O chamado “pensamento decolonial” configura-se como um poço sem fundo de charlatanismo, operando por meio de antagonismos exacerbados e alimentando-se da celeuma sensacionalista em torno do “preconceito”.
Apresentado como o suprassumo do “pensamento crítico pós-moderno”, esse receituário reacionário decolonial reduz-se, na prática, a uma colagem de pseudo-conceitos que resulta em um caldo caricatural, no qual predomina uma oposição dicotômica simplista e se invoca uma irracional “guerra cultural”.
Diante desse quadro e com base no lero-lero das
premissas decoloniais, observando-se a reportagem em questão (vide aqui),
questiona-se: o princípio segundo o qual o “terreiro ensina” seria legitimado,
enquanto as demais seitas e religiões permanecem relegadas à marginalidade? Um
conjunto específico de “saberes ancestrais” passaria a ser considerado válido,
ao passo que outros seriam sistematicamente desqualificados?
Segundo essa lógica monolítica, o culto em
terreiros de umbanda ou candomblé é tratado como legítimo, enquanto se dirigem
críticas aos cultos evangélicos associados às igrejas neopentecostais ou ao
alegado “eurocentrismo” da Igreja Católica.
Esse conjunto difuso de elaborações
fantasiosas, associado ao discurso decolonial, passa a ser mobilizado como
justificativa para campanhas em torno do chamado “preconceito religioso”,
frequentemente empregado como categoria explicativa genérica e universalista,
pouco delimitada e insuficientemente problematizada no interior dessas
narrativas.
Adotam-se pesos e medidas diferenciados quando
se substitui a necessária e cética neutralidade científica do pesquisador por
um ativismo irresponsável, inquisidor e performático, baseado em conceitos
alucinógenos oriundos do senso comum. Eis o núcleo de uma distorção acadêmica
que se manifesta quando a lógica da pesquisa é submetida a pressupostos
ideológicos frágeis, característicos do charlatanismo decolonial.
Qualquer crítica a esse modelito medíocre,
simplório e caricatural é taxada, por seus ativistas, de “preconceito” e se
torna alvo sistemático de perseguição inquisitorial por parte de seus séquitos,
colonizados pelas querelas catequéticas dos chamados “estudos decoloniais”. Eis
o nível repugnante, desonesto e escatológico da doutrina decolonial, fantasiada
de “pensamento progressista”.
Nesse contexto, quando a universidade se
converte em extensão de construções teóricas destituídas de rigor, promovidas
por pseudo-pesquisadores, a Educação e a Pesquisa Científica e Acadêmica
degradam-se em um amálgama de senso comum superficial, disseminado por agentes
oportunistas.
Cabe, portanto, indagar se o papel da
universidade consiste em difundir pseudo-conhecimentos de natureza religiosa ou
mística. O ensino e a produção acadêmica não devem servir como espaço para a
introjeção de militâncias passionais de cunho narcisista, partidário,
alucinógeno ou messiânico, mas constituir ambientes orientados pelo rigor
intelectual, pelo estudo sistemático, pelo compromisso social e, naturalmente,
pela observância de metodologias adequadas.
A luta contra falsificações científicas,
construções ilusórias e distorções conceituais torna-se cada vez mais complexa
quando o senso comum passa a ocupar o lugar de critério legitimador no interior
das escolas e universidades. Trata-se de uma tarefa civilizatória afirmar o
conhecimento acumulado ao longo de séculos como elemento fundamental, tanto
para ampliar a visão crítica de mundo quanto para construir uma sociedade que
beneficie todas as pessoas, e não apenas um grupo restrito.
(Wellington Fontes Menezes)

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