas ruas como zumbis e que fazem qualquer coisa em troca de alguma pedra de crack ou um cigarrinho de marijuana. Pequenos assaltos, delitos e prostituição são também tentáculos de uma mesma cadeia da indústria das drogas (ilícitas ou não).


O que realmente causa repúdio é a cínica dialética entre querer que uma Polícia Militar paga com o erário público defenda os belos carrões que desfilam cotidianamente na USP, mas sem que isto interfira no tráfico de entorpecentes instalados no campus. No vazio psicanalítico das utopias presentes na Pós-Modernidade, qualquer transgressão se torna motivo atávico de produzir uma falsa guerrilha. O que se vê são as pérolas de alguns alunos que acham contribuir para a sociedade em nome da sua mais plena e arrogante causa narcisíca. Neste ínterim, ultimamente assistimos a privatização dos protestos narcísicos com um leque de supostas reivindicações que beiram o surrealismo. No caso dos protestos em favor das drogas, as redes de criminosos como o PCC e suas divisões agradecem aos fiéis e “esclarecidos” consumidores por lutarem pela resistência do impressionante e bilionário mercado de entorpecentes.



O blablablá de um falso debate.

Do outro lado do pseudo-debate, curiosamente quando a Política Militar arrebenta jovens pobres da periferia, a classe média paulistana com um sorriso fascistóide aplaude com fervor e pede mais punição severa aos “bandidos”. Todavia, quando jovens bem nutridos e muito bem vestidos com verniz universitária e uma grife da USP ou de alguma das co-irmãs estaduais são incomodados do deleite herbáceo, o caso toma uma dimensão para além dos muros universitários. Aliás, os muros da hipócrita conveniência que protegem justamente esta minoria de consumidores.


Na prática, temos de fato muita fumaça para pouca realidade. A retórica do debate das drogas se reduz ao sensacionalista do que uma discussão mais sincera. Naturalmente, é mais fácil fazer belos e eruditos discursos acadêmicos com verniz pseudo-esquerdista em favor dos vitimados usuários do que discutir seriamente e sem falsas retóricas sobre causas e conseqüências da questão das drogas no Brasil. Se por um lado, o usuário de entorpecentes é supostamente uma vitima, de outro lado, igualmentemente vítima é o não-usuário. A sociedade brasileira, em particular, o povo de São Paulo, merece muito mais respeito com o dinheiro público que investe na educação superior e onde uma minoria acredita que o espaço da coisa pública é extensão da bancada do quarto para puxar uma fileirinha ou acender uma erva danada. 


Tantas são as questões a serem trabalhadas e refletidas para uma sociedade mais digna, justa e igualitária. Precisamos debater e contribuir com outros paradigmas para o mundo e não ficar puxando fumo em questões viciadas, irrelevantes e estéreis para a sociedade. A universidade pública historicamente deverá seguir com seu compromisso com a sociedade no que se refere a produção e socialização do conhecimento, a formação e o desenvolvimento do país.

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

“Roubado é mais gostoso”: Itaquera e a Copa dos Bons Amigos










(Passageiros na plataforma da Estação Corinthians-Itaquera aguardando embarque no metrô e ao fundo as instalações do futuro estádio da Odebrecht. Foto do autor.)



1.    A farra com o erário

O espetáculo perdulário da promoção da Copa do Mundo no Brasil beira a completa barbárie. Na última quinta-feira, 20 de outubro, uma verdadeira carreata do oportunismo político ocupou o terreno baldio ao lado da Estação Itaquera do metrô. Como se fosse para bater uma “pelada” a “rapaziada” se animou tanto que inclusive estava presente o ex-craque do futebol nacional, o neocorintiano Ronaldo Nazário, que é o atual fenômeno dos bastidores da publicidade esportiva e contratos obscuros. Talvez faltasse um colorido mais popular a confraternização tais umas cervejinhas, além da carne de felino para queimar no carvão. Sem uma batucada mais estridente, o principal motivo da Copa em São Paulo já tinha sido acertado bem antecipadamente: se não deu pagode, dará muito lucro aos seus organizadores.

A várzea é aqui. A caravana foi politiqueiramente grande: a cúpula dirigente do clube do Corinthians acompanhada do tucano governador Alckmin, “apartidário” o prefeito Gilberto Kassab, representantes do Ministério dos Esportes, órgão mergulhado em denúncias de corrupção, além das mãos da parceria siamesa, Confederação Brasileira de Futebol (CBF) e Fédération Internationale de Football Association (FIFA). Muitos “companheiros” vieram ao bairro de Itaquera para representar a oficialização do teatro a respeito da “abertura” da Copa em São Paulo. Sem maiores cerimônias, o circo do terreno baldio se fez presente: gargalhadas de rapina, abraços, afagos, elogios acéfalos, ufanismo patético e cerca de um bilhão de reais do dinheiro público em jogo nas mãos da tal “iniciativa privada”.

Ironicamente, bem do lado da estação Itaquera, num terreno mais abaixo, estão alojadas temporariamente as instalações de um circo. Sim, literalmente um circo, o “Circo Moscou”, mas sem as invejáveis atrações governamentais presentes acima, no terreno baldio da prefeitura doado para a construtora Odebrecht fabricar o tal estádio. No capitalismo parasitário dos bons amigos, doação de dinheiro público tem o singelo rótulo de “investimento”. E quem paga a conta de tanta rapina amizade?

Futebol é apenas um esporte, independente das paixões envolvendo sua cultura. Todavia, os interesses coletivos básicos da população não deveriam estar acima dos interesses político-econômicos privados? Redondo e cristalino engano! Importante salientar e pontuar a disparidade dos projetos de megaeventos de verniz turístico-eleitoreiro. Há poucos metros do futuro estádio da Odebrecht onde foi feito a celebração da farra com o erário, há uma ocupação localizadas nas terras que margeiam um córrego localizado na saída do Metrô Itaquera. Um pontual exemplo da carência estrutural que vive o bairro e esta observação merece maior desdobramento.



2.    Itaquera sem mistificação

Com uma população de cerca de 530 mil habitantes, formada por classes C e D, dados da subprefeitura de Itaquera, que compreende Cidade Líder, Itaquera, José Bonifácio e Parque do Carmo. Itaquera não tem a “gente diferenciada” da esterilizada Higienópolis e este bairro da Zona Leste e se limita apenas a ser mais um bairro-dormitório de classe trabalhadora como muitos outros da periferia paulistana. Entre os aeroportos de Cumbica, em Guarulhos, e Afonso Penna, em Curitiba, não leva mais do que quarenta e cinco minutos de vôo, comparativamente a distância entre Itaquera até a região central da cidade de São Paulo é realizada em tediosas e exaustivas viagens que levam no mínimo uma hora de relógio (isto é, sem chuvas torrenciais), seja no trânsito engarrafado, seja no metrô superlotado. E quando chove, áreas de alagamento e bolsões de pobreza endêmica expõem a condição de carência crônica do bairro.

O terminal de ônibus localizado nas imediações do metro batizado oficialmente de “Estação Corinthians-Itaquera”, na verdade um complexo de transporte contendo metrôs, trens e ônibus e taxis. Após banir uma onda de camelôs que ocupava a estação, a administração do metro loteou a área em pequenas lojas de alvenaria e que aprofundou a canibalização comercial por pontos de vendas e degenerando qualquer suporte para ter uma boa logística de transporte para todos aqueles que chegam de metrô e precisam pegar ônibus e vans, ou vice-versa. Trocando em miúdos, com a concorrência do comércio local, o terminal de ônibus é uma preocupação secundária e os usuários são espremidos de forma humilhante e constrangedora entre as tendas comerciais e os ônibus e vans da SPTRANS, companhia da prefeitura que finge regular e fiscalizar o transporte público em São Paulo. Salvo os usuários que tem que utilizar pontos de ônibus que não tem cobertura sendo um transtorno adicional em períodos de chuva. O sofrimento do usuário é garantido com passagens a três reais para girar a catraca do ônibus e dois reais e noventa centavos para girar a catraca do metrô. Quem tiver o “bilhete único” consegue algum descontinho na empreitada. Os horários de pico é o verdadeiro Inferno de Dante para os usuários. Os gigantescos deslocamentos diários da população itaquerense até os locais de trabalho localizados nas regiões centrais da cidade forma um quadro macroscópico do descompasso pendular entre o mundo da vida privada e o mundo do trabalho.

Para completar a paisagem das imediações do futurístico estádio que representará São Paulo na Copa do Mundo, após anos de indiferença do Poder Público, muitas famílias em situação de precariedade vêm se aglomerando e inflando uma favela nas imediações do terreno presente nas saídas do metro de Itaquera, na direção centro-bairro. Aliás, como se diz no jargão eufemístico do cínico politicamente correto neoliberal, entre um córrego transformado em esgoto a céu aberto, ratos, insetos e misérias infindáveis, muitas famílias em situação de precariedade vem se consolidando numa “comunidade”. 

Ademais, a região de Itaquera, entre outras carências, sofre com o déficit de hospitais públicos. O hospital de referência da região é o superlotado “Santa Marcelina” e sempre envolto com crises sucessivas no atendimento da imensa população que carece passar pelo Sistema Único de Saúde (SUS).

Refletindo a retórica governamental sobre meio ambiente, vale à pena comentar mais um pequeno episódico detalhe de como o bairro de Itaquera é tratado pelo Poder Público. Após a desativação da antiga estação ferroviária de Itaquera, localizada no eixo centro do bairro, no início do ano, uma praça foi instalada em seu lugar. Cabe ressaltar que neste caso, o termo “praça” ou “parque” não passa de um sórdido termo eufemístico. Na realidade, se trata de uma área bisonhamente concretada, sem nenhuma preocupação paisagística, mal iluminada e com algumas pontuais e decorativas árvores solitárias. A tal “praça” ou “parque” é um lugar bizarro, precário e desalentador que mais se parece um cemitério de concreto para sedimentar lixo nuclear no coração de Itaquera. Naturalmente, é perceptível o tratamento diferenciado pelo Poder Público paulista nas diversos bairros de distintas economias locais da cidade de São Paulo. A administração do prefeito Kassab, vem se notabilizando em criar precários parques na cidade como os tais “parques lineares” que vem se espalhando pela zona leste da cidade. Em suma, uma verdadeira orquestração regida pela estupidez e o menosprezo com a população.




3.    Futebol como retórica e o preço da Copa

A cidade de São Paulo não precisa de mais estádios de futebol. De fato, carece de investimentos em infra-estrutura e organização para comportar eventos desta natureza. A questão da moradia popular é gritante e urge uma real política urbanística de ocupação do espaço público numa metrópole como São Paulo. Antes da vã euforia dos bajuladores do imediatismo irresponsável, não existe nenhuma correlação entre criar um estádio e desenvolvimento local sustentado. Aliás, o que vem se sustentando por todo o país é uma série de estádios de futebol com orçamentos superfaturados em nome da “Copa do Mundo”. Quase todos sem a menor coesão com a realidade local e que receberão seus respectivos  estádios. Tal como os novos que nasceram como velhos estádios, verdadeiros “elefantes brancos”, erguidos pela África do Sul que sediou o a Copa do Mundo de 2010, o estádio itaquerense da Odebrecht é um grande celeiro de desperdício bilionário de dinheiro público. Um exemplo de como o Poder Público relega os cidadãos a último plano e onde o poder econômico é a moeda de troca dos sórdidos interesses imediatistas, de várias estirpes: pessoais, políticos e econômicos.

Antes que um iludido torcedor do time do Parque São Jorge se exalte e reverbere toda sua artilharia psicanalítica típica de que todos estão contra o seu "Timão”, é fundamental entender que o estádio oficialmente será da construtora e com administração compartilhada com o Sport Club Corinthians Paulista. De concreto mesmo é a doação de verbas públicas na construção de um estádio numa área sem infra-estrutura para um evento deste porte, exceto pela miragem publicitária do sucateado metrô. Somente com muito ufanismo e ilusão que o Poder Público poderá transformar o carente bairro de Itaquera com uma propagandeada logística de “Primeiro Mundo” num tempo hábil que possa abrigar razoavelmente os jogos em meados de 2014.

Para os que vivem no bairro, os sinais são claros que absolutamente nada de concreto é (ou será) feito na região. Como o capitalismo age como abutres na carne deteriorada, o que se tem observado na prática é uma absurda corrida especulativa para construção de imóveis domiciliares. Prédios de apartamentos com áreas diminutas e com preços exorbitantes para o padrão de renda da população, além de um acentuado aumento dos aluguéis, o que possivelmente empurrarão mais pessoas para o bairro e afastarão outras de menor poder aquisitivo para regiões anexa a Itaquera. Resultado previsível: o que estava complicado tenderá a se agravar com maior inchaço populacional e na exígua infra-estrutura do bairro de Itaquera.

Vale como um salutar exemplo da fantástica máquina da corrupção e da demagogia política. Itaquera se transforma numa grande farsa dos bons amigos da Copa do Mundo. Na esteira da absoluta conivência das mazelas e corrupção desenfreada dos contratos, o futebol e a população são de longe as menores preocupações dos seus organizadores. O importante é aproveitar ao máximo a superboquinha que o evento trará aos irrequietos dedos e tentáculos da corrupção endêmica no Brasil e do capital externo. Como é possível que Ricardo Teixeira, o imperador perpétuo de uma entidade com a CBF, passe impune a todas as acusações de corrupção e continuar sendo intacto o principal gerente da organização brasileira da Copa de 2014? Por sua vez, até um patético “comunista” ministro dos esportes do Governo Federal é bombardeado por denuncias de corrupção é continua sendo mantido no cargo e tudo se passa como se nada tivesse acontecido. Seria mera coincidência o estreito e estranho laço entre o presidente do Corinthians, Andrés Sanches, chefe da delegação da Seleção Brasileira na Copa de 2010, e Ricardo Teixeira? Até mesmo, o técnico Mano Menezes, que saiu da direção do time do Parque São Jorge com apenas um título expressivo para clube corintiano e subitamente virou o atual técnico da Seleção Brasileira. Amizades tão frutíferas que o clube sempre lembrado por “não ter estádio”, caiu no colo do seu presidente Sanchez um estádio novinho em folha sem tirar um tostão dos cofres corintianos. Mera coincidência futebolística?

Diante do espetáculo de cinismo e corrupção, o que qualquer habitante de Itaquera realmente pressente é uma velha máxima que muitos torcedores do time do Parque São Jorge gostam de recitar provocando seus adversários quando o juiz tem um papel bem conveniente para o clube numa partida de futebol: “Roubado é mais gostoso!”.

domingo, 18 de setembro de 2011

O deserto de Itaquera


(clique na imagem para ampliar, foto do autor do blog em 17.09.2011)

Faltando menos de mil dias do início da Copa do Mundo no Brasil, o suposto estádio que abrirá o evento se encontra representado na foto acima. O marco contador soa no mínimo patético e para não dizer uma afronta ao contribuinte.

Em pleno deserto e turbinado com um bilionário investimento de dinheiro público a ser derretido no "Itaquerão" que na pratica apenas beneficia de imediato a construtora transnacional Odebrecht, sempre presente na participação ativa de doações em campanhas eleitorais no Brasil e, em segundo plano, o clube do Corinthians.

Quando futebol e política se misturam no mesmo gramado, o resultado é a face mais vil da corrupção à brasileira.

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Diálogo com Zygmunt Bauman

Vale a pena assistir o ótimo e pertinente diálogo do sociólogo Zygmunt Bauman concedido em 23 de julho de 2011 para uma equipe conjunta da "CPFL Cultura" e do "Seminário Fronteiras do Pensamento". A questão da Pós-Modernidade é o tema central da conversa de Bauman realizada em sua residência, na cidade de Leeds, Inglaterra.

Veja o diálogo completo apresentado abaixo:



Entrevista exclusiva: Zygmunt Bauman from cpfl cultura on Vimeo.




Fonte: http://www.cpflcultura.com.br/site/2011/08/16/dialogos-com-zygmunt-bauman/

quinta-feira, 28 de julho de 2011

Um Jogo Histórico



1. Um registro histórico.

Não foi final de campeonato, mas mereceria ser condecorado com um troféu. Independente da condição apaixonada da preferência do leitor por algum clube, a noite de 27 de julho merece ser lembrada no mundo do futebol devido a uma exibição histórica de duas grandes agremiações dos gramados brasileiros. Relembrando a nostálgica saga das eras de ouro do rubro-negro Zico e do santista Pelé, lendários em suas respectivas épocas e clubes, Flamengo e Santos deixaram mais um indelével registro.

Em plena Vila Belmiro, o invicto time da Gávea venceu numa surpreendente virada o robusto Santos com o placar memorável de 5 a 4, em partida constituinte da décima segunda rodada do Campeonato Brasileiro. No mundo do futebol, os registros jornalísticos, em geral, são correntezas de chavões e lugares-comuns, mas se as palavras que não brilham pela singularidade literária, também não refletem toda a “mágica” de uma partida que empolga e emociona os apreciadores do futebol. O estádio que acolheu a presença de Flamengo e Santos não presenciou nenhuma final de campeonato, não valeu título e tampouco alguma taça, mas foi premiado com digna e bela exibição de um bom futebol. Um esporte de tal dimensão que ultrapassa a mera prática futebolística e percorre um caminho de subjetividade inseridas numa cesta de variedades como paixão, espetáculo e tradição cultural.



2. Um jogo magistral.

Nove gols e ainda poderia render mais se fossem consideradas as chances desperdiçadas em ambos os times. Um jogo aberto de francos atiradores em prol de inflar as redes, algo que há muito não se assistia num Campeonato Brasileiro de sonolentas partidas (o mesmo acontece atualmente nos soníferos jogos da Seleção Brasileira).

Com time santista estava completo. Com Neymar, Ganso, Elano que voltava da Seleção Brasileira e demais companheiros corriam leves e soltos no seu gramado. Antes dos 30 minutos iniciais de jogo, o Flamengo chegou a estar perdendo com um atípico, imbatível e desalentador placar de 3 a 0. Após o baque, como se estivesse magnetizado pela aguerrida “aura” rubro-negra, persistente e com vocação atuante em buscar a todo o momento não esmorecer, o Flamengo precisou jogar muito além que o seu adversário. Páreo duro! Até o empate seria bom para o “coroamento” do espetáculo, mas ao término dos noventa minutos prevaleceu à vitória na “raça” do elenco flamenguista orquestrado pelo gol derradeiro de Ronaldinho Gaúcho aos 35 minutos do tempo final. Estava selada a virada histórica!

E por falar nele, Ronaldinho, que vinha tendo atuações modestamente apagadas nos últimos jogos do Flamengo, realizou a sua melhor partida até o momento com o manto rubro-negro ao marcar três gols e protagonizar participação inspirada ao longo do jogo. Não faltaram lembranças dos bons tempos quando ele atuava no espanhol Barcelona e na Seleção Brasileira. Destaque também para ótima presença do santista Neymar com dois grandiosos gols (um deles de raro brilho e técnica) e a pertinente assistência de Thiago Neves do Flamengo, inclusive marcando um gol. Vale mencionar que aos 41 minutos ainda no primeiro tempo e com 3 a 2 para o time da Vila Belmiro, destaca-se ainda o pênalti batido de forma displicente pelo santista Elano com irônica defesa do goleiro Felipe e que poderia selar o desfecho da partida. Nada além de um capricho do futebol e da arrogância pueril dos que se dedicam a praticá-lo.

Gol não é um detalhe, mas é um sintoma do espetáculo. Em época de futebol burocrático, truncado e onde a preocupação é a zona defensiva, um merecido aplauso merece menção. Com técnicos em raros momentos de coragem e abrindo mão das retrancadas táticas, o atual campeão da Copa Libertadores da América, Muricy Ramalho e o rubro-negro Vanderlei Luxemburgo, dignificaram suas participações na partida ao posicionarem seus times de forma alegre, objetiva e ofensiva. Porém, nada além que uma partida de futebol deve (ou deveria) prevalecer dentro de um animado espetáculo.



3. Para além do espetáculo.

Decerto, não há espaço para maiores ilusões no futebol contemporâneo e tampouco é possível ignorar sua importância na sua amplitude sócio-político-cultural. A sina capital do futebol é angustiante: globalizado, despersonalizado quanto à incessante mercantilização de jogadores, atado aos interesses da grande mídia e movido aos bilionários motores da negociata, corrupção desenfreada e especulação financeira. O futebol vai além do esporte e se consolidou como o maior fenômeno de massa e o mais praticado em todos os continentes do globo sob as formas mais distintas e dispares situações qualitativas. Mesmo massacrado pela pulsão desenfreada do capital, o futebol ainda mantêm alguns lampejos de que ainda é capaz de emocionar de forma qualitativa seus espectadores.

Saído de uma lógica presumivelmente materialista, a “mercadoria-futebol” é muito mais que um objeto reificado pelo capitalismo diante das engrenagens da indústria cultural. O “elemento-futebol” se tornou um lugar fundante de uma cultura globalizada e movimenta uma demanda de contingencias. Todavia, é possível verificar que na amplitude do “espetáculo-futebol” que constitui num movimento que emociona, dilacera e reconstrói uma identidade naqueles que de alguma forma são atraídos pelo encanto de uma dualidade entre a simplicidade de como o jogo é praticado e a carga energética oriunda em cada lance empolgante ou gol marcado.

Na vibração no campo, na audição do rádio, no fluxo de bytes da internet ou no monitor de alguma solitária televisão, sozinho ou em grupo, no cerne do “elemento-futebol” é possível perceber também uma “autorização” para a “descarga energética” das tensões do fragmentar cotidiano de um indivíduo (em linguagem psicanalítica, o espetáculo do futebol é um lugar “autorizado” para o gozo). Neste ínterim, na noite de quarta-feira, para os torcedores mais ávidos, o jogo memorável entre Flamengo e Santos é um destes “lugares” onde funde a amálgama que se encontra a emoção arrebatadora de uma partida de futebol e a identificação ressaltada para além de “torcer por um time” (na condição particular de um “time-nação”). Naturalmente, aqui não cabe fazer uma alegoria reducionista, mas somente observar a grande magnitude que condensa dentro de um espetáculo que desperta o desejo de multidões.

A realidade que escapa é a realidade que consome. Imerso na corrupção engendrada pela administração de Ricardo Teixeira em seu reinado sombrio diante da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) e às vésperas de sediar uma Copa do Mundo, o Brasil precisa (e deve) resgatar o meu melhor e primoroso futebol dentro de campo e além das “quatro-linhas” deverá se preocupar na realização de uma verdadeira faxina na “caixa-preta” da administração dos clubes e das entidades que organiza o esporte. Na democracia de representação simbólica e regida pela batuta do capital, futebol e política se tornaram irmãs siamesas tão explosivas quando devastadoras.

Longe de fazer menção de uma política do “pão-e-circo” e das praticas nefastas da corrupção endêmica, mas refletindo o futebol como uma contribuição cultural, o jogo desta noite entre Flamengo e Santos merece um registro especial. Uma partida para o resgate do bom futebol brasileiro que remete às suas épocas áureas. Com o sabor de um “mais querer” nostálgico ainda latejante pela partida, cabe aqui um desejo que melhor seria para o bem do futebol que a magia ainda gotejante nos gramados contagiasse o imobilismo popular nas ruas e avenidas exigindo uma maior transparência e dignidade na administração de uma atividade cultural tão cortejada e reverenciada. Notoriamente, a corrupção na administração no futebol é apenas mais uma necrose atávica da longa lista de mazelas que assolam a sociedade brasileira.

Num mundo engessado pelos desmandos impunes dos senhores feudais dos clubes e entidades esportivas com total conivência do Poder Público, toda esperança de mudança deste nefasto cenário está longe de ver a cor da bola e segue sufocada em algum armário de vestiário. Diante da fosca realidade, um jogo como Flamengo e Santos não deverá ser a exceção, mas a regra para que o (bom) futebol possa ser cortejado pela sua magnitude e não pela sua mediocridade efêmera.




Para conferir os gols, assista abaixo:

terça-feira, 26 de julho de 2011

A Retórica do Combate




Apesar do samaritanismo governamental com viés eleitoreiro, os supostos esforços de "combate à miséria" no Brasil se tornou muito mais um bordão politico-demagógico do que uma real a preocupação de realizar o que prometem tais ações. Vale a pena lembrar alguns trechos da entrevista do professor da USP José Eli da Veiga, docente da pós-graduação do Instituto de Relações Internacionais da USP, à FOLHA DE S. PAULO:



FOLHA - O senhor acha que a linha de R$ 70 estabelecida pelo governo para definir miséria é correta?

José Eli da Veiga - Linhas de pobreza --ou de miséria-- não podem ser estabelecidas apenas com definições de níveis de renda monetária. Não creio que os colegas que estão no governo sejam imorais. Mas com certeza chegaram à insuficiente definição dos R$ 70 de renda domiciliar mensal per capita porque foram incumbidos de elaborar um plano factível, que possa ter sucesso em quatro anos.

FOLHA - Qual deveria ser, objetivamente, a linha que define quem é ou não miserável no Brasil?

VEIGA - Nas circunstâncias brasileiras, é miserável quem não tem acesso ao esgotamento sanitário. A rigor, além de tudo que está ligado ao saneamento ambiental e a um mínimo de conforto, duas outras coisas merecem destaque: o acesso a um serviço de saúde que realmente funcione e o acesso a um sistema educacional de qualidade.

FOLHA - Mas o número de domicílios sem esgoto tem diminuído nos últimos anos.

VEIGA - O número de moradias insalubres diminuiu dez pontos percentuais entre 1995 e 2002, e mais cinco entre 2003 e 2008. Mantidos tais níveis de desempenho, a universalização do esgoto com tratamento só ocorreria em 2060. Se o investimento dobrasse e a produtividade aumentasse um terço, essa meta poderia ser atingida em 2024. Seriam necessários quatro governos bem melhores que os de Lula para que a pobreza fosse minimizada.



Fonte: Folha de S. Paulo, 26 de julho de 2011. Disponível em: http://www1.folha.uol.com.br/folha/treinamento/ult76u942646.shtml

A REAL AMEAÇA À SOBERANIA E À DEMOCRACIA BRASILEIRA: TRÊS VAGABUNDOS EM BUSCA DO PLANALTO

  É assustador que, diante de um processo eleitoral tão tétrico, haja tanta passividade na sociedade brasileira. Cada vez mais, a qualidade ...