sábado, 12 de junho de 2010

Almas Secas: A Perpetuação do Genocídio (Parte 2 de 3)



Oh! Deus, perdoe este pobre coitado
Que de joelhos rezou um bocado

Pedindo pra chuva cair sem parar

(“Suplica cearense”, Gordurinha/Nelinho/Luiz Gonzaga)



Sabidamente, a desnutrição, a subalimentação e a fome são elementos de voraz impacto no corpo, seja no âmbito físico, seja nos interstícios psicológicos. A miséria é o monstruoso produto principal da concentração excludente de riquezas. Moradores de zonas de habitação precária, por exemplo, em momentos de destruição causada por desastres ambientais são tratados como indigentes ou párias sociais. Em áreas de violência endêmica como nas favelas que margeiam os grandes centros econômicos, em nome do combate ao narcotráfico, sucedem-se cenas de assassinato de pobres pelo poder de coerção policial com a benção velada do Estado e aplausos disfarçados de segmentos da sociedade mais abastados (uma forma fascista de minimizar a pobreza matando os pobres!). O cataclismo da fome ainda é muito mais latente em zonas esquecidas pelo Poder Público e somente lembrado em período eleitoral, acentuadamente no Norte e Nordeste do Brasil. Aplicar indiscriminadamente políticas de renda mínima (as populares bolsa assistencialistas) sem construir um aporte de recursos que possa criar um circuito auto-sustentável de riquezas materiais e humanas é perpetuar a endemia famélica.

A fome urge e se faz necessária sua eliminação como matriz fundamental de ações do Estado. Privatizar as ações sociais deixando em mãos de ONGs ou empresas similares (geralmente movidas por duvidosos interesses “humanitários”) é covardemente fugir do princípio básico do Estado que é garantir a vida dos seus cidadãos. Pensar o desenvolvimento local é necessariamente criar um conjunto de agregados que privilegie a auto-sustentação dos ambientes de endemia famélica. Políticas de promoção ao emprego e a ampliação de cooperativas de trabalhadores sob a forma de auto-gestão poderão ser usadas como um contraponto a fabrica de espoliação e acumulação capitalista. Calando a veracidade dos intelectuais capitalistas, algumas experiências de cooperativas auto-gestoras mostram a viabilidade real deste sistema.

A política de promoção do ser humano deverá enfaticamente ser sempre a meta de qualquer governo em detrimento da mediocridade atávica gerada pelos favores de campanhas políticas para o grande capital. É muito simples beijar a mão do grande empresário (às vezes, literalmente!), sorrir escancaradamente em luxuosos coquetéis para angariar “fundos de campanha” e preparar planos de governo onde a prioridade é sempre a manutenção da ordem do capital. Apesar da exaustão dos discursos, a fome nunca foi de fato um problema político a ser enfrentado, mas simplesmente é sempre deixada propositadamente de lado. Neste ínterim, Josué de Castro redige: "Mais grave ainda que a fome aguda e total, devido às suas repercussões sociais e econômicas, é o fenômeno da fome crônica ou parcial, que corrói silenciosamente inúmeras populações do mundo".

A brutal desigualdade dos recursos materiais somente não é pior do que a estupidez dos que acreditam que ela é fruto tão natural quanto à fusão permanente de átomos dentro do interior do Sol. Uma sociedade que priva pela competição selvagem somente parirá seu subproduto maior: a cegueira da barbárie. Podemos nos amparar por várias justificativas, porém é inegável o apego à desagregação e o poder de destruição que as sociedades operam no inconsciente social. Muito mais fácil destinar bilhões de dólares à supostas usinas atômicas em nome de “energia limpa” ao invés de investir em estruturas que busquem operar para a dinâmica de trabalho e desenvolvimento local (o caso da construção de usinas nucleares nas terras fluminenses de Angra dos Reis é emblemático).

Para os arautos do desenvolvimentismo às cegas, dirão que a energia é fundamental para a economia, que por sua vez, propicia a criação de riquezas. A pergunta é: quem se beneficia do emprego massivo de recursos públicos destinados a operar dentro das engrenagens da iniciativa privada (seja via direta de investimentos, ou indireta da renúncia fiscal/tributária) em nome santo rótulo do “progresso material”? Se a abundância material é a marca que se projeta do progresso capitalista, qual o motivo da persistência da miséria e da fome? Notadamente, o progresso material na ordem capitalista é profundamente excludente.

Almas Secas: A Perpetuação do Genocídio (Parte 1 de 3)


Estou no cansaço da vida
Estou no descanso da fé

Estou em guerra com a fome

(“Terra, Vida e Esperança”, Jurandir da Feira/Luiz Gonzaga)




A fome é um tema recorrente. Seja pelo desgraçado som das barrigas roncando dos famélicos, seja pelo espetáculo de sordidez hipócrita que como o tema é debatido (e sempre amenizado ou esquecido). Segundo uma estimativa atual da Organização das Nações Unidas (ONU), mais de 920 milhões de pessoas sofrem de fome crônica no mundo. Sem maiores adjetivações, a fome é muito mais que uma particularidade de uma dada região endêmica, mas, sobretudo uma questão profundamente inserida no modo de produção e partilha de riquezas materiais, ideológicas e culturais de uma sociedade.

Para quem vive nos suntuosos escritórios da Avenida Paulista, símbolo lustroso da “locomotiva” paulista, acomodando o farto glúteo em densas poltronas de couro “legítimo”, entre um olho nos índices da BOVESPA e o outro olho em algum catalogo em busca da próxima garota de programa para o descontraído “happy hour”, a fome seria uma coisa de pobre, preto ou nordestino (geralmente um misto destas três derivações!). Claro, é a tal “fome” não passa nem de longe da cabeça de algum agiota financeiro ou um empresário “bem sucedido” no capitalismo à brasileira.

Não seria a ética ascética do trabalho que agracia seu crédulo com beatitude do lucro e leva para debaixo do tapete qualquer excrescência a este processo? Na limitada dimensão do mundo e no alto de imponentes edifícios, a ótica do especulador das finanças do engenho capitalista, a fome e a degradação humana são problemas do “gueto” (leia-se, “aquelas criaturas que ficam pedindo esmola nos faróis da cidade” e ponto final!). Para as classes médias e remediadas, a questão da fome oscila entre a caridade recalcada e a “punição merecida” aos lenientes ao trabalho (logo, riqueza e pobreza é uma questão de meramente de “sorte para os esforçados”!). Para os burocratas formadores de políticas públicas, os chamados “policymakes”, a fome precisa se enquadrar dentro dos padrões orçamentários governamentais. Já para os políticos de amplo espectro partidário, a fome é sempre um mote que angaria um bocado jocoso de votos.

Josué de Castro (1908-1973) se debruçou com maior afinco e destaque no estudo da fome no Brasil. Pernambucano de nascimento, médico e sociólogo, conheceu bem de perto o drama existencial do conceito de fome. A definição para as origens da fome merece o destaque das palavras de Castro: “A fome é, conforme tantas vezes tenho afirmado a expressão biológica de males sociológicos. Está intimamente ligada com as distorções econômicas, a que dei, antes de ninguém, a designação de ‘subdesenvolvimento’”.

É muito mais simples culpar os miseráveis pela sua própria miséria humana do querer discutir os reais fundamentos da desequilibrada distribuição de renda entres os indivíduos vivendo numa mesma sociedade. Há ainda aqueles supostos “especialistas” que tratam do tema como se fosse praticamente “profano” a tal ponto que qualquer tentativa de debatê-lo seria em vão (sempre suscitando uma expressão semelhante ao “muito complexo” compondo a discussão da fome). Para os partidários do “complexismo da fome”, deveria perguntar aos que passam fome qual a sensação dos que não tem absolutamente nada para comer durante horas ou dias (certamente a resposta seria inequívoca!).

Naturalmente, dentro dos teares do que economista austríaco, Karl Polanyi, batizou de “moinho satânico”, o sistema de regulação da natureza capitalista do mercado que possui na sua gênese a ordem imperativa da desagregação social. O que causa certa perplexidade quando alguns pesquisadores buscam justificar o “ambiente caótico” do capitalismo na aproximação de teorias naturais de caos e complexidade (alguns ainda destes “bombeiros intelectuais” têm a insensatez de adornar tais estudos com um rótulo fantástico de “Econofísica”, ou seja, o que seria uma prosaica “Física da Economia”!).

Logo, o que sobra para amenizar os conflitos de classes e não proporcionar maiores empecilhos ao capital (por exemplos, revoltas e revoluções por parte dos excluídos do processo deste sistema)? Uma forma muito bem oportuna é a patrocinar a querela cristã da piedade ou caridade. Destaca-se no “Novo Testamento” a importância da doação como oferenda divina e não como necessidade de justiça social: “O poder divino deu-nos tudo o que contribui para a vida e a piedade, fazendo-nos conhecer aquele que nos chamou por sua glória e sua virtude” (Segundo Epístola de Pedro, 1:3).

A piedade sob a forma de caridade é uma vil promessa de cura que apenas sustenta a linha entre a vida e a morte. Atos de caridade podem ser muito salutares como dogmas religiosos (salvação da alma avarenta em busca de bonança na Terra Prometida), porém é um nefasto caminho para justificar a suposta amenização da fome. Tratar a questão da fome como um problema isolado e passível tão somente da assistência providencial da caridade na esfera pública é proporcionar a perpetuação latente da degradação humana. A miséria não pode ser estancada com cômodas medidas circenses de piedade contemplativa cujos resultados são paliativos ou inócuos.

Excetuando períodos de guerra ou profundas calamidades naturais, é permanente o desequilíbrio social em praticamente todos os países, sejam os mais desenvolvidos, em desenvolvimento ou subdesenvolvidos (com raras exceções são os países que conseguiram vencer seus desequilíbrios sociais, notadamente os que tiveram um aporte mais socializante de sua riqueza). O que difere tais blocos de países em diferentes condições de progresso material é o apoio logístico que o Estado atua em cada uma destes países, alguns mais propensos à amenização da pobreza enquanto outros relegam seus habitantes à própria sorte. A fome é o símbolo máximo do lento genocídio do descarte humano.

terça-feira, 27 de abril de 2010

Capitalismo Gângster: A falácia do risco moral


De todas as pujantes “virtudes” do modo de produção capitalista, possivelmente a que mais se destaca é o “cinismo”. Seus astutos e varões defensores juram de pés juntos com alguma Bíblia capitalista à mão e sem corar a face, que além de se constituir na maior de todas as panacéias sociais já criadas pelo homem, o capitalismo é o único refúgio para a desnorteada humanidade. Alguns com alguma vergonha na cara alertam que existem alguns “ajustes” a ser aplicado periodicamente ao sistema para ele funcionar como um belo, robusto e preciso relógio suíço. O “racionalismo” derivado do intelecto do capitalista seria o guia para seus investimentos diante das forças “auto-ajustáveis” do mercado.


E quanto às crises periódicas do sistema? Há sim, tudo é bem explicável, segundo seus defensores, e tais crises são meras externalidades que a Microeconomia logo de cara já enquadra, normaliza e sintetiza uma “explicação numérica” convincente. Analogamente, na Física Experimental, seria o que poderíamos dizer, grosso modo, que tais crises seriam “pontos fora da reta”, descartáveis para a análise. Quem assiste passível a uma típica aula dos cursos de Economia abduzidos pelo mecanicismo do “mainstream” neoliberal, sai acreditando que o mundo é tão perfeito, bem além das fantasias imaginativas de Lewis Caroll em seu clássico “Alice”. Para o evangelho capitalista neoliberal, a realidade é apenas uma “mera abstração” quando as idéias fantasiosas de muitos economistas metidos a matemáticos confabulam, aconselham e projetam leis e políticas econômicas para uma sociedade, independente das condições de vida de seus habitantes. Afinal, sob o manto do cadáver de Milton Friedman e segurando a “mão invisível” de São Adam Smith, o importante é o rigor econométrico e não esta bobagem realística que está para fora da janela!


Após o estouro da bolha da orgia financeira de 2008 nos Estados Unidos, voltou com força na mídia especializada na roleta russa da economia uma expressão muito peculiar criada pelo economista estadunidense Kenneth Arrow, o “risco moral” (do inglês, “moral hazard”). Entre outras palavras, o termo significa a segurança que os agentes econômicos terão quando suas operações derem tudo errado e os mesmos saltarem da janela, alguém vai socorrê-los imediatamente com uma cama elástica. Traduzindo de forma mais enfática: em última instância, o “otimismo do mercado” consiste claramente que sempre haverá um “imbecil” de prontidão para socorrer suas cafetinagens especulativas. Porém, não é qualquer “imbecil”. Aqui entra o papel do Estado guardião primordial das “forças do mercado”. O jogo é simples: quando não interessa, o discurso é sempre de “ausência da interferência do Estado”, na contraparte, quando bem interessa, o papel do Estado é venerado (e exigido!). Contradição? Não! Apenas mero cinismo dos arautos do “vigor capitalista”.


Muitos defendem a necessidade que os agentes do sistema capitalista tenham “bons modos” ao se sentarem-se à mesa. Para os tais defensores de um “capitalismo cavalheiro”, é pertinente saber como se portar à mesa com os talheres, guardanapos, sorrir para os convidados, tratar com delicadeza e leve sedução a dama e ficar atento ao movimento dos molares que cravam no alimento. Coisas que todo bom capitalista precisa saber ao entrar num exímio restaurante e não cometer gafes. Religiosamente, para seus defensores, é necessário ter uma “formação moral” para os agentes econômicos: o verniz da “ética”. Logo, com o discurso da “boa educação” o capitalismo estaria livre dos riscos ocasionais uma vez que todos os agentes do sistema tratariam seus competidores entre si de forma ética e cavalheira com cortesia exemplar. Logo, partindo deste pressuposto, os riscos seriam diminuídos e a desconfiança entre os agentes seriam minimizados. Eis a lição do “capitalismo civilizado” a ser aprendida!


Quando se sai da porta da sala de aula ou de algum destes belos auditórios e suas palestras fantásticas, a realidade é outra. Na selva do cotidiano, o que impera é o capitalismo gangster, aquele motivado pelo lucro a todo custo e independente dos meios para conquistá-lo. Normas são boas para de verborragia destilada na retórica de juristas e socialites, mas não condiz com a realidade de uma sociedade pautada pelo darwinismo social. A mobilidade social é a mote de uma sociedade meritocrática que se divide entre os idiotas e os espertos. Quem sobrevive na selva do capital ganha todos os louros e aos derrotados restam à amargura de conviver com a vergonha e o desprezo social. A violência explosiva é uma das formas da vazão do ser humano em ascender socialmente (a qualquer preço!) dentro de uma sociedade materialista e pseudo-moralista que premia os “bons e astutos” e expele os “ruins e derrotados”.


Certa vez, era aluno de um dado curso quando um colega, em tom narcíseo, comentou para a classe o lucro que ele tinha ganhado com investimentos da bolsa de valores. Recordo da “receita de sucesso propalada” por ele: “é só ser esperto e saber investir que o lucro é certo!”. De prontidão, a minha sensação era de ser um medíocre “otário” por não ter a tal “capacidade visionária” destilada pelo astuto colega-investidor (Naquele momento, certamente Wilhelm Reich diria que era meu “Zé Ninguém” interior pulsando). Como criar riqueza do absoluto nada? Vale lembrar que para isto serve uma premissa fundamental que rege os sistemas químicos e físicos da conservação da massa na Natureza, a conhecida Lei de Lavoisier: a rigor, nada se cria e tudo se transforma (ou seja, não se cria ou se elimina matéria dentro do nosso universo conhecido). Todavia, como no mito de Pandora às avessas, nos sistemas financeiros capitalistas a premissa se inverte e subverte a Natureza: tudo se cria, jorra e se esbanja do nada absoluto para a felicidade dos “espertos e sábios” do sistema.


No capitalismo é atávica a ilusão do crescimento exponencial da riqueza sem lastro. As bolhas que estouram com uma periodicidade quase cíclica é o maior exemplo da falácia do “elixir mágico capitalista”. Quem paga a conta pelos estragos feitos pelos gângsteres econômicos? Daí toda a retórica do “não-intervencionismo” cai por terra e sobra sempre para o Estado cuidar da faxina que socializa as perdas com todo o erário público, ou seja, a receita originada de impostos pagos pelos trabalhadores. Indutor da crise do capitalismo de 2008, os Estados Unidos pouco fez de concreto até o momento para evitar novas bolhas especulativas além de despejar uma estratosférica soma de bilhões de dólares dos contribuintes para salvar um grupelho de gângsteres em nome do “saneamento do sistema”. Não é à toa a irritação do presidente Barack Obama sobre a recusa do Senado estadunidense em não discutir regras mais rígidas para o sistema financeiro do seu país: "Eu estou profundamente desapontado que os Senadores republicanos tenham votado em bloco contra o início de um debate público da reforma" (Folha Online, 26/04/2010). Para os parlamentares estadunidenses, o importante é rezar para os “bons modos” dos capitalistas e os ares “racionais” da economia de mercado. É importante frisar que estes mesmo capitalistas são os principais financiadores das campanhas políticas dos honrados congressistas: quebradeira sim, punição jamais!


O capitalismo é um sistema regido essencialmente pela especulação (alguns utilizam um eufemismo elegante, o “risco de oportunidade”). Os riscos fazem parte deste tear capitalista em busca da maximização dos lucros. Todavia, há uma contradição paranóica dos que desejam se aventurar por suas entranhas e sair ileso, é o que se costuma denominar de “aversão ao risco”. A fobia perante a incerteza lateja nos agentes, porém jogar sem arriscar é uma ilusão. Na luta por mercados consumidores, o estímulo norteador canalizado pelos lucros resulta numa selvagem competição que coloca todos os agentes em pé de guerra constante. A instabilidade do jogo é uma regra. No mercado financeiro, a guerra é pela aquisição das melhores ações e se livrar dela no “tempo certo” a fim de ganhar maior lucratividade. Outra comparação é a ação de um comprador de um veículo que deixa de utilizá-lo para não ocorrer o risco de bater ou desvalorizar seu patrimônio móvel. O medo ao risco é um mecanismo inconsciente do agente que deseja prevalece seu instinto de ganância material. Notadamente, o “espírito capitalista” consegue desenvolver com maior robustez às facetas mais pobres e mesquinhas do espírito humano.


Uma clássica tática de minimizar perdas é a criação do monopólio. Num mercado monopolizado ou cartelizado, os riscos são menores uma vez que os competidores não coexistem de forma predatória. Em conluio, há um controle de processos e preços que ditam as normas do mercado (ou seja, a falácia dos mercados auto-ajustáveis cai por terra!). Em grandes mercados, a tendência é sempre a busca pelo monopólio que permitirá uma maior solidez das operações sem ter a inconveniência de eventuais riscos. Este mercado não existe sem estar amparado pelos agentes políticos. Logo, política e economia são mecanismos indissociáveis para o capitalismo e a garantia que os riscos serão minimizados pelo Estado em épocas de crises.


O risco moral de um capitalismo regido pelo bom samaritanismo dos agentes torna-se risível se contrastado na realidade econômica. Mesmo sabendo dos ricos, dificilmente um capitalista hesitará em adentrar num mercado o qual ele vislumbre possível e polpudo ganho. Se entrar num dado mercado e lucrar, será um “vencedor” e se perder poderá solicitar uma extensão dos empréstimos em bancos estatais (principalmente se depositou generosa contribuição nas últimas campanhas eleitorais dos políticos que estão na “situação”). Mais do que “ter” é “parecer ter”. Os interesses privados regem com grande vigor as ações públicas. É exemplar quando capitalistas em vias de bancarrota conseguem facilmente empréstimos em bancos estatais e um mero trabalhador tem que ficar pastando em condição humilhante por alguma possibilidade de financiar seu próprio teto ou remendos para sua exígua renda de alimentação básica familiar.


A especulação sempre será o mote do ofício capitalista na busca alucinada pelo lucro, independente do seu agente saber ou não manejar os talhares dispostos na mesa. E na pior das hipóteses, o capitalista gangster compra o restaurante, faz uma festa privativa para seus convidados, adquire algumas garotas para abrilhantar o salão e às favas com a obsoleta etiqueta. Ah, claro: a conta vai para você, trabalhador! Afinal, não existe festa grátis!

quinta-feira, 22 de abril de 2010

As Pétreas Heranças do Velho Muro


Entender o mundo após a queda física e simbólica do Muro de Berlim (1989) não é uma tarefa trivial. A derrocada do mundo socialista vem bem antes da queda do famigerado muro, porém a materialização de suas conseqüências poderá ser discutida referencialmente a partir da década de 1990.


O mundo ocidental e seus satélites de influência entraram numa onda neoconservadora baseada em duas premissas: o mercado liberal e a democracia (na sua vulgata essencialmente eleitoral). A subida ao poder de Ronald Reagan (1981-1989) nos Estados Unidos e Margareth Thatcher (1979-1990) na Inglaterra marcou a virada conservadora nos centros decisórios da política ocidental e nas economias capitalistas centrais. Substituindo algumas premissas keynesianas da reestruturação macroeconômica do pós-guerra, o estofamento ideário que norteou a economia foi o liberdade irrestrita do mercado cujos arautos pertenceram ao que convencionou chamar de “Escola de Chicago” tendo o economista estadunidense Milton Friedman (1912-2006) como o seu principal expoente. Logo, uma vez que a hegemonia capitalista aterrou o “fantasma do socialismo” (enfatizando a estirpe stalinista) seria possível surgir um “novo mundo” sem fronteiras (econômicas).


Na crista dos “novos tempos”, o filósofo estadunidense Francis Fukuyama sentenciou o “fim da História” como sendo a vitória do capitalismo sobre qualquer outro modo de produção e a democracia burguesa como o ápice da espécie humana. Todo este arcabouço foi escancarado e multiplicado pela Big Mídia internacional que acabou sendo batizada com o termo “globalização” (ou na versão que considero a mais realista defendida principalmente pelo francês François Chesnais, a “mundialização”). A ideologia neoliberal foi corrosiva de tal ponto que estremeceu com todas as estruturas que alicerçavam o mundo capitalista. A antiga ética do “trabalho” forjada pelo usufruto do trabalho foi sendo paulatinamente substituída pela ética do “consumo”. Neste sentido, todas as relações sociais são profundamente transformadas, desde questões cerceadas pelo mundo do trabalho até as questões relativas ao corpo e afetividade.


Palavras e expressões novas de vernizagem neoliberal rechearam o vocabulário do “politicamente correto”: “empreendedorismo”, “responsabilidade social”, “desenvolvimento sustentável”, “relação empresa-cliente”, “missão da empresa”. O imediatismo e rapidez que as transformações ocorrem são tão viscerais a tal ponto que o sociólogo Zygmunt Bauman denominou o momento atual como sendo a “modernidade líquida”. Do celular à TV a cabo, do “empreendedor” de si mesmo à terceirização do trabalhador (vide o exemplo dos operadores de telemarketing), dos sites de relacionamento digital às casas de suingue, o consumismo é a transformação da sociedade em uma horda de consumidores vorazes de indispensáveis futilidades. A necessidade por bens supérfluos transpôs as barreiras das classes mais abastadas e penetrou por toda classe média baixa, incluindo guetos e favelas. São crescentes as despesas das famílias por bens que não são prioridades existenciais. Logo, a vida sob a batuta do hiperconsumo se torna refém de um oceano de possibilidades mercadológicas. A retórica da liberdade se torna a angústia do consumismo. Com estes condicionantes, Giles Lipovetsky denomina nossa era como sendo a “hipermodernidade”.


A “cidadania” (utilizando velhos preceitos da burguesia pós-Revolução Francesa) cedeu espaço para o “clientismo”. Conceitualmente, somos “clientes” e não mais “cidadãos”. Hospitais privados e clínicas médicas tratam da saúde dos seus “clientes”, escolas e faculdades privadas lecionam para “clientes”, torcedores filiados a clubes de futebol são “clientes” dos clubes-empresas, marqueteiros profissionais produzem discursos para “políticos-clientes”. A política se tornou “desnecessária” e os Estados Nacionais vem sendo gradativamente sucumbindo às empresas transnacionais (corporações). A proliferação de ONGs é um exemplo da diluição da política e a terceirização das ações políticas. Tal como uma empresa de “empresa jurídica” qualquer, pode-se abrir ou fechar uma ONG da mesma forma que uma quitanda, mudar de ramo, valores ou objetivos. O curioso que a panspermia de ONGs é supostamente seria um movimento “apolítico da sociedade civil” (como se tal conjectura fosse possível!).


Comparada com o “crash” de 1929 que solapou a economia mundial da época, a crise financeira mundial de 2008, desencadeada a partir da bolha imobiliária nos Estados Unidos, foi outro exemplo do lastro da atualidade da mundialização do capital. Um grupo de empresas de crédito foi à falência no especulativo e mirabolante marcado imobiliário estadunidense e se espalhou pelas bolsas de valores do mundo inteiro. A agiotagem profissional em escola global não encontrou lastro para suas bilionárias operações e a “quebra” de muitos bancos foi inevitável (muitas deles com grande histórico de atuação no mercado). Como um castelo de cartas, um conjunto de empresas transnacionais colecionou prejuízos colossais e devido ao seu poder de influência fez que os governos de Estados-Nações das economias centrais e emergentes viessem a socorrê-las via erário dos contribuintes (leia-se “trabalhadores”). A “socialização das perdas” foi uma espécie de arremedo “keynesiano” no mercado financeiro mundial (ou seja, a ativa ação do Estado para estancar a sangria de dinheiro privado!). O curioso é que para salvar supostamente os empregos (os tais “postos de trabalho”) a maior parte dos sindicatos (praticamente em toda a sua totalidade), pressionou governos nacionais para auxiliarem na doação de recursos públicos para tais empresas transnacionais em dificuldades financeiras. Neste ínterim, esse é um bom recorte do que gradativamente ocorrem com os sindicatos de trabalhadores que perderam sua identidade e seu espaço dentro da correlação forças entre patrões e empregados.


É importante frisar a necessidade do retorno dos estudos da Psicologia e Psicanálise para o entendimento da sociedade em busca de uma visão transdisciplinar do conhecimento social. A diluição das relações pessoais, perda de identidade, a imagem como metáfora narcísea, a descentralização e esvaziamento da política e o estilhaçamento das relações de trabalho formam os alicerces deste arcabouço de um novo mundo multipolar (sem um poder central de decisão) que se tornou tão instável quanto o antigo “velho mundo” dos tempos da Guerra Fria. O “keynesianismo militar” jamais foi abandonado e, pelo contrário, de forma progressiva vem crescendo o rearmamento mundial das grandes potências e de “anãs bélicas” como é o caso da débil corrida armamentista na América do Sul (puxado pelo histrionismo da Venezuela de Hugo Chávez e Brasil do ex-metalúrgico Luiz Inácio Lula da Silva). O novo ator central das relações internacionais e principal candidata a desbancar a hegemonia econômica estadunidense, a China, já vem se armando pesadamente para enfrentar “novos desafios” para a sua condição de potência mundial num mundo multipolar. Outros países emergentes como a Rússia (herdeira do arsenal atômico da antiga União Soviética) e Índia vem fazendo coro à premissa do crescimento econômico com “responsabilidade militar”.

A guerra ao terror é o mote mais usual para convencer os contribuintes a depositarem bilhões de dólares e euros em sofisticados programas das forças armadas contra supostos “inimigos invisíveis”. Quaisquer questionamentos à ordem vigente na democracia neoliberal poderão ser taxados impunemente de ato ou ação “terrorista” (uma destas medidas feitas pelo governo dos Estados Unidos após os atentados de 11 de setembro é o famigerado e xenófobo “Patriot Act”). Afeganistão, Iraque e Irã (o próximo alvo) são exemplos atuais da ação invasora da sanha carcomida imperialista guiada pelos Estados Unidos e apoiada pela União Européia em nome de uma política “antiterror” (atacar primeiro para não ser atacado). Salienta-se a curiosa observação da chanceler da Alemanha, Angela Merkel, a qual dizia que a saída das tropas alemãs de ocupação no Afeganistão seria uma “catástrofe” uma vez que significaria aquele país cair “no caos e na anarquia”. Como se algum chefe de Estado europeu ou estadunidense tivesse algum mínimo de preocupação como o povo afegão se não fosse os bilionários interesses geoestratégicos e econômicos na região!

Até mesmo a questão do uso de artefatos nucleares continua tão vivo quanto às tensões dos tempos áureos da pungente rivalidade ideológica russo-americana na Guerra Fria. Notadamente, ao contrário de uma possível “pacificação” de um novo mundo pós-muro livre das deletérias dicotomias ideológicas, a contradições entre liberdade humana e livre mercado continuam a se aprofundar criando um fosso entre um mundo possível e a realidade crua e disforme.

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Washington D.C. e as Ilusões da Obamania: Contradições do Capitalismo no Coração do Império


Quem poderia imaginar que dentro do coração do maior império da história da humanidade convive um “outro país” mais similarmente parecido com as mais pobres regiões africanas do que a exuberância sedutora do Primeiro Mundo? Para os arautos de plantão do capitalismo tal disparidade é apenas uma “excrescência” dentro do sistema. Para quem não cai na sedução do dogma da beatitude do “livre mercado”, a questão é exemplarmente contundente. Vale a pena destacar a matéria do jornalista Sérgio Dávila para o UOL Notícias sobre as visíveis contrições do sistema capitalista no berço político do império estadunidense (Assista ao vídeo abaixo).


Dávila relata os números da cidade de Washington D.C. (abreviatura de Distrito de Colúmbia), capital dos Estados Unidos. A matéria tem como mérito trazer a tona um sombrio recorte dentro de Washington, a qual o jornalista denomina simplesmente de um "país sem nome" com uma grande quantidade de população negra imersa em índices africanos de HIV e alarmante criminalidade.



América subsaariana

Na capital do império do primeiro presidente negro da história, dos 590 mil habitantes de Washington, 56% são negros. Os índices de infectados com o vírus da AIDS na população adulta de Washington é de inacreditáveis 7% e contrasta com a média de 0,6% do restante do país. Em termos de comparação, segundo o Ministério da Saúde (2007), no Brasil o índice é o mesmo da média da população estadunidense: 0,6%. Os números alarmantes de infectados por HIV na população de Washington acompanham os índices de países africanos mais pobres, tais como Serra Leoa e Costa do Marfim. Até mesmo o falido Estado do Haiti na América Central que está sob ocupação de militares da Força de Paz da ONU possui índices semelhantes a Washington.


Capital mundial do império político e dona de decisões que podem devastar belicamente o planeta, paradoxalmente a cidade Washington goza de índices de criminalidade comparáveis aos das grandes cidades brasileiras. Para conter a onde de violência, a polícia da capital estadunidense recorreu aos bloqueios policiais em bairros mais violentos e passou a realizar triagem de moradores. Semelhante à situação de guerra, como Afeganistão ou Iraque, a polícia local somente liberava a entrada das pessoas que moravam nos bairros. Sob protestos de moradores locais, tais práticas locais de segurança pública foram suspensas. Em Washington, o índice de crimes violentos é de quase 1500 por cem mil habitantes enquanto que no restante do país são três vezes menores: 454 por cem mil habitantes. O apartheid social em Washington se evidencia com mais força na apresentação das estatísticas sociais. Segundo Dávila, em média, há mais negros em situação de pobreza em Washington do que outras regiões do país. Também em Washington desponta com inglórios índices de maiores números médios de população de analfabetos, doentes, mães solteiras e jovens mortos. As contradições entre os ocupantes da Casa Branca e seus vizinhos depauperados mais próximos são sensíveis.



Crise, promessas e encruzilhada obamista

No olho do furacão da crise financeira mundial eclodida em 2008, os Estados Unidos estão longe de uma recuperação da antiga solidez de sua economia, mesmo ainda gozando de prestígio internacional e a manutenção de um mercado atrativo. Após um ano da posse de Barack Obama, a expectativa de uma mudança na estrutura social da população negra nos Estados Unidos vem paulatinamente caindo perante os duros números da realidade.


Herança de sucessivas adminstrações conservadoras e cujo clímax se processou na Era George W. Bush, a tragédia do neoliberalismo para os estadunidenses mais pobres é incalculável. Projetado como a esperança da população negra, Obama prometeu ser a “mudança que a América precisa”. Fortalecido com um sedutor movimento apelidado de “obamania”, eleito com um entusiasmo sem paralelo histórico e grande expectativa nas últimas décadas, Obama esta sendo consumido pelo seu próprio prestígio e promessas de campanha. O tempo continua impiedosamente a girar os ponteiros do relógio e a “mudança” não surge no horizonte das famílias negras estadunidenses imersas na pobreza. Logo, a esperança declina com a magnitude inversa que demora as prometidas e propaladas reformas da administração Obama. Como era esperado, sem a materialização da mudança prometido na campanha eleitoral, o apoio popular à administração Obama vem sofrendo queda vertiginosa. Para exemplificar o desgaste obamista, a aprovação no Congresso estadunidense do controvertido projeto de reforma do sistema de saúde de Obama (algo similar à implantação do programa brasileiro do Sistema Único de Saúde – SUS) foi um calvário político que deixou riscos políticos e a sensação para os seus adversários que o presidente não é “intocável”. No início deste mês, as eleições para membros do Congresso estadunidense também sofreram impacto com o declínio da popularidade de Obama resultado em derrota do seu partido, o Democrata. Naturalmente, a Casa Branca negou qualquer vínculo com a imagem do presidente. Mais uma vez, torna-se patente que não se mudam arcaicas estruturas sociais dentro dos prazos prometidos em campanhas eleitorais mesmo utilizando a maior de toda “boa-fé” dos sistemas eleitorais de uma democracia de livre mercado. Mesmo agraciado precocemente com o Nobel da Paz, a natural projeção do semblante de Obama como líder mundial não minimiza o fardo de ser a mudança que até agora não vingou para boa parte dos eleitores estadunidenses mais carentes e desamparados.



Darwinismo social e a ilusão da democracia neoliberal

Trocando em miúdos e deixando de lado os comezinhos acadêmicos, o capitalismo é um sistema desequilibrado entre “espertos” e “otários”. Cinicamente alguns adoram rotular tal regime como a “terra das oportunidades”, ou seja, a ficção da mobilidade social no meio da guerra da sobrevivência. Fazendo uso de uma alegoria poética, podemos comparar o sistema capitalista com um restaurante. Para uns “espertalhões” do capital, o almoço é sempre grátis. A burocracia dos bem letrados arruma e serve a mesa, e, se fizer um bom serviço, até ganha a gorjeta. Aos munidos de criatividade artística, tocam algum instrumento e fazem shows para animar o ambiente. Os proletários de várias cores e etnias fazem a comida, lavam os pratos e levam o lixo para fora do recinto. Do lado de fora, próximo da porta do restaurante, pares de muitas mãos estendidas e com alguma sorte receberão alguma esmola e restos de comida para que não criem a ousadia de atacar a despensa do restaurante.


A realidade mostra que no capitalismo, as ações políticas são apenas forjadas para a administração do grande capital e das forças produtivas. Nitidamente é possível perceber o discurso falacioso (em geral, bem arquitetado) entre democracia, liberdade e igualdade no sistema capitalista como se fosse possível misturar tais ingredientes e num passe de mágica chegaríamos ao Paraíso prometido em livros sagrados. A economia de mercado com ranço neoliberal suprime a idéia de liberdade e igualdade para uma expressão dona de uma estrelada magnitude sedutora: “oportunidade de mercado”. Impulsionada pelo capital, a democracia é uma mera abstração do “desejo das urnas” com o livre exercício do consumo dos cidadãos.


As contradições socioeconômicas no coração político do império estadunidense são mais uma face evidente das contradições intrínsecas do engenhoso tear capitalista. Mesmo com todo um furor midiático ao estilo da obamania, é impossível um sistema social mais equilibrado ou ambientalmente mais sustentável dentro de um modelo econômico que privilegie apenas a voraz sanha pelo lucro do capital e exploração permanente da mais-valia. Os poderes da tríade do regime democrático neoliberal (executivo, legislativo e judiciário) situam na primeira e na última instâncias como os grandes gerenciadores do sistema de continuidade das forças produtivas capitalistas. Qualquer alteração na estrutura da democracia neoliberal somente será possível sua materialização a partir de fortes pressões de grupos coesos e articulados dentro da sociedade. Como a luta pela sobrevivência da massa trabalhadora, desempregados e refugos humanos contra o poder econômico do capital não é possível escolher regras ou etiquetas, o emprego da força e da violência não poderão ser descartados ou desvalidados. Ressaltando que o monopólio da violência, ou seja, o emprego das forças públicas de polícia e repressão, é exercitado livremente e impunemente pelo Estado a serviço das forças do capital.


São Paulo, Pequim, Berlim, Bombaim, Tóquio, Moscou, Nova Iorque ou Washington. Cada um ao seu modo, mas todos com o mesmo retrato. Seja qual for o pólo de representação simbólica do capital (uma vez que o capital flui pelos dutos econômicos do planeta), é possível encontrar nos seus interstícios a permanente contradição entre os números da geração de bens materiais e financeiros e os números das discrepâncias sociais da pobreza. A cidade de Washington é um relevante exemplo que a democracia neoliberal é um exuberante espetáculo de magnetismo tácito e intrínseca desigualdade. Portanto, sem criar falsas esperanças, na democracia neoliberal políticos como Obama são eleitos não para fazerem a propalada justiça social, mas somente salvaguardar as forças produtivas e a organização do hiperespaço capitalista.






Fonte do Vídeo: Blog do Sérgio Dávila. Disponível em: http://sergiodavila.blog.uol.com.br/
Acesso em 11 de dezembro de 2009.

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Um Elogio ao Autismo: Narcisismo, Misanscene e peripécias da Godiva da Uniban na cínica moralidade à brasileira



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É uma louraça belzebu, provocante
Uma louraça Lúcifer, gostosona
Uma louraça Satanás, gostosona e provocante
Que só usa calcinhas comestíveis e calcinhas bélicas
Dessas com armamentos bordados
Calcinha framboesa, calcinha antiaérea, calcinha de morango, calcinha Exocet
[...]
Pelo rádio da polícia ela manda o seu recado
Alô, polícia!
Eu tô usando
Um Exocet - Calcinha!
("Kátia Flávia", Fausto Fawcett)



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Que o Brasil é um país da farsa e retórica hipócrita não é de causar estranheza a ninguém. Gabamo-nos por construir uma Suíça diplomática do Terceiro Mundo, mas geralmente esquecemos-nos dos números da barbárie explícita da nossa própria Faixa de Gaza escondida nas periferias e rincões pelo país afora. Nos holofotes umbilicais de São Paulo, a Avenida Paulista não espelha o Brasil e tampouco devemos acreditar que tal horizonte pictográfico será palco nos próximos anos da “realidade nacional” apesar das promessas do neoliberalismo-keynesiano. Para os ares da política a partir do eixo tucano-petista, uma nova elite dirigente eclodiu no cenário nacional e mais performático do que as anteriores com misto de sindicalistas emergentes de centrais sindicais e neocapitalistas criaram uma amálgama que podemos identificar como sendo um desenvolvimento “retro-modernista” de uma refundação capitalista à brasileira com maior desenvoltura hipertrofiada da construção capital-trabalho.

Ares políticos, ares sociais. Novos tempos não substituíram velhas e atormentadas práticas. Um celeiro internacional da prostituição e exploração infantil cujas mulheres continuam são exportadas com rótulo de qualidade “made in brazil” como gado para os prostíbulos do mundo inteiro (ironias do agrobusiness!). Adolescentes pobres se prostituem dançando nuas em troca de pedras de crack e alguns tostões em bailes da “cultura funkeira”. Apresentamos peitos siliconados e nádegas avantajadas sacolejantes ao mundo em troca dos dólares do turismo sexual disfarçado da maior “festa popular” do planeta. Ainda patrocinamos concursos machistas de “misses” para todos os gostos e pecuária de corte: “miss Brasil”, “miss penitenciária”, “miss universitária”, “miss garota da laje”, “miss dos maiores glúteos”, “miss mirim” (!) e corre a fértil imaginação à bel prazer. Aplaudimos entusiasticamente e adoramos ostentar a beleza do açougue de “nossas mulheres”. Nas listas imbecilizadas da “sedução internacional” os brasileiros sempre despontam nas primeiras colocações nos diversos “ranking”: mais sedutores, maiores números de orgasmos por metro quadrado, maior número de parceiros. Haja virilidade e libido! Agora como uma nação-olímpica, somos uma mistura da carne violenta com o gozo desmedido salpicado com o espetáculo da barbárie silenciosa. Eis uma caricatura do Brasil retro-moderno: carnaval, futebol, traficantes paramilitares, verde-cinza amazônico e, claro, a apoteose do glúteo empinado. E agora na Era Lula, gozamos da exuberância do capital fictício financeiro polvilhado de miragens miraculosas do pré-sal e bolsas de perpetuação da miséria.


Para retratar nossa Babilônia, reportemos à lenda de Lady Godiva, a mítica aristocrática anglo-saxã que viveu na Inglaterra no inicio dos anos mil. Para cumprir uma aposta feita com seu marido Leofric, o Duque de Mercia, para que o mesmo diminuísse os altos impostos do povo local se por caridade ela desfilasse despida montada sobre um cavalo branco nas ruas inglesas de Coventry. Mesmo duvidando da palavra de sua esposa, o Leofric ordenou que os moradores locais trancassem em suas casas para que ninguém pudesse ter a ousadia de admirá-la. Feito o desfile de Godiva e aposta cumprida, reza a lenda que seu marido retirou os impostos mais altos. A nossa genérica nacional de Godiva do momento é a estudante da Universidade Bandeirantes (Uniban) que ganhou espaço gratuito nos holofotes da mídia e do misanscene de defensores da liberdade.


Recapitulando a novela. Há duas semanas uma aluna enrolada num pedaço de pano denominado “microssaia” (ou vernáculo similar) desfilou seus dotes naturais nos corredores universidade onde está matriculada na região paulista do ABC. Até aí, não é nenhuma novidade o semi-nudismo narcíseo no país da tropicália e das genitálias desnudas. Um apelo ao primitivismo instintivo: provavelmente após incitar à ira feminina do recinto e supostamente “excitar a libido” masculina (sempre uma ótima desculpa!) foi se avolumando uma voluntária horda estudantil de achincalhamento da garota dentro do ambiente “acadêmico”. Um espetáculo de surrealismo fantástico para uma geração que é sempre ovacionada pela mídia por ser “descolada de moralismos”. Quantas ilusões da hipermodernidade! Dentro do galpão estudantil da Uniban construiu-se um legado importante da iniciativa privada da Educação “Superior” para a sociedade: o misanscene do autismo estudantil hipermoderno. Após conquistar histridentemente à apoteose com sua vestimenta em compasso com os instintos primitivos da horda acadêmica local, a situação perdeu-se o controle e temendo pela segurança, a Godiva da Uniban precisou ser escoltada pela polícia para fora da faculdade. Os inusitados minutos de fama se estenderam para o neófito estrelato da Godiva, a ficção se consolidou esquizofrenicamente e, para variar, a mídia ganhou motivos para lucrar pontos preciosos no IBOPE.


Os fatos que se sucederam foram mais bizarros e patéticos do que o show da pós-adolescente e a catarse hormonal de seus colegas “acadêmicos”. Sem pestanejar, do pátio da faculdade, a garota foi para as telas dos shows baratos de exploração da miséria humana na televisão. Para capitalizar o momento, se expôs no vídeo com o mesmo “vestido” para os lares da “pudica” sociedade, portou-se como a vítima dos hormônios de “abutres universitários”, ganhou seu cachê (dificilmente irá ter comprovação tal fato) e não será surpresa se conseguir contrato para exibir seus dotes em alguma revista masculina de “ensaios fotográficos” ou estrelar alguma produção do mercado pornográfico (o “roteiro” é demasiadamente propício!). Certamente a Godiva da Uniban irá conquistar mais fãs e dinheiro do que toda a sua vida batendo cartão como os demais “trabalhadores comuns” a serviço do capital. Para as dores no cotovelo dos seus detratores pseudo-puritanos, méritos da garota e “sorte” do país que irá ganhar mais uma candidata a “modelo-atriz-apresentadora-universitária-e-sangue-bom”. Talvez se ela for mais emotiva, deixar milimetricamente cair uma gota de lágrima (um bom colírio sempre ajuda!) em suas declarações midiáticas poderá até mesmo estrelar numa novela do “baixo clero” da televisão ou participar de algum Big Brothers da vida. Com alguma sorte e solicitação de grupos de ONGs, a Godiva da Uniban ainda poderá ser canonizada na pós-vida pela excelência de seus pares de pernas em prol da excitação libidinal dos onanistas de plantão, além de valorosa contribuição para “intelligetsia” universitária do capital. Em suma, mais uma provável candidata criada para o incipiente time dos personagens sacros brasileiros. A mídia adora o show da barbárie apimentada com sexo, intrigas e comezinhos autistas! Como diria o folclórico apresentador das futilidades burguesas da nossa pátria mãe gentil, Athayde Patreze: “Simplesmente um luxo!”.


Do outro lado, deslanchou o espetáculo institucional da estupidez. É notório que os únicos objetivos de um galpão universitário que explora mensalidades dos seus alunos são três e vale destacar: lucrar, lucrar e lucrar. A Meca do neopetismo visando o “voto da juventude”, o PROUNI, foi o grande espetáculo de desvio de recursos públicos para os bolsos dos empresários da educação. Com polpudos empréstimos do BNDES, para estas empresas o único compromisso é com o lucro fácil, rápido e garantido. Os galpões universitários tratam a Educação como um açougue ou uma mera quitanda. Portanto, não foi estranho que aos autistas gestores da Uniban não sabendo como agir diante da repercussão da Godiva (e inusitada garota-propaganda da faculdade) preferiam utilizar o recurso óbvio da “moralidade”. Como resultado de tamanha sapiência intelectual dos gestores da Uniban, a entidade expulsou a garota com direito a uma inverossímil justificativa com matéria paga estampada nos principais jornalões paulistas. Pelo olhar do capital, a bizarra expulsão da garota poderá ser melhor ainda para a poupança da nossa Godiva que poderá pedir uma rechonchuda indenização movendo um processo contra as lambanças de sua querida universidade. Ademais, fale deixar claro que soa patético o subterfúgio da moralidade para capitalistas imorais! Para ampliar a misanscene e morder um naco de espaço na mídia, a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB-SP), a provinciana União Nacional dos Estudantes (UNE) e o Ministério da Educação (MEC) entraram em campo, além de outras entidades de classes e ONGs ligadas à “defesa da mulher”. Em nome do espetáculo da hipocrisia, o circo somente aumentou e perdeu-se o foco do que realmente estava em pauta. Quanto vale o show?


Por mais patético que foi o teatro adolescente entre o enlace da exibicionista Godiva e sua hormonal turma, tudo não passou de um acontecimento pontual que deveria estar dentro do recinto da faculdade. Porém, graças ao poder das filmadoras dos celulares de seus colegas de turma da garota e a exposição na internet via site do YOUTUBE, as cenas midiáticas atravessaram as cascas de lona da faculdade. Paradoxalmente, uma faculdade academicamente insignificante ganhou status nacional e pela lógica da mídia, o espetáculo foi benéfico para todas as partes: notoriedade da sigla universitária, a consagração da Godiva, os “levantes estudantis da juventude” (como soa romântico!) e o uso da exploração da barbárie como “validade” de participação da cidadania. É importante lembrar que estamos na era da superexibição narcísea que tanto faz sucesso entre adolescentes, pós-adolescentes, agências de publicidade e propaganda entre tantos outros nichos. Todos os atores ganharam, exceto para a Educação e para o arcabouço de uma sociedade mais saudável.


Conseqüentemente, precisou do desfile exibicionista da Godiva e os uivos de seus colegas da faculdade para os enormes traseiros acomodados de entidades de classes saírem das cadeiras confortáveis com ar aclimatado. Com a exposição na mídia, todos querem parecer como “guardiões das liberdades civis”. Se tais pessoas realmente tivessem preocupadas com as “liberdades civis” jamais teríamos um hecatombe nuclear no sistema educacional público. Ambientes degradados, violência gratuita, fracassado projeto pedagógico e circulação constante da barbárie que vicejam nas unidades escolares públicas. Em nenhum momento a OAB-SP, UNE ou o MEC tomou medidas efetivas para intervir decisivamente na Educação Pública ou sequer levantaram questionamentos mais incisivos. Ao contrário, tais entidades fingem-se de cegas, surdas e mudas na amplitude cínica da complacência com a barbárie real e não apenas despertar a sanha protetora para brandir no teatrinho ficcional. Criações estéreis do Estado Neoliberal com o mote de abstração da “sociedade civil”, muitas ONGs que adoram enrijecer suas musculaturas financeiras com verbas públicas, aparecem justamente nestes momentos para ocupar espaço na mídia. O importante é fingir que está se fazendo “alguma coisa” para tudo se manter exatamente no mesmo lugar. Alguns incautos bradaram aos quatro ventos olhando cinematograficamente para o cinegrafista: “Liberdade para a calcinha! Abaixo a burka do preconceito!”. Pela lógica da pseudo-libertinagem, se não é possível “estabelecer critérios” para vestimentas para determinados lugares, então tudo é possível e plausível. Se o pano foi inventado para cobrir nossas “vergonhas”, por que então não abolir as vestimentas? Logo chegamos a um beco sem saída. Falsos moralismos à parte, se ficarmos reféns destas falsas retóricas simplistas da estética da indumentária humana, o debate não levará a nenhum lugar plausível. Apenas criar musculatura de um debate vazio.


De volta à barbárie real, na sociedade brasileira o “errado” é o “certo” (o inverso também é possível). Não existem limites para os impulsos destrutivos humanos e apenas minimizamos seus efeitos. Com trauma totalitário dos “anos de chumbo”, dádiva da herança de nossa classe militar, vivemos nos anos da complacência e liberdade assimétrica. Pais que não educam filhos são apenas confortáveis e assépticos “amigos”. Famílias multimídia das relações humanas e uma miríade de abstrações dos teares afetivos. As causas são colocadas em panos quentes e fingimos a complacência. O aluno que ofende ou agride gratuitamente um professor é um desamparado social em “situação de risco”. Alguém assalta e seqüestra um ônibus, posteriormente vira herói de cinema. Traficantes e assassinos são heróis “marginalizados”. Policiais viram clones mais-que-perfeito de Charles Bronsons. Latifundiários multimilionários são vítimas indefesas de “favelados do campo”. Sindicalistas que se enriquecem gerindo sindicatos de fachada é a esperança do mundo proletariado. Garotas materialistas e seminuas são mártires da nova “liberdade feminina” e do novo mundo acadêmico do capital e da mídia da barbárie.


Reentrâncias para a reflexão. Diga-se de passagem, os gritos de protestos e a queima de sutiãs em praça pública em prol da construção libertária da sexualidade ao estilo de Simone de Beauvoir do passado recente, hoje cedeu espaço para estampar de pigmentos coloridos para encobrir o corpo (as libertárias “tatoos”), ampliação da degradação silenciosa do trabalho feminino, aumento dos índices de problemas cardiovasculares (antes era uma “conquista feminina”) e o direito ao vômito feminino alcoolizado nas calçadas (para não dizer o direito feminino de literalmente urinar na rua! E por que não?). O progresso da ilusão material movido pela riqueza narcísea do espetáculo misanscene da mídia. Adentramos nos subterrâneos da barbárie: caras e bocas, desapego humano e futilidade intelectual de uma voraz sociedade de consumo movido ao descarte material, descomprometimento ideológico-afetivo, angústia avassaladora e altas doses de um magnetismo canalizado pelo binômio Prozac e “free love”. A transgressão gratuita passou do “afrontamento” para a obrigatoriedade hipermoderna. Aos poucos o reacionário se torna “cult”, a vanguarda se torna “obrigação” e as liturgias entre sagrado e o profano são apenas meretrizes menores do grande espetáculo do consumo imediato de adjetivos e condutas sociais. Logo, uma bobagem adolescente qualquer toma vulto de acontecimento tão significativo como à queda do Império Romano. Até a mídia entronar outra bobagem adolescente para ocupar o vácuo da mediocridade e a incipiência de valores. Sintoma da hipermodernidade, até mesmo a heterossexualidade se encontra desnorteada na necessidade de um midiático mundo de necessidades psicanalíticas de midiático pansexualismo universal. Lembrando o intelectual francês Guy Debord, a sociedade de mercado, alienada pela sedução da reificação da mercadoria, é movida pela arte do espetáculo e não pelas vitais necessidades humanas. Uma sociedade protagonizada por valores líquidos se forma e deforma sob qualquer circunstancia ao sabor da luzes de qualquer espetáculo. Ao sabor dos ventos midiáticos, um punhado de “conceitos” de qualquer coisa vira histriônicos “preconceitos”. É proibido proibir (mas depende de qual referencial será adotado)!


Como hipócritas “guardiões da liberdade”, saímos em defesa do direito de exposição gratuita das genitálias de pós-adolescentes, mas recuamos no apoio de muitos trabalhadores que calejam na luta inglória para construir uma sociedade mais justa. Claro, é mais “fashion” acolher o zunir das birras narcíseas de Barbies de outdoors do que erguer qualquer bandeira de protesto a favor daqueles que penam em condições desumanas de trabalho e educação. Sempre tem aqueles que irão refutar dizendo que as “liberdades civis” são mais importantes que as “outras” liberdades. Geralmente se faz um emaranhado de confusão entre liberdade e excrescência. Aliás, um dos argumentos banais mais freqüentes do baluarte capitalista contra o ideal Socialista é que “todos terão direito às mesmas coisas” (porém o narcíseo ego foge desta premissa como o diabo se afasta da cruz!). Portanto, os conceitos de “liberdade” e “igualdade” são sempre relativizados quando se referem ao confronto da mídia (imaginário) e da realidade. Mostrar a genitália gratuita pode; a igualdade econômica não pode. Manifestar ruidosamente contra pseudo-moralismo pode; fingir a pseudo-libertinagem pode. A oportunista rapinagem do sistema jurídico em apoiar molecagens de pós-adolescentes pode; dar assistência jurídica gratuita à milhões de pessoas sem condições econômicas na semidemocracia brasileira não pode. Deixar o livre mercado dos galpões educacionais privados engolirem dinheiro público pode; resgatar da barbárie o sistema público de Educação não pode. Exibicionismo gratuito pode; sinapse neural não pode. Alienação pode; emancipação não pode.


Elogio ao “jeitinho” nacional. Naturalmente é mais fácil ficar do lado do “senso comum” do que a sua contraparte. Na retórica da cínica moralidade à brasileira, relativamos tudo a “custo zero”. Invertemos virtudes e elogiamos a esperteza. Queremos ter as virtudes sociais de uma Suíça, mas queremos somente pagar os impostos raquíticos do Zimbábue. Queremos o trono de Economia do “Primeiro Mundo”, mas não queremos as indigestas obrigações internacionais de uma potência madura de grande porte. Somos sedutores e espertos; astutos e sexuais. Somos herdeiros egocêntricos de uma terra abençoada por Deus e ornamentada por natureza (Salve Jorge Ben Jor!)... O Diabo “pros outros”! Portanto, nada melhor do que a excentricidade mordaz dos pelos pubianos e a excitação da libido pansexual de uma Godiva tipicamente nacional. Para desvelar os caminhos da moralidade à brasileira, é preciso eliminar a inconveniência da microssaia e visualizar o tamanho homérico do complacente cinismo pseudo-libertário do autismo social.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Crime, império e impunidade: As quadrilhas de exploração da Fé e a crise na crença em Deus




: Rubrica: filosofia. Na escolástica, crença religiosa sem fundamento em argumentos racionais, embora eventualmente alcançando verdades compatíveis com aquelas obtidas por meio da razão (Dicionário Houaiss Eletrônico)

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Levantar-se-ão muitos falsos profetas e seduzirão a muitos. (Mateus, 24.11)



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Segunda-feira, 02 de novembro: Dia de Finados. Os principais portais da internet de notícias de São Paulo estampam a “Marcha para Jesus” que segundo estimativas da Polícia Militar embarcaram um milhão de pessoas no show religioso na capital paulistana. O mesmo destaque da “marcha” sairá nas capas impressas de todos os jornais paulistanos nesta quarta-feira. A fé que movimenta mercados, ganha votos, constrói impérios e fortalece quadrilhas.


Com direito a trios elétricos, fáceis discursos de louvores a Jesus e óbvias invocações aos pseudo-moralismos, o movimento foi muito mais que uma “ação religiosa”. Com a adesão de outras seitas que utilizam a religião para seus obscuros interesses, a “Marcha para Jesus” é promovida pela seita religiosa denominada “Renascer em Cristo” de propriedade do casal Estevam e Sônia Hernandes. O destaque este ano da “marcha” vai para o uso como palanque de políticos como o senador Marcello Crivella (PRB-RJ) principal braço político da maior seita religiosa do país, a Igreja Universal de Edir Macedo e de outros políticos menores ligados às seitas de diversas denominações, como o “homem de fé”, Bispo Gê (DEM-SP) ligado à própria Renascer. O evento também marcou a primeira exibição pública do casal Hernandes que retornaram ao Brasil após cumprirem pena nos Estados Unidos por crimes de contrabando de dinheiro e conspiração para contrabando de dinheiro. Comprovada pelas autoridades estadunidenses, o casal da Renascer são pessoas de idoneidade ilibada! Vale a pena uma nota do surrealismo deste gênero de “show da fé”, além da mescla de artistas e papagaios de palanque de olhos esbugalhados para as eleições do próximo ano, foram montadas duas piscinas para realizar “batismos”. Que show, “my God”!


A “marcha” deste ano foi batizada com um pomposo título que merece menção: “Marchando para derrubar gigantes”. Certamente o casal Hernandes deveria estar se referindo a Justiça dos Estados Unidos os quais ainda possuem pendências, pois a Justiça brasileira é totalmente míope, omissa e leniente com as quadrinhas que utilizam do mote religioso para formarem impérios do crime. Previsivelmente estúpida é a retórica esfarrapada do discurso dos chefes destas máfias organizadas, denominadas “igrejas” ao reportar à balela da “discriminação” ou “perseguição religiosa” de suas organizações. Deixando o PCC e o Comando Vermelho no chinelo, muito melhor do que o negócio do narcotráfico e contrabando de armas, a exploração da fé religiosa é muito mais simples, fácil e exponencialmente lucrativa; principalmente num mundo mercantilizado e desnorteado de valores básicos de conduta e dignidade humana. A era do excesso também é a era do atrofiamento da crença e da vertigem existencial.


Que o mercado da fé é tão velho quanto Adão e Eva ninguém deve pairar alguma significativa dúvida. O que distingue as antigas das atuais seitas é o seu potencial canalizador de recursos numa rapidez impressionante para construir impérios econômicos. Guerras, crimes, pilhagens, torturas, banhos de sangue e tantas outras atrocidades foram cometidos pelos homens em nome de Deus. O mercado das crenças sempre foi o mais lucrativo de todos os negócios bem antes da construção do capitalismo como sistema econômico como um auspicioso avassalador e acumulador de riquezas e bens materiais. O temor a Deus ou a força de coerção divina foi um grande modelador de atitudes e comportamento imposto por um grupo de comando aos seus subordinados. A ideologia religiosa sempre foi um poderoso estratagema na construção de impérios políticos e econômicos, privados ou públicos. Na ausência absoluta de respostas para simples (porém, não triviais) questões existenciais, o nome de Deus ventilou ao longo dos séculos para servir como um cobertor existencial que amenize o sofrimento e um alimento existencial para a esperança e dor. Aliás, nada mais humano que a necessidade de continuar “vivo” perante a total desesperança do seu meio circundante. A fé é a projeção do inconsciente para a construção de um imaginário simbólico a ser delimitado com “real”. Um dos principais estudiosos mundiais sobre mitos, o estadunidense Joseph Campbell, trás em suas análises uma provocativa e instigante construção teórica pela observação de grande similaridade de ritos e mitos que constituíram diversas crenças e religiões ao longo de diferentes sociedades possibilitando o nascimento de tais manifestações religiosas a partir de raízes ou geratrizes comuns. A religiosidade é, em muitos aspectos, uma necessidade tão humana quanto às necessidades fisiológicas, afetivas ou sexuais. A partir de tais premissas que se apoderam as diversas quadrilhas de exploração da fé ou da boa-fé alheia.


O império criminoso constituído pela seita da “Igreja Universal do Reino de Deus” (IURD) de Edir Macedo é um marco referencial do quão é lucrativa a exploração da fé. Dona de um império incalculável, a pujança econômica da IURD se enraizou por diversos setores da sociedade, fomenta financeiramente partidos políticos de quase todos os espectros ideológicos, além de ter seu partido próprio (com o irônico nome de Partido Republicano Brasileiro, PRB, aliás, sigla partidária do vice-presidente, José de Alencar) e constituir uma sólida base no Congresso Nacional. Ressalta-se o exponencial império midiático de Edir Macedo e sua IURD, dona de um sólido aparelhamento dos meios de comunicação (aquisição de rádios, jornais e televisões) e possui bases (os templos ou “igrejas”) em quase todas as regiões do planeta Terra (talvez a exceção ficasse sendo a ausência da “Universal” nos pólos gelados na Terra e no deserto do Saara!). A Renascer do casal Hernandes é outro império econômico que segue os mesmo passos da “co-irmã” Universal, com a aquisição de templos, canais de comunicação e enraizamento dentro de partidos políticos. Demais seitas com mote religioso seguem a mesma linha empresarial do crime organizado baseando no “pioneirismo” da IURD, tais como a “Igreja da Graça” de R.R. Soares, “Deus é Amor” de David Miranda, além de outras seitas mais exóticas como a “Sara Nossa Terra” e a bizarra e surreal “Bola de Neve”.


Que tais quadrilhas motorizadas pela fé sofisticam cada vez mais seu poder de atuação dentro da sociedade não é de causar estranheza. A retórica falaciosa do casal Hernandes sobre o “preconceito contra os evangélicos” é totalmente previsível na medida em que esta é a única “salvação moral” para ocultar seus crimes e salvar seus próprios pescoços atolados na lama do crime organizado. Como no exemplo bíblico da via-crúcis de Jesus Cristo, Edir Macedo e o casal Hernandes se equiparam na santidade de seus atos. Eles se projetam como a encarnação do próprio Jesus Cristo em sua jornada bíblica na Terra. Previsível e nenhum pouco sofisticado o patético discurso de “perseguidos”: tudo tão simples quanto dois e dois resultarem muito além de cinco.


Todavia, há poucos dias, causa espanto uma declaração completamente equivocada e desorientada do Presidente da República, Lula da Silva, em mais um evento eleitoreiro pró-Dilma. Na sanha por apoios esdrúxulos e coleta de votos, Lula desta vez pousou na inauguração de novo empreendimento da Rede Record de propriedade da Edir Macedo e sua Universal. Em mais uma das falas improvisadas de Lula, o presidente disse que a emissora de Edir Macedo é “vítima de preconceito” por parte de alguns setores da sociedade. Porém Lula “esqueceu” dos processos a respeito de formação de quadrilha e lavagem de dinheiro contra a quadrilha de Edir Macedo que estão empacados na morosidade criminosa da Justiça. Bem, para quem há pouco tempo dizia que no Brasil Jesus se aliaria à Judas na política doméstica, talvez a fala de Lula soasse para uma pá de cal para alguns resquícios da moralidade na política. Neste ínterim, cabe uma reflexão: se Deus alia-se com o Diabo, estaria Ele menos “puro” ou Satã mais “divino”?


A impunidade da Justiça beatifica a construção de impérios do crime com a mesma facilidade que se constrói fáceis e ingênuos louvores à Jesus. Quanto aos partidos políticos toda a discussão é ignorada e os mesmos adotam o “discurso de avestruz”, inclusive os partidos que se auto-intitulam mais esquerda do leque político. Em troca de votos, qualquer fé é bem-vinda. Uma cara banalização ideológica na triste rotina de desorientação e omissão!


Nem o Diabo faria melhor e mais folclórico. A “Marcha para Jesus” é um grande espetáculo de liturgias midiáticas do vazio da fé imediatista. Um ótimo cartão de visitas para as quadrilhas que utilizam a exploração desta mesma fé, com promessas envoltas de um bizarro espetáculo que entre outras histerias coletivas. Como numa instantânea liquidação de fim-de-feira, os “bispos” destas seitas prometem aos seus desesperados fiéis “alcançar Jesus” pela via material aquisição de riquezas, emprego, casamento e “descarrego” (isto é, após cada fiel estar quite com o dízimo da fé!). O palco bizarro destas seitas é atacar os preconceitos sociais, culturais e sexuais e seus semi-divinos “bispos” prometem a cura miraculosa de enfermos, portadores de necessidades especiais, alcoólatras e usuários de drogas, “tirar mulheres da prostituição”, “extração de encosto provenientes de rituais afrorreligiosos”, “curar homossexuais” entre outras “benesses da cura divina”. Os espetáculos de insanidades são imensos e macabros provenientes dos discursos irresponsáveis e preconceituosos destas quadrilhas que operam como seitas religiosas. Cabe ressaltar também na raiz básica destas retóricas pseudo-religiosas é o esvaziamento existencial da grande massa de indivíduos que buscam a qualquer custo uma “iluminação” para suas vãs existências num mundo cada vez mais fugaz, efêmero, embrutecido e alienado.


Não é raro encontrar “fiéis” que depositam até o último níquel de suas famélicas economias nas mãos destes “bispos” acreditando que estará contribuindo para a construção do “Reino dos Céus”. Inconscientemente, é possível inferir no imaginário destes “fiéis” é o pragmatismo materialista e imediatista desta “modalidade de fé”. Uma vez que cada níquel depositado é a certeza que haverá um lote no Céu esperando por sua futura alma a migrar “desta vida para outra”.


A crise na crença em Deus. Quando a mercantilização da sociedade transborda para todas as esferas sociais e imaginárias, não é difícil de entender o quanto é impossível combater ou dizimar por completo as quadrilhas que exploram a ingenuidade, a ganância e o desespero existencial de uma miríade de fiéis com “descrédito” em Deus. Em outras palavras, a “Marcha para Jesus” é mais um exemplo de mobilização de um pragmatismo materialista e descrente de um idealizado poder divino do que meras obviedades de uma “exibição de fé”. Neste caminho, Deus e o Diabo são meros acessórios descartáveis do imaginário de uma complexa sociedade alicerçada pelo aprofundamento de um arraigar materialista e vazio existencial. O fosso existencial está muito mais abaixo do que aparenta as águas da discórdia e do desespero humano.

UMA PRAGA PÓS-MODERNA: O FANATISMO IDENTITÁRIO DENTRO DA ESCOLA

  Na reportagem do Zero Hora , veículo de comunicação do Rio Grande do Sul, apresenta-se uma entrevista com mais uma fanática catequética, ...